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Preparados…

Devia ser Maio, devíamos estar a começar era agora, que temos uma tripulação completa, que já se entende e se conhece um pouco, que já brinca e se diverte na água , que já faz as manobras e  aparece nos dias combinados e que o oficial, neste caso eu, começa a ganhar alguma confiança e a perceber alguma coisinha.

Em vez disso acabaram anteontem os treinos, devíamos ter arriado o bote  hoje pela última vez mas sem barco de apoio não, mesmo que alguns dos moços com mais sangue na guelra não se importassem. Está uma aragem fresca, estes botes mesmo com especialistas ao leme podem virar por um descuido, e se viram sem que ande por perto um apoio para nos vir pescar e endireitar o bote arriscamos uma situação muito desconfortável, eu já não tenho paciência nem tenho saúde para esses números. O Clube Naval, com a atenção e dedicação que tem mostrado à nossa participação na Semana do Mar , fecha a porta depois do almoço e lá dentro fica o equipamento do semi-rígido de apoio, para o qual eu tive sempre que encontrar tripulante por mim, recorrendo a amigos de boa vontade. Da parte de outras pessoas envolvidas está tudo bem porque desde que os botes estejam na rampa na Horta no dia 12 o subsídio bate na conta , mesmo que não cheguem a arriar.

Ontem estavam cá três picarotos a trabalhar num veleiro que compraram aí, um deles  um veterano conhecido dos botes da baleia, fui falar com ele e  perguntar umas coisas, entre elas o que é que era preciso para ele vir cá passar uma semana ou duas a ensinar-nos, já que cá parece-me que ninguém sabe e  pouca gente se interessa ou  quer saber. Os mais antigos que andaram na baleação que me desculpem mas podem saber muito de mar e de trancar baleias mas de vela sabem pouco, nos antigos baleeiros a vela era quase um  acessório , ninguém andava atrás das baleias a dar bordos à vela, iam a remos ou usavam a vela quando a baleia estava a sotavento e voltavam a remos ou a reboque das lanchas a motor, e muitos que hoje falam  das velas já têm memórias muito romantizadas da coisa.

O picaroto disse-me que bastava escrever uma carta para a Direcção Geral do Património  ou coisa que o valha , já não me lembro bem, a pedir para destacar os serviços dele para aqui; pagar a alguém que lhe tomasse conta das vacas nesse período e alojá-lo e alimentá-lo cá. Que já tinha corrido as ilhas todas a treinar e ensinar e que já tinha inclusivamente falado sobre isso com um dos presidentes do clube de cá , que disse que sim, que se ia fazer e isso foi a última coisa que lhe disse. Sabendo que é muito improvável isso acontecer perguntei se eu fosse ao Pico tinha lugar num dos botes  deles durante uns dias, claro que sim , sem problema nenhum. Ficou registado , e como ainda não estou a ponto de perder completamente o interesse pelos botes nem acredito que o nosso clube naval se chegue a organizar e ser liderado em condições, sou capaz de me meter num avião e ir ao Pico passar a Semana dos Baleeiros, eu arrumo-me em qualquer canto, sou de baixa manutenção, não chateio ninguém e gostava de ter a oportunidade de navegar com quem sabe. O que me enerva  mais nesta história é que não somos ridículos  por falta de recursos, o Estado investe dezenas de milhar na preservação e navegação dos botes, é só pedir e há dinheiro para manutenção, formação e competição. Somos assim por desorganização e falta de interesse.

Já ao fim da tarde voltei a encontrar no bar os picarotos , vinham do porto.

-Você é que é o responsável por aquele bote que ali está na água? -perguntou-me o tal veterano.

Hesitei um bocado em responder mas se bem que ninguém mo disse nesses termos nem me formalizou a responsabilidade, a verdade é que nesta altura sou mesmo eu.

-Se não o varar já fo#e-se todo, já está a criar cabelo na junta, mais um dia na água e  vai  começar a apodrecer por dentro.

