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Expressões populares

Sempre gostei de provérbios, ditados, adágios e outras expressões que no fundo são o mesmo : concentração de sabedoria numa frase ou a expressão de uma verdade, explicação  ou observação. Há muitos que são comuns a vários países, há outros que são contraditórios ( quem espera desespera/quem espera sempre alcança) e há outros que não pretendem explicar nada , apenas ilustrar uma realidade. Há uns que querem dizer o mesmo mas variam de região, por exemplo no continente diz-se “um olho no burro outro no cigano” aqui diz-se “um olho na faca outro na lapa” para exprimir a mesma ideia.

Há dois que me andam na cabeça há uns meses, o primeiro é um bocado bruto e cínico e usei-o há pouco tempo quando uns amigos , certamente preocupados ou pelo menos interessados no meu bem estar emocional  me sugeriram e encorajaram a , digamos, conhecer melhor uma certa pessoa que para aí andava e que pelos vistos toda a gente acha espectacular menos eu. Uma das  vantagens de estar a ficar velho , ter visto muito e estar satisfeito e em paz com a vida é que não sinto aquela pressão de ver o tempo a passar e pensar que me escapou alguma coisa , que a vida está incompleta e que é tempo de me acomodar , aceitar , esquecer os padrões , encolher os ombros e dizer “é melhor do que nada” . Não, nada disso , e o provérbio que usei para explicar isso mesmo está no topo da minha lista de favoritos : quem comeu a carne que roa os ossos.

O segundo é ainda mais simples e curto, já andava há que tempos na minha cabeça mas anteontem fui a um funeral e passei o dia todo a pensar nele. Foi a primeira vez que fui a um funeral aqui, já tinham  morrido algumas pessoas mas não as conhecia pelo que  não me sentia na obrigação de lá ir. O senhor que morreu na semana passada era meu amigo, era simpático e alegre para todos, bem disposto, trabalhador , sempre pronto a ajudar, com dois filhos criados, homens às direitas com a vida feita e suas famílias. Morreu no mar, estava sozinho à pesca no calhau como gostava de fazer e ainda não se sabe , ou eu não sei, porquê, apareceu morto a boiar.

O ditado em causa é muito regional, já o ouvi da boca de pessoas de educação superior e de  pessoas analfabetas, em várias ilhas e com algumas variações, é uma expressão que se utiliza em várias circunstancias diferentes e  à primeira vista , ou mesmo à segunda , pode parecer banal , óbvia e básica , uma evidência que não sugere nem provoca nada mas a mim faz-me pensar muito e é filosofia pura.

A gente morre e fica tudo aí.

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