Início » História » Outras Independências

Outras Independências

A Catalunha continua ao rubro, os cabecilhas da conspiração (ou líderes patrióticos, consoante o ponto de vista), fogem para a Bélgica,  os que têm coragem  regressam e vão dentro. Por cá confundem-se presos políticos com políticos presos e o número de especialistas em Direito Constitucional espanhol explodiu. Eu não sei se a prisão deles é legal e justificada ou não mas, como sou contra este processo,  gostei de ver. Esta foto mostra o projecto de líder a exibir orgulhosamente 5 notificações judiciais  consecutivas pelo seu continuado incumprimento da lei. Agora já não tem tanta pressa nem orgulho no facto e fica com a defesa um bocado fragilizada:  “Eu sabia bem que estava a quebrar a lei mas nunca pensei que levassem isto tão a sério a ponto de a querer aplicar!”.

DNuyIfFUMAAtGMZ

De qualquer maneira, posso ter-me rido por ver a demagogia ir de cana mas prender (não este, que não tem tomates,  os outros todos)   parece-me  contra producente,  não acalma ninguém nem resolve nada, antes pelo contrário. É dar argumentos aos adversários de mão beijada, mesmo que o peso todo da lei esteja do lado do estado central, prender opositores serve mais a oposição do que outra coisa, a menos que estejamos a falar de um sítio como a Rússia ou a Venezuela, em que é uma técnica normal e, a julgar ela durabilidade dos regimes,  bastante eficaz. De um país como  Espanha esperava-se outra coisa, mas  os espanhóis nunca foram conhecidos por serem macios.

Vale a pena nesta altura lembrar duas outras tentativas relativamente recentes de independência, uma falhou, a outra teve sucesso.

A primeira foi a da Escócia, em 2014. Ora a Escócia é um país  há muito tempo,  faz parte de um Reino Unido em conjunto com a Inglaterra, Gales e a Irlanda do Norte e desde sempre que muitos escoceses contestam essa união e pedem o regresso a uma Escócia independente, só aí já têm um caso muito mais forte que os catalães, querem voltar  a ser uma nação. A chachada histórica que foi o filme Braveheart fez crescer exponencialmente a simpatia pela causa independentista, desde  1934 que existe um partido independentista, que foi concorrendo a eleições, espalhando a sua mensagem e o seu programa até que ganhou maioria na Escócia autónoma e finalmente a questão chegou a referendo.

Se há povo pouco revolucionário é o britânico,  é uma das coisas que eu admiro neles, directamente relacionada com a fleuma,  qualidade que aprecio muito. Ao longo de uns mil anos de História tiveram uma revolução, em 1688, que estabeleceu a monarquia constitucional. Há quem diga que nem essa devia ser chamada “revolução”, foi mais o culminar de um processo longo de afirmação do poder do Parlamento que até passou por uma guerra civil e uma república que durou dez anos.

O Reino Unido não tem uma constituição escrita como a maior parte dos países mas tem um corpo de leis e jurisprudência de séculos que explica e regula o modo como o Reino é Unido. Perante a agitação dos escoceses, os políticos britânicos fizeram o que fazem os políticos sofisticados e inteligentes, sentaram-se a negociar o modo como se podiam responder às aspirações de um grupo crescente de cidadãos. Duvido que houvesse na lei britânica provisão para uma secessão de um dos países que compõem o Reino Unido, mas num processo que devia ser exemplar houve anos de negociação e organizou-se um referendo em 2014.

84% dos escoceses votaram, eliminando logo aí dúvidas quanto à validade do resultado,  55,3% dos votantes disseram que a Escócia estava bem assim, 44,7% queriam um estado soberano, ficou assim. O referendo, por não ter sido organizado à margem da lei, foi livre , aberto, precedido de uma campanha de informação (e propaganda) de ambos os lados e resolveu a questão do separatismo escocês (até chegar o brexit, mas isso já é outra questão) . Hoje em dia a própria líder do Partido Nacional Escocês afasta novas tentativas de referendo e secessão, muito porque há consciência clara de que as pessoas iam ficar mais pobres  e a economia ia sofrer, e porque ainda há políticos que acreditam que a sua principal tarefa é melhorar a vida real e o dia a dia das pessoas e não fornecer-lhes  ilusões, panaceias e banha da cobra.