Fiquei confuso e alarmado, tinha sido eu a dizer que o devíamos deixar na água em vez de varado na rampa por me ter sido dado a entender que ficar ao sol fazia a madeira secar demasiado, as juntas dilatarem e as tábuas deformarem, pelo que ficando na água mantinha-se “fresco” e nunca chegava a “estalar”. Sucede que na água vai começando a criar algas minúsculas que se infiltram nas juntas e em pouco tempo começam a apodrecer a madeira, as juntas não são calafetadas. Um bote baleeiro nunca pode ficar mais do que um dia na água.  Ajudaram-me a vará-lo , felizmente apareceram alguns moços da tripulação, um deles com um  jipe que o puxou  para cima , é  daquelas ocasiões em que me estou  nas tintas para os recursos naturais globais que acabaram ontem , para as emissões poluentes e para a maneira tradicional de fazer as coisas, dêem-me um motor  potente e vantagem mecânica , quem quiser viver em 1920 tem bom remédio. Sou  adepto dos motores de combustão interna , dos aviões a jacto, dos químicos  e do plástico. Não gosto  é que mandem o plástico ao mar  ou que larguem por todo o lado, são problemas diferentes. Assim que os motores eléctricos fizerem o que fazem os de combustão interna pelo mesmo custo, lixo com os motores poluentes. Até lá, haja gasóleo.Sobre este tema só aceito críticas de quem só  anda a pé ou de bicicleta, o resto devia deixar-se de hipocrisias.

De volta à rampa, onde o homem até encontrou um banco (peça de madeira que serve para assentar a quilha) dele que ficou cá das provas do ano passado e ele reconhecia por uma  marca.

-Olhe aqui, passe aqui o dedo.Vocês é que não sabem mas nós olhamos para isto ao longe e vimos logo!

O “cabelo” a que ele se referia eram as algas que em dois dias já tinham começado a crescer ao longo da junta.

-Tem que ir buscar um pulverizador , desses de sulfatar, encha-o de lixívia e dê-lhe no casco .Já viu isto?

E começou a apontar-me defeitos e particularidades do casco que eu nunca mais tinha descortinado sozinho, e depois no bar estive a ouvir  e perguntar mais sobre como se tratam, guardam e navegam os botes baleeiros em condições. Idealmente até a construção em que se guardam no Inverno tem particularidades, paredes de pedra, telha de barro e chão de bagacina ou de “areão” , tudo ao contrário do barracão onde ficam os nossos, cimento e cimento sobre cimento. Isto por causa das temperaturas, humidades e suas variações. Ouvi sobre os botes do Pico, tantos nas Lajes , tantos nas Ribeiras, tantos na Calheta de Nesquim (adoro este nome) , tantos na Madalena,  e como correm todos contra todos , de Maio a Outubro, e contra os do Faial onde há outros tantos, com rivalidades ferozes no mar e belas  festas em terra. Como os cais e muros ao longo do porto e da praia ficam cheios de gente de cada vez que se arreiam os botes.

Vamos amanhã meter o botes nos seus atrelados.O Formosa chegou de Santa Maria há quinze dias e está onde o deixámos quando o tirámos do contentor, não foi arriado uma única vez e uma pessoa pergunta-se “se era para isto não  valia mais ter ido directamente para o Faial…?”. Recebemos “ordem” para carregar seis remos, o que é estranho dado que ninguém remou aqui este ano nem  ninguém está inscrito nas provas de remo, calculo que seja para emprestar, bote e remos, a alguém do Faial. Há muita coisa que se trata entre amigos. Os nossos bilhetes de avião são para dia 11 mas estamos em lista de espera , os bilhetes foram marcados tarde , todos os voos pelo arquipélago estão sobrelotados porque a SATA, coitada, não tinha maneira nenhuma de prever que o turismo ia aumentar tanto e que a procura ia explodir, é normal que tenham sido apanhados desprevenidos pela chegada da Easyjet e Ryanair , há quase 3 anos, e ao que parece ainda estão desprevenidos. Também dá ideia que foram apanhados desprevenidos pelas campanhas publicitárias do governo, chamam para cá pessoas aos milhares e depois não as conseguem transportar todas , boa sorte a quem quer voar inter ilhas neste Verão. Por isso existe a possibilidade de não termos lugar no voo dia 11, a regata é às duas da tarde do dia 12.

Não é grave, os botes chegam lá e vão estar na rampa com os outros no Sábado pelo que o subsídio está garantido, e como ouvi eu pessoalmente, não custa nada arranjar uma companha no Faial para competir  nos nossos botes. A minha motivação e  entusiasmo correm um certo  risco de ir tão depressa como vieram.

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