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A Festa

Volta a Festa do Emigrante, o ponto alto do ano nas Lajes e o fim de semana em que se vê aqui mais gente. Muitos emigrantes vêm ver as famílias e matar saudades, muitos estudante vêm de férias, muitos turistas vêm fazer turismo. Gosto de trocadilhos e ri-me bastante com a festa do irritante. Até aqui, onde os turistas se contam por poucas centenas durante dois meses  a presença de um número maior de pessoas parece que incomoda alguma coisa, mas é só brincadeira, tal como a referência à mosca de verão. O que é certo é que a maioria dos habitantes  aprecia muito o sossego e tranquilidade, e se bem que gosta da animação (e rendimentos) deste fim de semana, fica tudo satisfeito quando acaba.

Está a ilha cheia de emigrantes, é verdade que a América faz engordar e que as segundas gerações perdem o Português num instante. Como agora há wifi por todo o lado a ilha é mais atractiva, podem fazer milhares de quilómetros para vir para aqui olhar para os telemóveis. Noto que as criancinhas hoje (noto porque raramente vejo tantas todas juntas) estão muito mais fáceis de domesticar, é só por-lhes um telemóvel ou tablet na mão e eles criam-se sozinhos, se forem alimentados de vez em quando. Há as excepções , por exemplo dos filhos dos hippies (uso o termo muito liberalmente) , ainda ontem  vi um que está a começar a andar, um “franco alemão” sebento,  andrajoso e lindo que andava a gatinhar e a apanhar beatas do chão e metê-las na boca, apanhei-o e passei-o à mãe mas não disse nada, nem ela, porque não há problema nenhum. 8 ou 80 , ou andam vestidos de marca em ambientes esterilizados e entretidos por electrónica ou andam à solta a apanhar e comer coisas do chão.

Como nas antigas sociedades rurais, a festa anual é a altura de toda a gente “descer à vila” ao mesmo tempo, encontrar-se e falar dos assuntos da comunidade. Eu continuo  sem pertencer bem aos locais nem aos estrangeiros, com amigos e conhecidos dos dois lados e sempre tentando um equilíbrio. Do lado dos hippies ouvi protestos e incitamentos à sabotagem de uma draga que anda a tirar areia da costa. Pessoas que vivem em casas de madeira sem electricidade odeiam que se extraia areia, principalmente porque não precisam de areia e acham, com certa razão, que se toda a gente vivesse em casas de madeira sem electricidade o ambiente global sofria menos. Quanto à sabotagem , não é propriamente a táctica mais eficaz para combater excessos da indústria mas diziam-me que sim, que já o fizeram muito em França e na Alemanha. Perguntei por casos de sucesso além de barulheira e aparecerem na televisão a dizer coisas, mas não foi possível, ninguém se lembrava de um exemplo de sucesso mas certamente que os há. Por azar não foi nenhum em que estes estivessem envolvidos. No caso da draga que aí anda a acção de sabotagem nem sequer foi ponderada  a sério, principalmente porque parte da tripulação da draga é cabo verdiana. As acções variam de gravidade consoante a etnia de quem as pratica, estou sempre a aprender com os hippies.

Também aproveito para lhes moer a cabeça com o Português, eles sabem que eu falo francês e inglês mas com os que cá vivem, ou dizem que cá vivem, falo sempre em Português, pelo menos até ficarmos amigos ou até me cansar da brincadeira e querer mesmo fazer-me entender, o que nem sempre é o caso. Conheci um iatista americano que me foi apresentado como tendo feito 13 travessias do Atlântico e ficou a olhar para mim todo contente à espera de reacção, que foi “ah sim?” com a mesma expressão que teria se me dissesse que gostava de vinho tinto. Mais um cheio de observações condescendentes sobre a ilha, os Açores e Portugal, eu posso ser uma pessoa bastante ácida quando começam com esse género de conversa,  digo muitas vezes cobras e lagartos do meu país mas não gosto nada nem fico quieto ao ver estrangeiros a fazê-lo. Discutia-se o nosso porto.

-Há um espanhol que se calhar conheces, tem uma escuna e vinha cá muitos anos.Ele implorou que em vez da marina pusessem poitas de amarração e um pontão de espera…mas foi isto.

-A sério? Um turista espanhol implorou e nem assim fizeram nada? Mas o que é que ele esperava? Há um projecto, bom ou mau, e ele pensava que se pedisse eles davam-lhe ouvidos?Por ter uma escuna? Por ser estrangeiro?

-Ele tem cá uma casa…

-De férias, não lhe dá voto na matéria.E lembro-me bem desse senhor, no ano em que abriu a marina andou aí a ralhar por todo o lado sobre o preço, disse que ia para a Terceira e nunca mais cá vinha de barco. Eu disse que era estranho ele vir cá anos a fio e ancorar e só porque há uma marina deixa de cá vir. Porque é que não continuou a ancorar descansado sem ligar à marina, já que não faz falta nenhuma?

