Irma

Ontem escrevi um post sobre o furacão Irma e as Ilhas Virgens, depois apaguei-o porque era malvado. Tinha duas vertentes , uma resume-se em “20 anos a ir aí e a aturar-vos o racismo, a gabarolice, a preguiça, o queixume, a antipatia, a chulice, a falsidade, a fé  arcaica, a corrupção, a incompetência, não me peçam agora que tenha pena“. A outra vertente era : um trilião e meio em dinheiro lavado e escondido pelas offshores e parque de diversões de metade dos milionários e bilionários do mundo e agora querem que as pessoas façam donativos para reconstruir isso?Não.

Isto deu para duas páginas mas depois arrependi-me porque aquilo pode ter muitos defeitos mas vive lá muita gente que não tem culpa nenhuma  e agora não só perdeu quase tudo como ficou com o país literalmente devastado. Não se pode esperar pelos políticos para fazerem alguma coisa, porque como recentemente fomos lembrados por cá, não devemos confiar no Estado para nos proteger nem para reconstruir depois de uma  tragédia. Se eventualmente reconstrói alguma coisa podemos estar seguros de que gasta 10 para fazer o que se podia fazer com 6, porque de  tudo o que toca o Estado fica com uma parte, é da sua natureza, o monstro tem que se alimentar.

Há milhares de europeus e americanos  aos quais um deslizamento de terras que matou 500 na Serra Leoa o mês passado não aqueceu nem arrefeceu mas que a imagem de uma ilha das Caraíbas reduzida a entulho mesmo sem mortos já impressiona muito e dá vontade de ajudar com o que puderem. Ninguém , muito menos os ricos e famosos, passa férias na Serra Leoa ou no Bangladesh por isso as catástrofes por esses sítios são menos dramáticas.

A “comunidade” dos iates ficou meio histérica, como se o Irma tivesse aparecido do nada e não andassem por ali furacões todos os anos. Apreciei particularmente um casal de brasileiros que tinha um catamaran nas Ilhas Virgens, que afundou. “Depois de três anos nas Caraíbas, é uma tristeza enorme, blah blah blah , buáaa buáa” e é quase certo que além de centenas de mensagens de solidariedade vão receber donativos para refazer a sua vida, que consiste em andar de barco e falar disso. Não resisti a juntar o meu comentário à longa sequência de solidariedade e encorajamento, perguntei : ” a opção de zarpar para Sul o mais rápido possível nunca foi considerada?” Sem surpresa , fiquei sem resposta , nem sei se o meu comentário ainda lá está.

É que o Irma já se via a vir há muitos dias. Os marinheiros de cruzeiro  modernos passam 8/10 do seu tempo de viagem em terra e desse tempo metade é passada   ao computador a dizer ao mundo que são tão fixes e isto é espectacular.

Podiam usar algum desse tempo a ver a trajectória esperada do furacão, que em 2017 já é bem estimada. Se andavam pelo Caribe há 3 anos podiam ter-se dado ao trabalho de ter um plano para a estação dos furacões, que, por incrível que pareça , se repete todos os anos. Como sabe qualquer marinheiro que lá ande , a latitude de  12º N marca o começo da “cintura dos furacões”, o que quer dizer que eles se mantêm acima disso.Um marinheiro mais previdente, chegada a época, desce para St.Vincent, Grenada ou Trinidad onde já está senão completamente a salvo pelo menos com probabilidades muitíssimo  mais reduzidas de ser apanhado, em Trinidad por exemplo não há registo de um furacão. Se não quer passar o Verão todo lá em baixo pelo menos à aproximação de um foge para lá, são 3 dias, e em bem menos do que isso chegavam por exemplo a Guadeloupe que já ficou mais ou menos incólume. Não, estes navegadores de pacotilha  e dezenas de outros  que agora gemem porque ficaram sem barco  deixaram-se ficar, amarraram-se melhor ao cais, deitaram mais âncoras e defensas, rezaram e puseram posts no facebook enquanto viam um furacão de categoria 5 a aproximar-se. É contra intuitivo mas é verdadeiro, os danos piores numa tempestade sofrem-se em terra , não é no mar, e se bem que a ideia não é ir enfrentar o furacão no mar mas sim fugir dele, só a ideia de ir para o mar com um furacão a 500 milhas faz tremer as pernas a muita gente, preferem a falsa segurança de ficar num porto. Má decisão. Repito, desde que o Irma se mostrou ameaçador para as Ilhas Virgens houve mais do que tempo para que quem lá estivesse fugir para segurança, mas para isso seria preciso serem marinheiros e não turistas que andam de barco,  pelo que houve dezenas de iates  perdidos por ignorância e incúria , e o que me mete certos nervos é ver esta gente lacrimejante a fazer-se passar por vítima/herói que sobreviveu ao furacão mas vai precisar de ajuda para “refazer a vida”.

As Ilhas Virgens vão recuperar, quanto mais não seja porque umas são as Ilhas Virgens Britânicas e outras são as Americanas e  nestas alturas  independência,autonomia,  soberania e coisas assim passam para terceiro plano e nunca mais se ouvem até tudo estar a correr bem outra vez. Se não fossem as metrópoles aquilo era como a Serra Leoa , mas essas coisas não se dizem, fica mal. Se Barcelona fosse arrasada por um furacão de categoria 5 passavam todos a espanhóis dedicados e orgulhosos num instante.

Continuo a esperar nunca mais ir às Caraíbas, mesmo que o meu ex patrão esteja a esfregar as mãos e a fazer muitos contactos  porque houve milhares de barcos destruídos que têm que ser substituídos, e alguém os tem que lá levar, vão estar ocupados durantes anos. Nunca dizer nunca, mas mesmo que fosse uma viagem de turismo tenho meia dúzia de sítios aos quais voltava de boa vontade, nenhum deles nas Caraíbas. Vou ficar a ver que parte dos lucros da industria financeira vão ser taxados extraordinariamente para reconstruir aquilo, podiam fazê-lo sozinhos amanhã mas esse pessoal sabe muito e vai esperar que outros paguem a conta. Nem estranhava que o Richard Branson , que tem lá uma ilhota , fosse receber auxílio para a reconstruir.

Desejo-lhes sorte, mais ou menos na medida em que eles me desejam a mim,  não me esqueço de onde vivo e que já este inverno isto pode ir tudo com o cão, aqui não há tremores de terra nem erupções vulcânicas mas há vento que chega para tudo, há menos de 20 anos passou por aqui um ciclone que marcou 250kms/h ,porque o contador só ia até 250kms/h. Aqui as casas e estradas são mais bem construídas que lá e a infraestrutura em geral é mais sólida mas é  fácil haver   estragos sérios. Há que estar preparado, não é que eu seja crente em alguma coisa mas  fazer  pouco da desgraça alheia para ela depois nos bater á porta é das piores coisas  que pode haver, não me quero ver nessa situação. Excepto no futebol ,  posso dizer que me deu um belo gozo ver o benfas levar duas em casa do CSKA.

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3 thoughts on “Irma

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