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O Afrobeneficiário

Há muitas pessoas a quem o  presente não basta. Os nossos dias, com as suas lutas, dramas e glórias, com as suas  questões fundamentais, dúvidas importantes e  ameaças claras não são suficientes para ocupar os cérebros de pessoas que precisam de outro estímulo e outros combates. Muitos  encontram esse estímulo e essas causas no passado.

À falta de se poder propor uma solução concreta para um problema intratável, seja por ser manifestamente impossível seja por não sermos capazes, podemos sempre culpar quem veio atrás, e isto vale para tudo. Essa pessoa por sua vez faz o mesmo, e é por isso que é um exercício em grande medida fútil, a menos que se consiga apontar a origem e o começo claros da coisa, e é um exercício conveniente quando os “culpados” já estão todos mortos. Os problemas de Portugal começaram com d.Afonso Henriques, os do Sporting começaram com o visconde de Alvalade, os das colónias com o Infante D.Henrique.

Há um problema actual e muito antigo, o racismo , ao qual o Público dedicou recentemente uma série especial  No último artigo da série pessoas do género que descrevi falam sobre o tema . Fiquei com a impressão de que este especial teve como objectivo fazer-nos sentir mal como uma nação que tanto colonizou e escravizou. Que é devida uma qualquer forma de demonstração colectiva de arrependimento e contrição.

Francisco de Sousa  olha para um documento  em que estão registados escravos detidos pelos seus antepassados, e fica chocado. A partir daí, como não pode fazer mais nada sobre isso dado que se passou há séculos, fala sobre o assunto e pensa-o. Partilha o seu choque com os outros. Incita os outros a sentirem-se chocados e pessoalmente incomodados com uma coisa que se passou há 200 anos.  Compreende que a História de Portugal a partir de 1415 é uma história de conquista e colonialismo. Sendo uma pessoa do século XXI, conquista e colonialismo também o chocam e ofendem, e armado com essa ofensa e choque aí vai ele re visitar a História, vê-la e julgá-la à luz do que sabemos e somos em 2017. Com uma teoria unificadora  que nem os intervenientes tinham , é  juíz do passado, sabe quem foram os maus, os bons e os neutros. “Dá-lhe um curto circuito” quando ouve a música conquistador, uma cançoneta que fala das viagens e conquistas dos portugueses. Se calhar aprovaria uma balada negra  a amaldiçoar as gerações de  navegadores e emigrantes.

Passámos de uma História largamente ficcionada , empurrada pelo governo nacionalista, cheia de gestas e heróis em que a podridão ia para debaixo do tapete e era tudo glorioso para propostas como a do pessoal deste especial do Público, que defende que nos flagelemos sobre as vilezas cometidas pelos nossos antepassados e que falemos mais delas. De passar de uma visão rósea e heróica a uma negra e malvada ainda acabamos por ficar sem saber se houve alguma coisinha de bom, se podemos celebrar e admirar alguma coisa da nossa História ou se o melhor mesmo é criar já um imposto especial cujo produto reverta em favor dos cerca de 300 milhões de pessoas que serão hoje descendentes dos escravos feitos e detidos por portugueses; de compensar os descendentes daqueles a quem os portugueses fizeram mal no Oriente e um Dia Nacional da Expiação em que mandamos as criancinhas em procissão  até ao Cais das Colunas a pedir perdão por nós às gerações passadas. Completa-se com  uma Direcção Geral do Passado que se ocupe de nos fornecer o julgamento certo sobre a História: Uma pessoa quer saber sobre a Restauração de 1640 , faz um requerimento e de lá mandam um ofício com a interpretação dos acontecimentos à luz do que se sabe hoje. Neste caso podemos celebrar o fim de um jugo estrangeiro mas devemos lamentar a renovação do poder da aristocracia, pelo que o saldo é quase neutro. Já as Invasões Napoleónicas são inequivocamente negativas ,ou talvez BB1,  o 25 de Abril inequivocamente  positivo e por aí adiante.

Diz o senhor no artigo : a nossa “auto-estima” como país “está muito agarrada ao orgulho” do período da Expansão. Questiona: “Esses ‘Descobrimentos’ acabam a partir do momento em que os portugueses chegam à costa africana e começam a matar pessoas para fazer negócio. Qual o problema de contar essa história?” . Para ele  o período da expansão não é motivo de orgulho porque se mataram pessoas. O que ele descreve  ligeiramente como “chegar à costa Africana” é , em 1417 , um feito que ele não  tem capacidade nem conhecimento para imaginar quanto mais para avaliar. Pensa que os portugueses se levantaram um belo dia  e iam a caminho de outro sítio quando “chegaram” à costa africana e , como é normal, começaram a matar gente. Sim , no fundo os “descobrimentos” (nunca esquecer as aspas) foram isso : chegar lá e matá-los. Todo o resto, as viagens , a Ciência, as descobertas geográficas,as trocas politicas,a miscigenação, o progresso naval, as trocas culturais, as trocas e  avanços económicos, a História de séculos do país “acaba” porque se matou gente.

A História não é boa nem má em agregado, foi o que foi e desconfio bastante de quem propõe aplicar juízos de valor gerais a acontecimentos e processos velhos de séculos. Podem-se e devem-se condenar certos acontecimentos ou práticas, mas com o conhecimento de que isso não muda nada e não esquecendo de lembrar as que também foram boas, ou pelo menos tão boas quanto as outras foram más. O senhor Francisco Sousa dá esta longa entrevista ao Público na qualidade de afrobeneficiário,  a palavra inventada para descrever quem beneficiou de lucros de África. É  um biólogo que gosta da música dos palops, o que para o jornal parece que chega para se falar de cátedra sobre História e racismo e inventar designações. Sr Sousa, boletim informativo : todos os Portugueses são afrobeneficiários, tem que inventar uma palavra que descreva mais especificamente a sua angústia particular. E já agora , a música dos palops que tanto o apaixona não existiria como a conhecemos sem a expansão ultramarina.

Se queremos lutar contra um problema , neste caso o racismo, creio que o que há a fazer não é com que toda a gente se sinta mal por causa do passado colonial e esclavagista de Portugal, o que há a fazer é falar e perceber e educar sobre como é que são as relações raciais hoje , ensinando a História  sem nos querer responsabilizar por ela . Para resolver o problema da poluição nas cidades não é preciso dissertar sobre as fornalhas de carvão da revolução industrial e se alguém acha que nos vamos tornar um país melhor generalizando e externalizando sentimentos de culpa histórica, pense duas vezes.

Se me viessem com  um documento a mostrar que antepassados meus tinham tido       (ou sido) escravos acho que a  minha reacção seria “e o que é que eu tenho a ver com isso?” .

Para acabar , e mesmo sabendo que o objectivo do Público era discutir a situação em  Portugal gostaria que o Francisco Sousa, que ficou  chocado ao saber que os tetravôs tinham escravos e não pode ouvir o “conquistador”, nos desse uma opinião, pode ser mesmo da perspectiva do biólogo amador de música africana, sobre o que é que causará a existência de escravatura  hoje em dia e o que é que ele se propõe fazer quanto a isso. Há milhões de escravos HOJE em mais de 10 países mas o que o preocupa  são os escravos que havia há 200 anos.

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