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Bertrand Russel e o Comunismo

Cá deixo a versão portuguesa deste pequeno texto do Bertrand Russel sobre o comunismo. Duas notas prévias, isto não é um texto magistral do calibre habitual de Russel nem foi escrito como manifesto, é só uma pequena dissertação incluída num livro de ensaios de âmbito mais alargado. A segunda , foi escrito em 1956 , muito antes da invasão da Checoslováquia e das obras de Soljenitsin , para citar dois pontos que serviram para explicar aos lúcidos a realidade do sistema soviético e da teoria subjacente. 12 anos antes dos tanques russos entrarem em Praga e mostrarem ao mundo a fraternidade soviética já Russel percebia bem o que estava em causa.

“Em  relação a qualquer doutrina política há que pôr duas questões: 1) os princípios teóricos são válidos? 2) É provável que a  sua prática política leve a um aumento da felicidade humana? Pela minha parte, creio que os princípios teóricos do comunismo são falsos e penso que as suas práticas  são de modo a produzir um incomensurável aumento da miséria humana.

As doutrinas teóricas do comunismo derivam de Marx, na sua maior parte. As minhas objecções a Marx são duas : é confuso e o seu pensamento é quase inteiramente inspirado pelo ódio.

Chega-se à  doutrina das mais valias, que supostamente demonstra  a exploração dos assalariados no capitalismo, de duas maneiras : a) aceitando sub-repticiamente a doutrina da população de Malthus, que Marx e todos os seus discípulos repudiam explicitamente; b) aplicando a teoria de Ricardo ao valor dos salários mas não aos preços dos artigos manufacturados.

Marx ficou completamente satisfeito com o resultado, não pela concordância com os factos ou pela coerência lógica mas porque é calculado para  provocar fúria nos assalariados. A sua doutrina de que todos os eventos históricos foram motivados pela luta de classes é uma imprudente e falsa extensão à história universal de certos eventos proeminentes em França e Inglaterra há cem anos. A sua crença de que existe uma força cósmica chamada Materialismo Dialéctico que governa a história humana independentemente   das vontades humanas é mera mitologia.

Apesar disso os seus erros teóricos não teriam tido muita importância excepto pelo facto de, tal como Tertuliano ou Carlyle, o seu principal desejo era ver os seus inimigos castigados, e importava-se pouco com o que acontecia aos seus amigos no processo.

 A doutrina de  Marx era suficientemente má, mas os desenvolvimentos por que passou com Lenin e Stalin tornaram-na muito pior. Marx tinha ensinado que haveria um período revolucionário de transição a seguir à vitória do proletariado numa guerra civil e que durante esse período o proletariado, de acordo com a prática usual depois de uma guerra civil , iria privar de poder político os seus inimigos vencidos. Esse período seria a ditadura do proletariado. Não devia ser esquecido que na visão profética de Marx a vitória do proletariado chegaria depois de este ter crescido até ser a vasta maioria da população.

Desse modo a ditadura do proletariado concebida por Marx não era essencialmente anti democrática. Na Rússia de 1917, porém, o proletariado era uma percentagem pequena da população, sendo a grande maioria camponeses. Foi decretado que o partido Bolchevique era a parte do proletariado com consciência de classe e que um pequeno comité de líderes era a parte do partido bolchevique com consciência de classe. A ditadura do proletariado tornou-se deste modo na ditadura de um pequeno comité e por fim de um só homem , Estaline.

Como o único proletário com consciência de classe, Estaline condenou milhões de camponeses a morrer de fome e milhões de outros ao trabalho forçado em campos de concentração.Chegou ao ponto de decretar que as leis da hereditariedade seriam   doravante diferentes do que tinham sido até ali e que até os genes devem obedecer a decretos dos soviéticos em vez dos de Mendel, esse padre reaccionário. Não consigo de modo nenhum perceber como  é possível que algumas pessoas que são simultaneamente humanas e inteligentes tenham conseguido encontrar alguma coisa de admirável nos vastos campos de escravos produzidos por Estaline.

Sempre discordei de Marx. A minha primeira crítica hostil foi publicada em 1896, mas as minhas objecções ao comunismo moderno são mais profundas que as minhas objecções a Marx.É o abandono da democracia que  acho particularmente desastroso Uma minoria apoiando o seu poder nas actividades de uma polícia secreta será sempre cruel, opressiva e obscurantista. Os perigos do poder irresponsável foram geralmente reconhecidos durante os séculos XVIII e XIX  mas os que esqueceram tudo o que foi dolorosamente aprendido nos dias da monarquia absoluta voltaram ao pior da idade média sob a curiosa ilusão que estavam na vanguarda do progresso.

Há sinais de que com o passar do tempo o regime russo se tornará mais liberal. Apesar de isto ser possível é muito longe de ser garantido.Entretanto, todos os que prezam não só a arte e a ciência mas uma suficiência de pão e liberdade do medo de que uma palavra descuidada da sua criança ao professor possa condená-los a trabalhos forçados na remota Sibéria, devem fazer o que estiver ao seu alcance para preservar nos seus países um modo de vida mais próspero e menos servil.

Existe quem, oprimido pelos males do comunismo, seja levado a concluir  que o único modo de combater esses males é  uma guerra mundial.Considero isso um erro.A dada altura tal política poderia ter sido possível mas agora a guerra tornou-se tão terrível e o comunismo tão poderoso que ninguém pode dizer o que restaria de uma guerra mundial e seja o que for que restasse seria provavelmente tão mau como o comunismo dos dias de hoje. Esta previsão não depende dos efeitos inevitáveis da destruição em massa por meio de bombas de hidrogénio e talvez de epidemias engenhosamente propagadas. O modo de combater o comunismo não é a guerra. O que é necessário em complemento dos armamentos que vão dissuadir os comunistas de atacar o Ocidente é uma diminuição dos motivos para descontentamento nas partes menos prósperas do mundo não comunista.

Na maiorias dos países da Ásia existe uma pobreza abjecta que o Ocidente deve aliviar na medida em que está ao seu alcance. Existe igualmente uma grande amargura causada por séculos de domínio Europeu insolente na Asia. Deve lidar-se com isto com uma combinação de tacto paciente com anúncios dramáticos renunciando às relíquias de domínio branco que sobrevivem na Asia.  O comunismo é uma doutrina criada a partir da pobreza , ódio e conflito. A sua disseminação só pode ser parada diminuindo a área de pobreza e ódio.

Este gráfico mostra a evolução da pobreza absoluta no mundo desde 1820. É notório que a tendência era já de queda quando o Marx avisava que só o socialismo nos podia salvar e que continuou e continua a  cair . Os comunistas que me façam um desenho a explicar como é possível que esta evolução coincida com a expansão e consolidação do capitalismo global, que era suposto só trazer miséria às massas. Feliz centenário.

World-Poverty-Since-1820

 

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