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Outubro e continuam os incêndios, se calhar a partir de agora já não há uma “época oficial de incêndios”. Dados os resultados não sei bem se declarar uma época oficial ajudou nalguma coisa, sei é que os burocratas adoram essas coisas, em que se produzem discursos , directivas, linhas orientadoras , gabinetes e comissões e quando se vai a ver no terreno está tudo igual ou pior. Como o terreno nunca é nas imediações de Lisboa, que por definição não sofre  fogos florestais, poucos querem saber.

Tal como ainda Pedrógão Grande fumegava e já o governo queria saber da sua popularidade também é normal que nestas últimas eleições se tenham feito boas contas aos votos de sítios ardidos, por arder ou imunes e tenho a certeza de que a maior parte  dos votos vem de sítios isentos de fogos florestais, logo, de pessoas para as quais  os fogos não são grande problema.

Já é um bocado como com o terrorismo, um leitor de notícias na TV começa uma história com ” em Londres  morreram oito pessoas num ataque terrorista….” e o espectador desliga logo a atenção porque já está saturado do tema e Londres é muito longe. Quando ouve “um incêndio de grandes porporções lavra desde ontem em…..” é a mesma coisa, a não ser que seja ao lado da sua casa.

A preocupação do governo com isto é idêntica à do cidadão: diz umas evidências  se lhe perguntam alguma coisa, tipo “é trágico, é uma situação que nos entristece e que tem que ser resolvida” mas daí não passa e a vida segue. Eu não tenho ideia nenhuma do que há a fazer para combater o problema dos incêndios mas esperava que um ministro tivesse, é por isso é que votamos neles e lhes pagamos, porque supostamente sabem mais do que nós e sabem resolver os problemas do país. Supostamente.

Na política partidária é o PSD que está na berlinda, o Passos acabou por se ir embora, a meu ver bem e tarde. Apesar de considerar que já devia ter abandonado a liderança há mais tempo votaria nele outra vez sem problema nenhum, considerando as opções actuais, sobretudo  porque sei  que não há politicos perfeitos e que é tudo uma questão de pesar os defeitos contra as qualidades. No caso dele acho que as qualidades superam os defeitos. Só não lhe perdoo ter tido uma maioria e o governo de um país ansioso por mudar, consciente de que estava num buraco e de que para sair dele era preciso fazer sacrifícios, foi uma oportunidade de uma geração para reformar Portugal mas, não sei se por falta de convicção própria se por cedência ao aparelho e aos interesses instalados as reformas foram caindo pelo caminho. Também no campo da comunicação patinou à grande, o seu governo nunca foi capaz de explicar claramente as causas e consequências das medidas que tomava, nunca foi capaz de saber falar por cima da gritaria histérica e desproporcionada. Sabemos hoje que foi  histérica e desproporcionada porque há hoje casos, medidas, observações e acontecimentos  de teor semelhante  que , simplesmente por ser outro governo em causa, já não incomodam tanto.

De resto, cumpriu uma legislatura, manteve isto à tona, evitou o que tantos queriam: ” seguir a via do Syriza” , via de que agora já ninguém fala e que correu como todos sabemos. Pôs a economia de novo a crescer, o desemprego a cair e ainda conseguiu ganhar as eleições depois de 4 anos de fricção. Não é pouco.

Agora a próxima oportunidade de tornal Portugal mais livre, competitivo, liberal e produtivo só chegará, se chegar, com a próxima bancarrota, altura em que as pessoas voltarão a perceber  melhor a realidade e os limites do endividamento estatal e dos mercados financeiros se tornam outra vez aparentes. Até lá teremos o Estado a inchar,  a gastar sempre mais, a estender a sua sombra a tudo e a aumentar a dívida que já é monstruosa. Que era imprescindível re-negociar mas que por causa de fenómenos paranormais desapareceu do debate e das procupações.

Nos candidatos a líder do PSD só vejo gente que já anda  nisto há 30 anos ou mais, como o Santana Lopes e o Rui Rio, que aparecem para muitas coisas mas certamente que não vêm renovar nada nem propôr nada de muito diferente do que o PSD propôs e fez no passado. Era uma boa altura para um novo partido, esperemos sentados. A Joana Amaral Dias pode criar um partido todos os meses que tem sempre a porta das redacções aberta mas  algum liberal que avance vai ter que lutar o dobro por tempo de antena e remar não só contra a corrente mas contra as nossas  “elites” e a  nossa cultura, não lhe invejo a tarefa.

Entretanto o PS instala-se de pedra e cal no Estado e faz o seu papel,  invulnerável a toda a gama de escândalos, que cá não chegam a ser escândalos, como o da ministra que recebeu uma cantora pop para lhe resolver um problema com um visto. Noutros tempos bradava-se aqui d’El Rei e era indignação certa para semanas, hoje encolhem-se os ombros, é sinal de que Lisboa está na moda e é cosmopolita e que os ministros se interessam pelas pessoas.

Enquanto houver crescimento económico e desemprego em baixa está tudo bem, é um bocado como no clube da Luz onde ninguém quer saber de corrupções, ilegalidades e vigarices desde que a equipa ganhe. Eu também aplaudo crescimento económico e desemprego baixo mas ponho reticências se o crescimento é à custa de mais e mais dívida  e o sector público é o grande empregador.

Uma das muitas experiências de psicologia relatada no livro mais fundamental das últimas décadas  para se perceber como pensamos explica perfeitamente o que se passa em muitas eleições:  perguntaram a um número de pessoas sobre a sua satisafação com a sua vida em geral. A uma parte dessas pessoas era-lhes pedido a dada altura que fossem tirar uma fotocópia. Na fotocopiadora encontravam uma moeda. As pessoas que “encontravam” a moeda revelavam-se muito mais satisfeitas com a vida do que as que não encontravam nada. Se o  simples facto de se encontrar uma moeda é suficiente para alterar a percepção e avaliação da nossa realidade, o que não fará um aumento de 1% numa pensão sobre a nossa opinião sobre o governo. Aos governos espertos basta saber a altura certa de deixar a moeda na fotocopiadora.

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