O homem foi encontrar outra pessoa para partilhar as suas opiniões sobre os nossos defeitos e eu fiquei encostado a um  poste com a minha mini na mão a ver o movimento, satisfeito da vida. O ano passado por esta altura estava a meio caminho entre a Nova Zelândia e as ilhas Fiji, ainda nem por um minuto que seja senti saudade da vida que decidi deixar para trás e já me disseram que “pareço outro” este ano, com mais energia, mais bem disposto, até com melhor postura . A melhor postura deve-se ao yoga, o resto deve-se a ter acabado com a vida de vagabundo.Consumía-me a incerteza do para onde vou e quando vou, consumía-me deixar casa e cão atrás meses a fio, consumiam-me as saudades quando estava fora, foi a melhor coisa que fiz nos últimos anos e pelos vistos nota-se.

No Sábado à tarde convidaram-me para sair no S.Pedro, o segundo bote baleeiro do clube, e nunca é preciso pedir-me  duas vezes. O Presidente da Câmara tinha pedido ao Clube Naval para ter os barcos todos na água nessa tarde, já que nunca o conseguem fazer como devia , que seria todos os Sábados em que o tempo permitisse.Quando cheguei ao porto vi que havia três turistas a quem tinha sido prometido um passeio no bote, só me chateei porque acho que deviam pagar para andar nele. Pediram-me para em vez de ir no bote sair com um Raquero com dois moços, lá andámos um bocado às voltas na baía, disse-lhes que este Verão ainda íamos escolher um dia bom e dar a volta à ilha nesse barco, ficaram entusiasmadíssimos e eu gosto da ideia. O Raquero  navegou ontem depois de um ano parado, sempre que me apetecer agora saio com ele, enquanto espero por desenvolvimentos na política do clube naval. Parece que a demissão do presidente afinal era revogável, estou a ponto de escrever um memorando para o Presidente da Câmara, que tem que ser o árbitro nesta coisa, com a minha visão sobre o clube e as suas perspectivas. Digo a quem me quer ouvir (e é um tema muito falado nestes dias) que estou disposto a integrar uma lista para a direcção e a tomar conta da secção de vela se houver uma pessoa reconhecidamente  capaz, íntegra e organizada  para liderar a lista, e há pelo menos um nessas condições. Sem surpresa nenhuma já se diz por aí que eu quero mandar no clube naval, eu rio-me.

Encheram-se os restaurantes montados em tendas , como todos os anos comi cabrito assado três vezes seguidas, houve um porco assado no espeto que foi fotografado por dezenas de turistas que só vêm coisas dessas nas famosas “feiras medievais”. Parece que já há mais feiras medievais do que havia na Idade Média. Houve um desfile do novo clube motard liderado pelo presidente na sua Suzuki 500 e o meu vizinho que já tem mais de 70 anos numa moto  de três rodas daquelas com uma caixa atrás e que é o seu meio de transporte diário, foi muito engraçado. Participou no “desfile” (descem a avenida, dão a volta à rotunda , sobem a avenida, não passa de 600 metros) uma Kawasaki 1100 que veio… do Corvo, sítio onde é impossível uma moto daquelas passar da terceira velocidade, fartei-me de rir.

Seguiram-se as marchas com  os miúdos das escolas, a única filarmónica que resta  na ilha e uma marcha que veio do Pico, senão me engano. Houve artistas convidados, na sexta foi a Rute Marlene, que não é propriamente um  género musical que eu aprecie mas esteticamente funciona muito bem, especialmente já com uns copos de vinho. Ontem eram os Blind Zero que já é muito mais “a minha praia” mas começaram a tocar à meia noite e eu a essa hora já não estava muito capaz porque tinha passado a tarde toda de tasca em tasca, surpreende-me o número de pessoas que me querem pagar bebidas mas é mesmo assim, já começava a ter certas dificuldades, fui para casa.

Tinham-me pedido colaboração para o desfile de hoje , que previa os barcos todos do clube naval em cima de reboques com os miúdos em cima e queriam que eu fosse com eles no tal Raquero, declinei e lembrei que não fazia bem nenhum ao S.Pedro ter o mastro e as velas levantados e ser carregado com 7 homens para  ser passeado num reboque fora da água. A  ideia de homenagem aos antigos baleeiros é bonita mas primeiro devia-se pensar na saúde do bote e uma coisa dessas esforça-lhe muito a estrutura toda e não se deve fazer. Como se largou a chover não sei se cancelaram o desfile ou não, se parar de chover ainda vou mais logo ver a partida do ferry e ver se ainda sobrou algum cabrito no forno. Para o ano há mais.

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