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Populismos

Continua a farsa na Catalunha, agora completa com um golpe de teatro e a fuga de Puigdemont para a Bélgica, para não ser preso e julgado. Depois destes meses em que os estrangeiros que não conheciam a figura puderam ver o seu nível, ideias e estatura, finalmente pode aquilatar-se também a sua coragem e confiança na causa pela qual mergulhou a Catalunha na confusão e divisão: não existem.

Um verdadeiro aspirante a estadista, por oposição a um cacique regional atingido por um ataque de megalomania, teria exposto a sua ideia e  o seu caminho e tinha-o percorrido até ao fim, se o fim fosse uma cela, seria uma cela, como testemunho da luta contra injustiça e opressão do Estado espanhol. Um gajo do calibre do Puigdemont agita, mente, troca-se todo, confunde, hesita  e por fim foge com medo das consequências dos seus actos. Mais ou menos por esta altura os apoiantes locais da independência catalã já estão a renegar o homem e a separar calmamente uma boa ideia de uma  má execução, dispositivo que justifica ideias de merda desde a aurora dos tempos, mais famosamente o comunismo, que até hoje, e já estou convencido de que até sempre, vai ter gente a defendê-lo com essa tese : a ideia é boa, a execução é que foi má. Ah, percebo, é muito possível, é pena é que só se aplique a causas tradicionalmente de esquerda por não tenho memória de ouvir uma alminha que seja a dizer por exemplo “o fascismo até tinha aspectos positivos, infelizmente foi implementado por gente má”. Não, o fascismo é inapelavelmente mau mas o comunismo tem nuances e eu que gosto tanto de uns como de outros fico com vontade de os mandar todos….nem sei.

O Público descobriu símbolos fascistas numa manifestação pela unidade de Espanha, e fez disso notícia. Pois é, símbolos fascistas, que vergonha, já foices e martelos vêm-se regularmente em tudo o que seja manifestação, mas isso já não é notícia, é normal, é saudável, é positivo que em 2017 tenhamos que levar diariamente com o branqueamento e normalização do comunismo, fico doente. Entretanto o mesmo jornal , sobre a vitória eleitoral de um candidato de direita na Austria diz que os populismos estão aí , é um artigo escrito por uma jornalista que até ganhou um prémio por um trabalho na Grécia em 2011 mas que não encontrou lá nenhum populista, só encontrou esperança, e  nem aqui ao lado o Podemos lhe cheira a populismo, é evidente que para esta senhora populismo só existe à direita.

Vi este videozinho sobre a História da Catalunha , partilhado por uma daquelas pessoas que simpatiza com o independentismo porque o governo central é de direita e cuja opinião mudaria imediatamente se em Madrid mandassem socialistas e na Catalunha fosse a direita a querer independência.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fxavier.basoko%2Fvideos%2F10215022689947829%2F&show_text=0&width=560

 Está muito interessante mas não consegui ver nele um único argumento ou justificação para um estado Catalão independente.Não sei se estas pessoas acham que basta contar a História de uma terra para lhe conferir  automaticamente direito à independência ou se acham que devemos voltar atrás e rever todas as decisões históricas criadas por força das armas, negando-lhes as consequências e a validade. “Se foi à bruta, não vale”, ora aí está um bom princípio para repensar a História e as fronteiras da Europa.

Na guerra de Sucessão Espanhola os catalães decidiram apoiar o candidato ao trono que acabou por perder , Barcelona foi ocupada em 1714 e sofreu as consequências de ter lutado pelo lado que perdeu. Lutaram, perderam, acabou. Séculos mais tarde, na Guerra Civil espanhola mais uma vez alguns catalães decidiram lutar contra o Estado central.cMais uma vez perderam, mais uma vez se afirmou que a Catalunha é uma região de Espanha sem apelo nem agravo, e depois da autonomia conquistada e votada, depois de a Espanha se ter tornado uma democracia moderna, um Estado feito de muitas regiões, em que os cidadãos têm as mesmas liberdades e garantias que os das outras regiões,  pensava-se que a questão estava finalmente resolvida mas enquanto houver revolucionários por vocação, enquanto houver políticos ambiciosos e sem escrúpulos, enquanto houver pontos de fricção para semear a discórdia, enquanto houver intelectuais prontos a teorizar e enquadrar qualquer  “revolução” , nenhum assunto está encerrado.

Os comunistas e seus sucedâneos falam em primeiro lugar no sagrado direito à auto determinação dos povos  (com a URSS funcionava muito bem, essa autodeterminação dos povos) e já vi as comparações mais absurdas possível, por exemplo perguntarem-me se eu também era contra a independência de Timor Leste. É uma comparação estúpida mas estou habituado, tal como não me espanta ver lembrado que “em 1640 éramos nós”, como se o Hegel tivesse mesmo razão e a História caminhasse ao longo de uma linha  com um sentido claro e inevitável que faz com que haja um estado natural para uma terra ou região, e esse estado natural seja  uma entidade independente.

Enquanto não me mostrarem sinais claros de opressão, de discriminação e de injustiças sofridas por cidadãos por serem catalães; enquanto não me mostrarem em que é que uma Catalunha independente diferiria para melhor de uma Catalunha região de Espanha; enquanto não me apontarem o que é que os Catalães ganhavam com a independência além de orgulho que nunca pagou contas a ninguém, e mais importante que tudo, enquanto não provarem que há uma maioria do povo catalão a querer independência, não acredito no mérito da causa.

Uma notícia bastante reveladora dos processos morais de boa parte destes independentistas: Os 33 deputados dos partidos independentistas catalães não renunciaram aos seus lugares em Madrid aquando da declaração de independência, mostrando bem que há ligações que se podem quebrar mais facilmente que outras e que é mais fácil pedir aos outros que renunciem a certos privilégios do que renunciar aos nossos. Cambada de hipócritas interesseiros que passa  a vida a fulminar Madrid mas largar o seu lugarzinho e mordomias, tá quieto.

Tal como o líder independentista se queixou  de que a acção do governo central era  contra a constituição depois de renegar a mesma constituição, estes senhores exigem um país para si mas  querem ser deputados noutro país, ter voto na matéria em decisões do país que querem abandonar. Parece-me bem.

Tenho alguma pena dos milhões de catalães que estavam satisfeitos com a sua condição de catalães, espanhóis e europeus e que sabiam que os seus problemas não se resolvem com uma mudança de regime e estado político. Que estão a ver o seu país revirado por ideólogos e demagogos  , vizinho contra vizinho, e que agora encaram meses largos de convulsões políticas, consequências económicas negativas e agitação em geral, e vão sair disto mais pobres ( ou menos ricos) do que eram, acabe como acabar.

Para que não se fique a pensar que o facto de sermos uma nação com 900 anos em que toda a gente fala a mesma língua e tem  a mesma religião nos torna imunes a este género de delírios, aqui fica a página do Movimento pela Independência do Algarve , que tem no facebook 260 seguidores e em 2011 anunciava  a criação do seu braço armado. Tivémos sorte,  a Brigada Medronho não fez atentados em defesa da autodeterminaçao da Nação Algarvia mas ainda vai a tempo. O ridículo não mata e isso às vezes é pena.

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One thought on “Populismos

  1. pois, é isto…
    relembrando que o grande george orwell foi um dia fascinado pelas lutas da esquerda, nomeadamente a guerra civil espanhola, na qual simpatizava pela esquerda catalã…e foi lá mesmo que começou a desconfiar dos comunismos e afins.

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