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Rendimento Básico Universal

Há 4 anos ouvi falar pela primeira vez na ideia de rendimento universal garantido, um programa mediante o qual toda a população sem excepção recebe do Estado uma subvenção mensal que teoricamente permite uma subsistência digna.

À primeira vista pareceu-me má ideia, por um número de razões entre as quais a falta de incentivo ao trabalho, o facto de que qualquer coisa que o Estado dá a uma pessoa é tirada a outra e  o incentivo à migração em massa para os países que implementassem esse programa. Parecia-me que se por exemplo em Portugal o Estado desse o equivalente ao ordenado mínimo a cada cidadão íamos ter muito depressa falta de gente para fazer trabalhos que pagam precisamente o ordenado mínimo. Dir-me-ão que não, que ia servir para complementar o rendimento de pessoas que iam continuar a fazer trabalhos duros e desagradáveis como recolher lixo (trabalho que devia ser pago muito acima do mínimo) mas se isso seria verdade nalguns casos em muitos outros serviria apenas para que as pessoas se encostassem. Igualmente não via razão para pessoas que já têm vencimentos fortes passarem a receber mais um cheque só por existirem, que é o que tinha que ser feito para a coisa ser mesmo universal.

O rendimento universal continua a ser estudado,projectos-piloto continuam a ser testados por exemplo na Finlândia e eu mudei de ideias, não por me ter convertido ao colectivismo e aos méritos da redistribuição mas porque tenho a certeza, na medida em que alguém pode ter alguma certeza quanto ao futuro, de que dentro de poucas décadas simplesmente não vai haver trabalho para toda a gente.

Não vale a pena falar muito sobre a automação, sobre como hoje em dia fábricas enormes produzem  milhares de artigos , sejam camiões ou porta chaves, com poucas dezenas de trabalhadores; como as máquinas já produzem outras máquinas; como na agricultura tarefas que requeriam dezenas de pessoas há 20 anos hoje são feitas por uma aos comandos de um robot. Isso é automação, que progressivamente elimina trabalhos físicos desde a Revolução Industrial e é uma questão sobejamente debatida: à medida que os trabalhos duros, perigosos e repetitivos iam sendo automatizados as pessoas iam ser mais e melhor instruídas e passavam a outros trabalhos e serviços, um nível superior de prestação fora do alcance dos robots, um caminho virtuoso que permitia a libertação dos trabalhos sujos e duros e a dedicação a trabalhos menos exigentes fisicamente e que requeriam perícias além da força física e atenção fixa. Como nenhum robot conseguia pensar, tudo o que envolvesse associações de ideias, conclusões, análises, iniciativas e decisões, tinha forçosamente que ser feito por humanos, que dominando a informação dominariam sempre esta nova economia, porque os robots não escreviam canções, não faziam cirurgias nem ensinavam Física. Isso era no passado.

Dantes só as profissões de colarinho azul, como lhes chamam os anglo saxónicos, estavam sujeitas a desaparecer vítimas da automação. Com a entrada em cena e o progresso galopante da Inteligência Artificial, a longo prazo nenhuma profissão está a salvo, nenhuma actividade está fora do alcance de uma máquina. Já não são só os taxistas e camionistas que vão desaparecer porque já há, agora, carros e camiões que andam sozinhos, e só não há navios (declaradamente) porque o meio marítimo é menos fácil que uma estrada. Os algoritmos de tradução, como pode comprovar quem os usa há alguns anos, melhoram literalmente de mês para mês e se bem que falta muito tempo para traduzirem Shakespeare já traduzem satisfatoriamente documentos legais ou comerciais. Os tradutores são uma espécie em vias de extinção, tal como os assistentes legais dado que há algoritmos que conseguem peneirar toneladas de documentos legais e encontrar por exemplo o precedente que se procura numa fracção do tempo que demoraria a um humano. Já há algoritmos de diagnóstico medico que superam a média dos médicos humanos e programas informáticos mais capazes de transmitir conhecimento a um aluno do que a maioria dos professores humanos. A destruição e violência que exigia centenas de homens há 30 anos hoje é levada a cabo por um soldado frente a um computador a milhares de quilómetros de distância, apoiado por algoritmos que sintetizam e analisam toda a informação que lhe chega.Ao invés de contratar um guia turístico um turista instala uma app no seu telemóvel que o conduz pelas ruas , identifica marcos e explica História.

