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Sobre a Catalunha

Uma das vantagens da minha antiga profissão era   passar muito tempo com estrangeiros.Quando digo “passava muito tempo” não estou a falar de trabalhar 8 horas por dia ou ter uns amigos com quem se bebiam uns cafés ou faziam uns jantares, estou a falar de viver juntos num barco  relativamente pequeno , em navegação no alto mar,  24 horas sobre 24  em viagens que ao todo podiam chegar a durar 3 meses. Como no mar não há a maior parte das  distrações comuns, conversas longas são inevitáveis, e eu como gosto de história e política aproveitava para, caso eles fossem pessoas capazes de manter uma conversa, aprender um bocado e ficar a conhecer os pontos de vista e experiências de gente de muito sítio.Se bem que a maioria eram ingleses ou americanos também naveguei com lituanos, panamenhos, franceses, peruanos, brasileiros, alemães, holandeses, belgas, sul africanos, suecos, dinamarqueses, australianos e uns poucos mais.

Há um ano e pouco um dos meus marinheiros foi um catalão. Um dos melhores tipos que já conheci, com um entusiasmo, boa disposição e atitude incrível, uma jóia de pessoa. Nas habituais trocas de emails que precediam o embarque apresentou-se como espanhol, se bem que o seu nome era puro catalão. Ao fim de uns dias a bordo fiz a pergunta que hoje anda na boca de meio mundo :

– E a independência da Catalunha?

A reacção corporal foi correspondente ao famoso “eh pá nem me fales nisso…” mas lá me deu a sua opinião. Em primeiro, irritava-o muito a atitude centralizadora de Madrid e certas atitudes mesquinhas como o desvio de uma autoestrada nova que vinha do Sul de França e o bom senso dizia devia passar por Barcelona mas os castelhanos fizeram (ou iam fazer passar, já não estou bem certo)  por Saragoça em vez de pela costa e Barcelona. Irritava-o o desnível nas contribuições para o orçamento do Estado em que a Catalunha contribui mais do que por exemplo a Andaluzia. De modo inverso, a Catalunha recebe menos investimento público do que regiões mais pobres como a Galiza. Vá-se lá saber porquê, aquela velha máxima do “de cada um de acordo com as suas possibilidades e a cada um de acordo com as suas necessidades” não cai lá muito bem quando se tenta fazer sair das páginas dos livros para a vida real.

Tirando essas reclamações,  certamente de resolução possível sem muito drama, o meu amigo dizia que era tudo uma grande manobra dos políticos catalães, ajudada involuntariamente pelas reacções ineptas e brutas dos castelhanos. O “sentimento independentista” subiu muito a partir da crise finceira de 2009, daí em diante todo o comunista e socialista da Catalunha se convenceu de que a solução para a crise económica era a independência, apesar de não haver nenhum exemplo histórico para citar,  de que a causa da crise e da austeridade era o centralismo espanhol e de que uma Catalunha independente poderia, talvez por artes mágicas, viver num sistema diferente e isolado do resto da Europa.

O meu amigo Pepo esperava que se entendessem e que parassem com agitação e os referendos mal amanhados, era orgulhosamente Catalão mas também se sentia bem como Espanhol, como há por exemplo centenas de milhar de Açorianos orgulhosos que são igualmente Portugueses orgulhosos. Não tem que haver contradição. As expectativas do Pepo não se materializaram e as coisas para lá complicam-se muito.

Liderados por  Puidgemont, que como todos os independentistas, tem um sonho de uma nação nova com ele à cabeça e por figuras da esquerda radical como a  sra Colau , alcaldesa que trabalha para  dificultar uma das principais fontes de receita de Barcelona, o turismo, os políticos agitadores não se coíbem, como todos os bons demagogos, de ir remexer no passado: A ditadura do Franco oprimia os Catalães. Isto é um facto, mas a ditadura acabou em 75 e hoje já ninguém oprime os catalães, pelo que trazer a ditadura ao debate é muito desonesto. Como se fala de política,  também é normal.

É sabido que as revoluções são feitas , por definição, contra a Lei , e que o facto de uma coisa ser legal não quer necessariamente dizer que seja boa , e vice versa. Apesar disso há processos que se observam e respeitam num Estado de direito que os agitadores da Catalunha há muito deixaram de respeitar, e agora parece-me que já vão na fase de criar factos no terreno para confrontar o governo com eles e é nítido que estão desejosos de provocar violência da parte das forças de segurança, falta-lhes o item da opressão física, já coleccionaram  todas as outras opressões, sobretudo as teóricas.

Os meandros do processo não são muito claros  para quem como eu não segue aquilo de  perto. Vou lendo umas coisas, entre elas este texto  de um jovem comunista nacional, para os comunistas foi muito fácil encontrar os bons e os maus da questão : o governo em Madrid é do PP, logo, tudo contra eles. Teve piada porque uns dias depois o correspondente em Portugal do El País respondeu-lhe também no Expresso, dizendo-lhe  por outras palavras que divulgue a sua propaganda e ideologia à vontade e que agite com entusiasmo mas faça um esforço para não mentir  tanto.

Não encontrei sondagens muito reveladoras mas nas últimas eleições regionais os indendentistas não conseguiram chegar a metade dos votos e depois há esta afirmação de um catalão ex presidente do parlamento europeu: 75% dos que falam catalão defendem a independência, 75% dos que falam outras línguas defendem as coisas como estão. As implicações disto são claras.Uma Catalunha independente seria à partida uma nação dividida como poucas.

Para os Catalães é fácil ver em Madrid um inimigo e na independência uma solução. Neste Domingo talvez vá  acontecer um referendo ilegal,  e depois disso ninguém sabe. A minha opinião nisto vale ainda menos do que de costume e é-me naturalmente impossível dizer o que faria se fosse catalão, o que achava se fosse espanhol ou o que é melhor para uns e outros, para isso é preciso ter um livro que explica tudo e nos diz sempre como nos devemos posicionar, como o do camarada José Soeiro. Dito isto, há coisas que tenho por verdadeiras:

  • Se a independência triunfa na Catalunha abre-se a porta a processos idênticos no resto da Espanha, em Itália e em França, com a questão da Córsega.
  • Onde quer que haja uma identidade local mais ou menos definida vai surgir um demagogo populista a explorá-la, procurando o poder pondo-nos a nós contra eles.
  • A União Europeia resiste à saída de um estado membro mas não resiste à desintegração de vários.
  • Para Portugal é muito melhor, em todos os aspectos, ter como vizinha a Espanha do que a Galiza, a Extremadura, a Andaluzia e Castela & Leão, ou combinações destas e outras regiões.
  • As vantagens económicas da independência para os catalães são improváveis, a única vantagem garantida é um  impulso no orgulho, que vale muito pouco. Exemplo : o Castelhano é a 4a língua mais falada no mundo, o Catalão é uma língua que não conta para nada.

Estas são razões válidas para esperar que eles se entendam, que arrefeçam os ânimos e  que encontrem uma solução que mantenha a Catalunha como região de Espanha. Por outro lado acredito no direito à autodeterminação dos povos e no direito dos cidadãos de expressarem a sua vontade pelo voto. Se não os deixam fazer o referendo o tema nunca se resolve.

Como estudante de História não me posso esquecer de que somos uma nação nascida da secessão e  guerra com Castela, que nascemos e crescemos em guerra com eles. Tinha uma certa graça se 875  anos depois do tratado de Zamora e 377 depois da Restauração nos virássemos para os  vizinhos e disséssemos:

-Ainda aqui estamos e a Espanha acabou.

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