Início » Barcos » Esquemas de Imagem

Esquemas de Imagem

Há  4 anos passei pelo Panamá a caminho do Peru  e um português amigo meu que lá trabalhava pôs-me em contacto com uma rapariga alemã que lá tinha comprado um barco e estava na mesma marina onde está toda a gente do lado Atlântico.

A moça estava a iniciar uma aventura marítima que passava pela compra de um veleiro  usado e posteriores navegações, o meu amigo tinha-a conhecido  quando ele  trabalhava em charters e , como toda a gente, tinha passado uns tempos encravado em Shelter Bay .Tinham-se dado bem e ele, sabendo que eu estava para chegar,  disse-lhe para me procurar, que eu era um gajo com experiência e que lhe podia dar umas dicas.

A marina em causa é pequena e isolada, parece um enclave ou um resort, há aí pelos arquivos muitos posts sobre essa passagem pelo Panamá como este . Como essas marinas são um mundo  pequeno, eu tenho um radar muito afinado e a moça é bonita, reparei nela nem passava uma hora de ter lá chegado.O contrário não se verificou , coisa a que estou habituado, faz parte da ordem natural do mundo, já me afectou mas hoje é-me absolutamente indiferente, espero sempre precisamente zero e já nada me desilude por uma simples razão: já nada me ilude. Passei por ela ao pé do seu barco, foi como se não passasse. O que também é verdade é que há uma diferença enorme entre um desconhecido com a minha figura que passa por ali e o capitão de um catamaran novo de 58 pés vindo de St.Barts  a caminho de Peru, é daquelas coisas que nos tornam logo pessoas mais interessantes, que vale a pena conhecer, e a rapariga, ao receber a sugestão do meu amigo, veio ter à mesa onde eu estava com a tripulação.

Fui o mais civilizado possível mas sabia bem que a rapariga estava ali para falar com  o Capitão Ventura e não com o Jorge. O Jorge até teria  gostado muito de a conhecer mas  o Capitão Ventura tinha mais que fazer e nunca teve muita  paciência para amadores armados em aventureiros. O meu  horário estava apertado, a escala contava-se em horas,  entre trocas de tripulação, manutenção das máquinas e partida para Bocas del Toro para ir buscar os donos do barco que estavam para chegar de avião particular. Ainda assim e por atenção ao meu amigo convidei-a  para passar no barco mais tarde.Passou já  era de noite quando eu e o imediato ainda estávamos a suar enfiados nas casas das máquinas, viu logo que  aquele barco e o seu programa eram o mais distante possível do barco dela e dos seus sonhos e que não ia levar dali nada. Levar dali nada no sentido de algum favor, dica, contacto ou serviço  em tempo útil, porque ao contrário dos velhos todos que passavam o tempo a babarem-se para ela, a inventarem histórias, a trabalharem para ela e a partilhar as suas experiências muitas vezes ridículas, eu não tinha tempo nem interesse , não lhe ia oferecer nenhum presente nem ajuda nem dar a atenção a que ela está habituada. Moça inteligente como é nem sequer pediu para ver o barco por dentro, disse que como estávamos ocupados falávamos depois e foi-se embora. Na madrugada seguinte zarpei para Bocas del Toro e só voltei a essa marina depois de uma semana.

Lá continuava ela de volta do chasso ferrugento e cansado que tinha comprado sem saber navegar nem sequer apertar um parafuso, com a sua corte de iatistas reformados e vagabundos sortidos a tentar a sua sorte.  Vi-a passar com um bote de borracha a sair da oficina

-Bote novo, muito bem.

-Foi uma prenda, o não sei quantos sabia que eu precisava de um ,comprou um novo para ele e deu-me este

-A sorte das mulheres bonitas, nunca se lhes nega nada.

Deu-me um sorrisozinho ambíguo, seguiu caminho a arrastar o bote e foi a última vez que a vi.

Apesar disso, graças ao incontornável facebook, volta e meia vejo notícias dela, que usa essa rede social e um canal do youtube de uma maneira perfeitamente comercial. Inventou uma “organização” de objectivo incerto para além de lhe permitir andar de barco. Reuniu um número considerável de seguidores que mantém interessados com historietas e vídeos, sem nunca conseguir realmente  arranjar o barco, que como relíquia que é , é impossível de arranjar e de preparar para uma navegação séria, eu não embarcava naquilo se envolvesse perder a costa de vista, e mesmo assim não sei. À falta de alguma navegação séria  ou progresso e exploração real, tem a atracção,valor e  força toda na sua simpatia e beleza física, que não são pequenas. Angariou patrocinadores que lhe pagam estes passeios e esta vida mansa nos trópicos, e seguidores que não se cansam de a encorajar e de lhe afagar o ego, mesmo talvez sabendo que é uma menina europeia rica que passa 3/4 do ano na praia a fingir que se farta de trabalhar a arranjar um barco para ir ninguém sabe onde fazer ninguém sabe o quê, para nada mais do que o seu entretenimento e satisfação pessoal.

Passados mais de quatro anos vi hoje que ainda está no Panamá, recebeu ontem um motor novo para instalar num barco que vale muito menos que o motor, cortesia de um patrocinador que tem que achar que tem retorno,  que aquilo funciona, em termos de imagem. Tudo neste mundo é medido em termos de imagem .

20228406_1402200353210004_5418458874586744095_n

Se esta moça tivesse mais 50 quilos e não tivesse um  palminho de cara  estava possivelmente a trabalhar nalguma caixa de supermercado na  sua Alemanha natal, a poupar para as férias, a sonhar com os trópicos e com alguém que um dia a levasse lá. Como é assim pagam-lhe o modo de vida, não lhe exigem absolutamente nada e “seguem-na” aos milhares, com retorno de capital em “visualizações”, “partilhas”, patrocínios e apoios vários.

Podem dizer que isto  é inveja de um gajo que nunca conseguiu nada à custa do aspecto, que gostava era de ter o talento para fazer outros darem-lhe dinheiro, que queria  era  ter sido capaz de fazer o mesmo enquanto navegou, de usar a imagem , que toda a gente sabe que hoje em dia também se pode preparar e melhorar.

Não me parece que seja isso, acho que é mais um lamento por um mundo em que o que parecemos se sobrepõe ao que somos e fazemos, podemos não fazer nada de jeito mas se parecermos bem ao fazê-lo, meio caminho andado. Nesta época em que cada um pode ser o seu publicista, realizador , produtor e relações públicas isto é muito mais aparente. A forma em prejuízo da substância, a aparência como modo de vida.

Anúncios

Responder

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s