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Negócios Autárquicos

-Vais votar nestas  eleições? , perguntava-me um amigo francês que mora cá

– Voto sempre.

-E votas em quem ?

– Eu  voto sempre contra os comunistas e socialistas, mas nas autárquicas abro uma excepção, voto mais pelas pessoas do que pelos partidos.

-E  nas legislativas,  votas na direita?

-O meu voto aí  não é por uns , é contra os outros. Eu sei que vai dar ao mesmo mas para mim a diferença é importante.

O meu amigo franziu o sobrolho,  tentei explicar melhor com os exemplo de todos os que votaram no Macron para impedir que a Le Pen avançasse, é o mesmo princípio. De qualquer maneira acho a divisão direita/esquerda muito ultrapassada, gostava de ver o debate e a escolha fazer-se entre colectivismo e individualismo ou estatismo e privatismo. Gostava de ver um partido liberal   mas em Portugal não existe política além da luta entre os que controlam o Estado e os que querem controlar o Estado, o papel dele não se discute  e é para continuar assim. Quem me dera estar errado mas isto é uma coisa cultural, pelo menos desde o Marquês de Pombal que o Estado é não o recolhido autor das regras ,o fiscalizador da justiça e o operador da partilha , derradeiro porto de abrigo de infelicidade própria ou pobreza alheia, mas o salvador da sociedade, o motor da economia, o distribuidor mor da riqueza, em suma , o dedo demonstrador do sentido clarificador da História . Um partido que venha reclamar e lutar pela redução do papel e influência do Estado em Portugal vai  lutar contra quase 300 anos de história e tradição, é um combate muito assimétrico.

Nestas eleições autárquicas devo votar no incumbente, tal como nas últimas também o fiz, e o incumbente perdeu. O actual presidente da Câmara é um tipo educado e calmo , comunica bem, representa bem o concelho e as suas políticas são as mesmas dos outros e da região, por arrasto: gerir empréstimos e fundos europeus,  fazer projectos de candidatura a mais fundos, empregar pessoas quer façam falta quer não e em geral manter isto a andar, devagarinho mas a andar. Num município como este não se pode vir com ideias revolucionárias nem rupturas, aliás, duvido que algum município do país seja capaz de alguma ruptura.

O presidente anterior, de outro partido, disse famosamente que “dão-me dinheiro para museus, faço museus”, este não é muito diferente e o critério de investimento rege-se pelo dinheiro que “dão”. Parece que finalmente parámos nos 8 museus num concelho de 1800 pessoas, agora há dinheiro para incubadoras de empresas, faz-se uma, quer faça falta quer não. Os outros não fariam nada de diferente, o PSD é tão  estatista como  o PS pelo que a comparação é entre seis de um e meia dúzia de outro. O PS leva a vantagem de ser o partido do Governo Regional, logo, este tende a favorecer e ouvir mais os autarcas da sua cor .

Por isso os critérios do eleitor nas autárquicas devem ser, a meu ver, os da honestidade e competência. A competência é fácil de avaliar, o cidadão olha à sua volta, compara com o que via há 4 anos, depois vai ver as contas (eu sei que é raro o cidadão que quer ver as contas) e os projectos e decide com esses elementos se há competência ou não. A honestidade é diferente, não está propriamente à vista e é muito mais difícil de avaliar.

Por exemplo, sabe-se agora que o Fernando  Medina, actual presidente e  candidato do PS à Câmara de Lisboa, não só é um às da imobiliária como tem uma sorte dos diabos. Vendeu um apartamento que tinha por mais 36% do que o que lhe tinha custado,  até aí tudo normal, o mercado das casas de luxo em Lisboa está em alta. Depois comprou outro apartamento, maior e melhor, só que desta vez o mercado funcionou ao contrário e a proprietária vendeu-o por 23% menos do que o que lhe tinha custado.

Isso só por si já é suficiente para levantar dúvidas, como é que num mercado em alta (a justificação, clara, para as mais valias que fez com a venda da outra casa) uma pessoa decide vender um apartamento que comprou por 800 e tal mil euros por 600 e tal mil. Ou bem que o mercado está em alta ou bem que o mercado está em baixa, os dois ao mesmo tempo não pode ser. Podemo-nos interrogar  sobre um presidente de câmara que ganha cerca de €3500/mês e compra um apartamento de €650000 mas isso é o menos, sobretudo vendo que a mulher do sr Medina é a sra Stephanie Silva , filha de Jaime Silva, antigo ministro de José Sócrates, adjunta de Medina quando este era secretário de Estado no mesmo Governo e advogada associada sénior na sociedade PLMJ. Uma pessoa não passa uma vida familiar na política a viver de salários mensais, isso está estabelecido há muitos anos e é claro para toda a gente.

Estas informações tirei-as deste artigo no Público, cheio de factos, com o título “Medina fez dois bons negócios com casas em Lisboa”.  Bons negócios, sem dúvida, mas isto leva-me a pensar como seria o título se por exemplo se soubesse que o Passos Coelho tinha feito bons negócios como este. Ou talvez seja um título sarcástico, porque para  além do absurdo de alguém comprar uma casa em Lisboa por 850 mil para a vender por 650 mil com o mercado em alta dez anos depois  há o pormenor de a proprietária vendedora se chamar  Isabel Teixeira Duarte. Por feliz e inusitada coincidência, a Teixeira Duarte, SA  beneficia de  contratos por ajuste directo com a CML.

O que me fez quase cair da cadeira a rir foi que o sr Medina, sem se rir, diz que não sabia que a proprietária tinha ligação  à construtora Teixeira Duarte. Sim,  porque é normal uma pessoa comprar uma casa sem saber o nome do vendedor e além disso Teixeira Duarte é um apelido muito comum e uma marca  insignificante  no meio empresarial. Foi daquelas coincidências felizes.

O sr Medina vai ganhar as eleições e estas negociatas e favores entre políticos e empresários  e a sua impunidade só podem surpreender os ingénuos. Não sei se ele foi bom ou mau presidente, não quero saber de Lisboa para nada, o que não gosto é que me façam de parvo. Nem o senhor Medina , que  acha normal ganhar 3500€ por mês e ir viver para uma casa que vale 850mil, diga o que disser o papel , e que ainda por cima tem a lata descomunal de dizer que não sabia que a senhora Teixeira Duarte tinha ligações à Teixeira Duarte,  nem os lacaios do poder que se apressam a defendê-lo, mostrando assim que acham bem que um político seja favorecido num negócio em centenas de milhar por uma empresa que subsequentemente recebe tratamento preferencial.

Podem embrulhar-me isto tudo em legalês e explicar todos os pormenores que fazem com que esta bosta fumegante seja perfeitamente legal, e também é óbvio que a história aparece por oportunismo eleitoral, mas isso  não muda a verdade: a um político ou governante que recebe favores particulares em troca de favores públicos chama-se CORRUPTO.

 

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