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Turistas, catástrofes e GoT

Avariou-se-me a internet em casa e isso provoca sempre um salto de produtividade, em vez de passar tempo a engonhar em frente ao écran saio e ocupo-me de coisas mais importantes que costumam sofrer por procrastinação, especialmente limpezas de terras e pastagens e pequenos  melhoramentos pelo quintal  e  estruturas adjacentes.

Tenho 10 ovelhas, um carneiro e 2 borregos distribuídos por 4 terras diferentes, que faz dar bastantes voltas mas é, espero, a maneira de não ter que as andar a mudar todas de quinze em quinze dias, tarefa que vai ser  fácil quando tiver a minha cadela Border Collie mas sozinho é uma grande confusão e trabalheira. A ovelha que ficou sem pata vai recuperando, ainda está magrinha e não está completamente livre de infecções mas vai melhorando.

Recebi a visita de dois velhos amigos, ficaram uns dias acampados no quintal mas ao fim de três dias mudaram-se para um quarto em Sta Cruz. Hoje foram para o Corvo, vão-se amanhã embora fascinados com isto…tal como a maioria dos turistas que continua a chegar, é inaudito, andam por todo o lado. Até ver não me incomodam nada mas começo a estar apreensivo pelo Inverno, porque no Verão é normal haver gente por aqui e por e por ali mas no Inverno isto é a desolação completa, posso  descer de  casa ao porto sem ver uma pessoa sequer, são uns 2,5kms pelo meio da vila, e eu gosto assim, gosto de andar por aí de carro ou a pé e de não me cruzar com ninguém.

Já  me estou a preparar para começar a ver turistas mesmo no Inverno, pelos vistos só vão parar de fazer publicidade a isto quando houver um colapso qualquer, eu acho que deviam parar um pouco antes, por exemplo agora, porque já está bom, já chega, mais também não. Estou com azar, aposto que vão continuar a descarregar aqui visitantes ao mesmo ritmo,ou  mais acelerado ainda, até porque quanto mais as pessoas olham à volta e reparam que vivem em sítios feios, congestionados, poluídos e perigosos mais procuram o contrário. Já lá vai o tempo em que só se vinha aqui de veleiro ou com bilhetes de avião caríssimos, o que assegurava que toda a gente que cá chegava vinha com razões e vontade mesmo muito fortes e não eram pessoas que andaram  a hesitar entre as Flores e Lanzarote ou Ibiza…ou mesmo Albufeira. Quando se pode vir aqui por menos do que custa ir do Porto ao Algarve é natural que as coisas comecem a mudar. O que me fez vir viver para aqui foi, antes de todos os outros  encantos que aqui encontro, o isolamento , a paz e o sossego. 300 turistas a aterrar por dia perturbam isso um bocado, mas como já disse aqui, antes isso que uma ilha  envelhecida, pobre, estagnada e a desertificar. Tenho que me aguentar.

Está aí uma cantora famosa, esta tarde vai tocar e cantar com a minha melhor amiga daqui e mais outros amigos aí numa casa. Fui convidado e pensei olha, uma foto desta com uma garrafa de Ovelha Negra era boa publicidade , mas depois pensei  melhor e não vou. Quando a minha amiga me disse está cá a não sei quantas eu comecei  a imitá-la e a dizer que não lhe achava gracinha nenhuma , nem a ela nem à música , pelo que era indecente  depois disso ir lá fazer-me  simpático só para ter uma vantagem. Mais uma que vai voltar à sua cidade a dizer que ficou encantada , mostrar mais 450 fotografias e motivar mais 600 pessoas a virem para cá. Começo a compreender melhor a apreensão dos lisboetas com o turismo, mas há uma diferença crucial : quem vive numa grande cidade tem que contar com movimento.

Também por não ter net em casa (TV nunca tive) estou-me um bocado nas tintas para os mísseis da Coreia do Norte e para os furacões que devastaram e vão devastar mais a costa leste dos EUA e as Caraíbas.Uma das razões que me fez deixar a navegação de alto mar foi precisamente o medo dessas coisas, que já vi de perto e nunca mais quero ver na vida. Ainda há muitos imbecis que negam as alterações climáticas mas para quem é moderadamente inteligente,  sabe ler gráficos e reconhece Ciência, isto não tem nada que enganar : a frequência desses fenómenos é para aumentar. A minha solidariedade com os texanos que levaram com o Harvey é pouca, ainda o mês passado se gabavam da facilidade de construção e do crescimento enorme de Houston, agora calham-lhes as consequências de não respeitarem os leitos de trios e planícies de drenagem , cobrirem tudo de betão e acharem bonito.