Actividades que ainda há meia dúzia de anos exigiam legiões de  empregados, como a distribuição  postal , estão quase a não exigir nenhum por via dos drones e novos sistemas de localização e condução . O cretino do Trump dizia que ia salvar os empregos das minas de carvão numa época em que mesmo que houvesse muita procura de carvão são cada vez precisos menos trabalhadores para o extrair e processar, mesmo que o carvão fosse uma coisa óptima o emprego nesse sector ia sempre cair. Nesta ilha o Estado encarrega-se, e bem, da manutenção das bermas da estrada e é um encontro   comum : uma dúzia de homens (nesta actividade a igualdade de género também não interessa nada)  de roçadora na mão a mondar as valetas estrada fora, trabalho  que não requer nível de instrução absolutamente nenhum. A câmara do meu concelho está em vias de adquirir um tractor que faz o que esses doze fazem com um homem aos comandos, com a respectiva poupança. O que é que vão fazer esses homens?

A tendência nas nossas sociedades é cada vez mais a interacção das pessoas com máquinas e mesmo quando interagem umas com as outras há já quase sempre uma máquina pelo meio ou por perto, especialmente nos meios urbanos. Já podemos fazer as compras do supermercado em casa e se hoje são entregues por um humano amanhã será um drone, tal como a caixa do supermercado já hoje é substituída por uma máquina. Um dos meus primeiros empregos, repositor de mercearias nas prateleiras de um supermercado, já é feito hoje em dia por robots em vários sítios. Desde a construção à administração, desde o policiamento à agricultura, já não se vai lidar só com automação mas igualmente com os sistemas de IA que analisam dados e informação e agem em conformidade.

É verdade que esta organização e modo de produção vai sempre exigir humanos , mas mesmo que fôssemos todos engenheiros de sistemas e técnicos superiores daqui  a 25 anos não haverá  que fazer para toda a gente, é uma simples questão de números. Quando damos uma olhadela aos sistemas de ensino da maioria dos países e à massa humana analfabeta ou semi analfabeta que se conta em biliões e vai permanecer assim, é fácil concluir que será impossível empregar toda  a população a um nível, digamos, satisfatório.

É por isso que se os governantes (que em muitos aspectos seriam substituídos com vantagem por algoritmos) querem manter a paz têm que começar a pensar seriamente no problema do desemprego galopante que vai acompanhar o crescimento da automação e, sobretudo, da inteligência artificial. Os optimistas dizem que vão sempre ser criadas novas actividades e profissões que ainda hoje são desconhecidas, e isso foi verdade desde a Revolução Industrial ate aqui, mas a inteligência artificial e o seu progresso vertiginoso muda a equação. Quando as máquinas já fazem outras máquinas e já estão a caminho de conseguir fazer tarefas que há 20 anos era impensável conseguirem, como um diagnóstico médico, controlo de tráfego aéreo ou mais prosaicamente, cozinhar uma refeição, parece-me aparente que caminhamos mesmo para uma era de desemprego massivo que vai afectar todas as profissões a médio prazo.

Uma solução será  então o Rendimento Garantido, que faz com que o problema da subsistência esteja resolvido e pode não só evitar a miséria generalizada da parte da população que vai sempre permanecer estúpida, ignorante e sem qualificações como pode libertar a criatividade de uma parte enorme da população, todas as pessoas que têm o tal jeito para uma coisa mas têm que fazer outra para subsistir.

Pode fazer florescer as artes, coisa que eu nunca valorizei muito sendo um bocado filisteu mas reconheço que é uma ocupação válida porque permite não só ao indivíduo realizar-se como proporcionar prazer a outros, independentemente da questão de quem paga pelo  quê. Outro exemplo, uma pessoa que não tenha que ir trabalhar das 9 às 5 para pagar as contas pode dedicar-se a causas nobres como solidariedade e voluntariado social ou cuidados a animais abandonados. Pode-se eliminar uma grande quantidade de stress da vida das pessoas ao mesmo tempo que os empreendedores, hiper activos  e ambiciosos podem continuar stressados a  trabalhar e prosseguir os seus sonhos , ideias, projectos  e esquemas com mais segurança e estabilidade ao mesmo tempo que os madraços podem continuar a sê-lo  sem o estigma relativo que isso hoje implica . As pessoas podem deixar de labutar em empregos que  odeiem e os façam infelizes sabendo que não caem na penúria e muitos podem prosseguir actividades que não são rentáveis nem servem para nada mas que os realizam e lhes dão prazer, como observar pássaros, aprender mirandês  ou estudar  teologia.

Para evitar convulsões , colapsos e conflitos sociais que podem fazer os que vimos até aqui uma brincadeira, para que a sociedade seja mais pacífica  e “feliz” acredito que os Senhores do Mundo vão ter mesmo que arranjar maneira de implementar o rendimento universal num futuro a médio prazo.

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