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Uma espécie de independênciazinha

Depois do drama, da encenação, das hipérboles e das declarações apaixonadas, o chefe dos independentistas da Catalunha falou ao povo que se concentrava na  praça e o via na TV,  centenas de milhar de pobres escravos de Espanha, cansados de séculos de opressão e miséria, aguardavam a esperada e histórica declaração de libertação. Acreditavam  que a sua vida melhoraria mesmo se em vez de viverem na Catalunha, região autónoma de Espanha, passassem a viver  na República da Catalunha. Puigdemont compôs a franja e disse  que declara  a independência… mas fica suspensa. Ou seja , não há independência nenhuma.                      DLzGf8OXcAAcaQ-

Como começou a ver a vida a andar para trás, como se tornou aparente que milhões de catalães estavam contra a ideia, que ninguém na Europa se oferecia para mediar a questão quanto mais reconhecer um estado catalão, que as empresas debandavam e os particulares começavam a levar as suas poupanças para outro lado, que a Fitch avisou  que o rating de Barcelona caía logo com a independência, e assim sucessivamente… teve que se vergar à realidade. Todos os inconvenientes e problemas óbvios que os independentistas nunca discutiam ficaram de repente muito mais próximos e evidentes, e o sr Puigdemont pedalou para trás na melhor tradição dos demagogos quando as suas mentiras são expostas. Junta-se assim ao grupo liderado pelo Tsipras, grupo de políticos que agitam as paixões da população com ideias fortes, amanhãs que cantam  e promessas de toda a ordem para na hora H baquearem e dizerem “afinal as coisas não podem ser bem como eu vos tinha dito”, por mil outras palavras. Outro mestre da demagogia é o Pablo Iglésias, que depois de meses a agitar sem papas na língua não só pelo confronto da Catalunha com o estado central mas pela  independência real  já veio elogiar o Puigdemont pela sua sensatez. Pela sensatez que demonstrou em não fazer o que o Iglésias defendia. Na mesma declaração e mostrando bem o grau de alucinação que vai na sua vida, comparou a Espanha à Turquia. É surreal.

Fiquei satisfeito pelo que na prática é a suspensão da declaração de independencia  porque como escrevi aí atrás temia que a loucura prosseguisse a fundo, que o Puigdemont fosse de palavra e coragem e declarasse mesmo que nascia ali a República da Catalunha, e seguia-se senão o caos algo parecido.

Não tenho conhecimento de mais nenhuma declaração de independência de validade diferida, de alguma ocasião em algum  país em que um dirigente ou movimento tenha feito uma algazarra e espalhafato épico para depois subir ao palanque e dizer “Vencemos! Havemos de ser independentes, um dia mais tarde e consoante decorrer o diálogo com todas as partes!!!”  Absolutamente ridículo.  Explica  Nuno Rogeiro:

O artigo 4º, n.4, da Lei 202-00065/11, dita do referendo, aprovada pelo parlamento catalão em sessão conturbada de 6 de Setembro deste ano, diz que o mesmo hemiciclo precisa de declarar a independência, concretizar os seus efeitos e iniciar o processo constituinte, 48 horas depois da publicação dos resultados da mesma consulta, se estes resultarem em mais votos «sim» do que «não».

A suspensão deste processo não tem cabimento legal, face à norma referida.

Ou seja: viola-se não só a Constituição espanhola, mas a lei do estado a ser.

Daí a desilusão dos que queriam «independência já». E o ceticismo dos que querem uma «negociação», mas sem saber qual.

Não aplaudo  a conduta do estado espanhol nesta história, podiam ter levado as coisas sem usar a força, mas tirei-lhes o chapéu e ri-me bastante quando o Rajoy perguntou ao governo catalão se afinal tinham declarado independência ou não .

É que há leis, leis que não ficam obsoletas só porque mudam os governantes, leis que não são  imutáveis mas que obedecem a preceitos para serem alteradas, e  se não acreditamos nisto mais vale dizer que o melhor é tudo ao molho e fé em deus, venha a lei do mais forte, das maiores manifestações, de quem tem maiores audiências, de quem fala mais alto.

A minha aposta é que depois deste festival vai tudo ficar na mesma por muitos e bons anos. Ficam também a animosidade e divisões criadas pelos independentistas, que certamente não vão desistir, e o prejuízo económico para a região.

O meu voto é que os dirigentes catalães se concentrem mais em fazer a sua terra funcionar melhor e em melhorar a vida dos habitantes, coisas que se podem bem fazer sem mudar o regime político nem precisam de um estado independente.

 

PS: Finalmente há acusação ao Sócrates, um documento com 4000 páginas! Eu e mais uns milhões bons de portugueses estamos plenamente convencidos de que o homem é um corrupto  que enriqueceu ilegalmente  à conta do cargo, e para isso não é preciso ler as 4 mil páginas, é uma opinião baseada no antigo adágio, quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem. 

Que ainda haja quem defenda o homem, que apresenta 24 milhões de euros numa conta da Suíça depois de uma passagem por S.Bento onde ganhava uns 5 mil por mês, ou 10 que fossem,  é das coisas mais extraordinárias que já vi. Que haja que seja capaz de dizer que uma acusação formal de 31 (!) crimes é uma cabala é extraordinário. Que haja advogados a defendê-lo, é preciso e é o trabalho deles, agora que haja gente que ainda espera pela sentença  para se pronunciar, é demais. Este processo é necessário para saber se há condenação e pena, e aos olhos da justiça o homem ainda é inocente, mas isso é aos olhos da justiça, que devia  ser ceguinha, não queiram que nós também o sejamos. Para mim qualquer pessoa que defenda o Sócrates ou está a ser pago para isso ou é estúpido.

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