Não houve motins, não houve prisões, não houve debandada de empresas nem fugas de políticos, mais uma vez os britânicos mostraram ao mundo como funciona uma democracia moderna e se agora vai para lá uma salganhada medonha por causa do brexit devem-na pura e simplesmente ao populismo e ao calculismo pessoal de alguns políticos, as mesmas causas dos problemas na Catalunha.

No outro extremo da escala política e social temos o Sudão do Sul, nação  independente desde 2011 por secessão do Sudão , país que apesar de não conhecer pessoalmente tenho como sendo o fim do mundo. Passei quase uma semana no Mar Vermelho a navegar ao largo do Sudão e da Eritreia, do outro lado é a Arábia Saudita e tirando um furacão no Atlântico não me lembro de ter tanto medo no mar, só de pensar que se tivesse que arribar a um porto seria  um porto no Sudão arrefecia-me o sangue.

Algumas pessoas se calhar ainda se lembram do Darfur, até se fez  uma cançoneta pop que teve muito sucesso e  ajudou a chamar a atenção para causa. Andava toda a gente angustiada com  o genocídio das tribos negras do sul pelos árabes do norte e a atenção que isto trouxe à região encorajou os separatistas do Sul, a atenção internacional pelo genocídio e o facto de uns 75% do petróleo do Sudão estarem no Sul.

Como estes independentistas lutavam contra um regime liderado por um gajo que até tem mandato de captura pelo Tribunal de Haia, o ocidente, na ânsia de ser bonzinho e certamente também com um olho no petróleo, apoiou o separatismo do Sudão do Sul. Intensificou-se a guerra e declarou-se a independência. Lembro-me perfeitamente de ler um artigo na National Geographic, cheio de fotos lindas a leonizar o chefe dos independentistas e cheio de perspectivas melosas e optimistas para a nova nação e lembro-me  de pensar : estes não aprenderam rigorosamente nada em cinquenta anos de independências africanas.

O período de atenção da imprensa e, por conseguinte, da opinião pública, mede-se em dias e como o mundo apresenta constantemente dezenas de pontos de fome,  peste, guerra e cataclismos vários, hoje já ninguém quer saber daquilo para nada.  Continua a guerra e a miséria no Darfur , que curiosamente continua parte do Sudão depois de ter sido o caso que mais contribuiu para a criação do Sudão do Sul.

E que tal vai a jovem nação do Sudão do Sul, 6 anos depois da independência? Vai como seria de esperar, guerra civil, miséria, corrupção e  ódio tribal A guerra civil demorou só dois anos a rebentar  e os sudaneses do sul são tão ou mais miseráveis do que eram como simples sudaneses. Eu não passo de um curioso destas coisas,  que lê uns livros e acompanha umas notícias e espanta-me a sério como é que a generalidade dos políticos e especialistas  envolvidos nas organizações internacionais não viu tal como eu que a coisa nunca ia resultar. A ONU deve ter uma percentagem enorme de funcionários e oficiais que ou são muito ingénuos ou são estúpidos ou são completamente cínicos e andaram lá a ajudar a organizar uma independência que sabiam ia correr assim.

Falo destes dois casos não para dizer que nenhum territorio deve ser independente mas sim que têm que ser observadas um número de condições antes de se falar nisso. Na Escócia havia condições, havia processo, cumpriu-se a vontade das pessoas. No Sudão não havia condições nem processo e  cumpriu-se a vontade dos poderes de facto. Na Catalunha há condições mas não se criou nem respeitou um processo, agora tenta-se cumprir a vontade de uma minoria mas já está tudo tão inquinado que não acredito que haja salvação, entendendo como salvação um compromisso que garantisse antes de mais a paz e tranquilidade na Catalunha e depois o tal processo, desta vez um a sério liderado por gente séria , para  perceber e medir  com legalidade as intenções dos catalães e agir de acordo.

Como se não houvesse já bastantes detalhes patéticos nesta história, hoje a Venezuela veio exigir à Espanha respeito pelas liberdades e libertação dos presos políticos.  Passei quinze minutos a tentar encontrar uma frase para rematar isto mas não consigo.

Anúncios

Responder

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s