O Irma já devastou sítios que eu conheço muito e gosto pouco nas Caraíbas e vai a caminho da Florida, onde tenho muitos amigos. Já há mais de quinze anos, e por ter lá vivido alguns , que eu me interrogava sobre o que é que vai na cabeça de pessoas que investem em propriedade ao nível do mar e a poucos metros da costa.

Ainda não sei , mas mais uma vez vão ser lembrados de todas as razões pelas quais é má ideia viver à beira mar. É bonito, é verdade. Mas é perigoso, e quem em 2017 não sabe isso é porque e um bocado limitado, ou não quer saber. Só para alegrar e animar lembro que Lisboa não mudou de sítio desde que foi arrasada em 1755 e que uma coisinha dessas pode vir a qualquer momento. Qualquer momento. É verdade que agora temos o SIRESP  que nos deixa mais descansados, e todos os oficiais da Protecção Civil têm o cartão partidário que assegura a competência mas mesmo assim o risco é tremendo, mesmo se depois o Presidente da República abraçasse pessoalmente cada uma das vítimas a coisa ia ser muito feia. Aos que não querem ou não podem mudar para um sítio que esteja mais defendido dessas e outras catástrofes, sugiro que pelo menos pensem no que fariam e em como lidariam com uma. É um exercício muito interessante.

 

Para terminar, e para partilhar com fãs da Guerra dos Tronos, no original, Game of Thrones, que não é bem a mesma coisa….Felizmente que não acabou a net em casa  antes de poder piratear o último episódio desta temporada. Comecei a ver aquilo há 5 anos porque apanhei  dois episódios ao calha num avião. Fiquei encantado com a premissa da coisa, com o guarda roupa, a fotografia, a música, a intriga, a mistura de vários imaginários históricos e com a  acção toda. Depois apareceram dragões e zombies e gente ressuscitada , eu não sou muito capaz da famosa  “suspensão da descrença” que permite às pessoas apreciarem a maior parte do entretenimento contemporâneo.A partir do momento em que penso “isto nunca podia acontecer” fica logo a experiência meio estragada.

Li os livros todos e abri uma excepção para a Guerra dos Tronos, mesmo com magias e improváveis e até tolerei  vários absurdos. Como por exemplo na Batalha dos Bastardos não terem dado um simples tronco de árvore e um escudo ao gigante ( sim , também há gigantes…) que  equipado assim tinha ganho aquilo sozinho, até à última temporada em que a Daenerys Targaryen desembarca numa ilha pequena e deserta com 10 mil soldados unsullied e uns 100000 dothrakis mais os seus cavalos e ali ficam. A comer pedras, presume-se. Há um  recém coroado rei dos Greyjoys que ordena “construam-me mil navios!” , frota que aparece apesar de a terra deles ser um arquipélago sem arvores.Depois  vai um grupo de bravos para lá da Muralha buscar um zombie e não se lembram de levar corvos mensageiros, há  um que tem que andar dezenas  de quilómetros a pé para encontrar um para mandar uma mensagem, e depois ainda o exército dos zombies encontra, na desolação gelada do Norte onde nunca houve homens , várias centenas de metros de correntes de ferro gigantescas que lhes permitem pescar um dragão morto do fundo de um lago. Aquilo é que foi sorte, encontrarem ali as correntes. Todos esses absurdos de logística são insignificantes ao pé das coisas fixes que tem a série, especialmente esta  cena , uma cena que me apanhou (e  a mais uns milhões de fãs devotos) completamente de surpresa quando já duvidávamos da Sansa , a minha rica Sansa Stark, e que foi o fim lindo de uns dos personagens mais odiosos da saga. Festejei aquilo como se o Sporting tivesse acabado de marcar, não me lembro de uma cena de televisão me ter deixado tão contente.

Vai ser uma espera longa até Abril do ano  que vem,quando em princípio começa a última temporada, e um dia mais tarde hei-de fazer uma longa maratona e ver tudo de seguida.  Vale a pena.

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