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Arraial Gay

No outro dia fiz um comentário numa notícia sobre uma criança de oito anos que declarava gostar de ser travesti perante a alegria dos pais e aclamação da imprensa da especialidade. Eu disse que duvidava um bocado de que essa criança se fosse tornar num adulto normal e bem adaptado, cometi o erro de usar o termo  “normal”, só por si um convite a horas de discussão. Responderam-me que o miúdo em causa tem boas notas, gosta de skate e descreve-se como heterossexual. Só retorqui que se me tivessem perguntado aos oito anos qual a minha orientação sexual tinham recebido um olhar em branco e um bocado confuso como resposta.Os tempos mudaram muito e ao que parece hoje em dia aos 8 anos já se tem a noção. Eu acho que não, acho que são palhaçadas que nascem todas dos delírios do sr Freud, para mim um tarado nojento que pode bem ter lançado bases para uma ciência séria mas que conta entre as suas maiores heranças coisas como esta : perguntamos a crianças de oito anos se são gays e se querem mudar de sexo.

É provável que eu tenha sido ultrapassado pelos tempos e me tenha juntado aos botas de elástico que não percebem o mundo. É provável que seja positivo haver professores em escolas a discutir sexualidade com crianças que deviam estar preocupadas com  desenhos animados e a tabuada do 7. A mim parece-me mal, muito mal, porque há tempo para tudo e a altura em que esses temas devem entrar na vida das crianças é quando as próprias começam a senti-los fisicamente, quando entram na puberdade. Quem me quiser  convencer de que é necessário introduzir a sexualidade na vida de crianças impúberes é, na minha avaliação, no mínimo um imbecil e no máximo um tarado que eu quero distante de crianças importantes para mim.

Na outra ponta da escala há “escolas de pensamento” que preferem que a sexualidade seja tabu, que as crianças cresçam a pensar que o sexo é uma coisa suja e pecaminosa,  para se fazer ou para reprodução ou numa união abençoada por uma pessoa que está estatutariamente proibida de ter sexo mas que apesar disso diz saber tudo o que é preciso sobre sexo e ter autoridade para controlar o das outras pessoas. Medieval.

Essas mesmas pessoas e organizações consideram que a homossexualidade é uma doença ou pior , uma perversão. Eu , que cresci em Portugal, católico e tuga clássico, também cresci a rir da paneleiragem e sem dar importância nenhuma às lutas e trabalhos do homossexuais. Isto mudou por três  simples factores, o primeiro foi aprender que a sexualidade nasce connosco, que a história da Humanidade está cheia de homossexuais que foram grande homens e mulheres,  que há comportamentos homossexuais pela natureza fora apesar de durante décadas terem sido “escondidos” pelos programas de vida selvagem. Aprender que uns são assim , outros assado, que ninguém escolhe nem ninguém se contagia nem converte à homossexualidade.

O segundo foi o que eu recomendo a toda a gente que faça se quer viver num mundo melhor, um exercício que devemos fazer até morrer: pus-me no lugar de um homossexual e olhei para a vida que têm que levar na nossa sociedade, ou que tinham há 20 anos quando as coisas eram muito diferentes. Quem não tem capacidade de empatia não pode sequer tentar julgar os outros, como é possível oferecer juízos de valor sobre a vida, afectos e aspirações de uma pessoa se não conseguimos sequer imaginar-nos dez minutos na sua pele? Ser gozado e ostracizado na escola; ser forçado a esconder e reprimir os seus desejos e sentimentos; ouvir todos os dias insultos; ser descriminado e tratado como anormal; ouvir as religiões a ameaçar o inferno e outra patranhas ridículas e nojentas e no fim de tudo não ter os mesmo direitos que o resto dos cidadãos. Pensemos um bocadinho nisto , tentemos imaginar como seria se a situação fosse inversa e fossem os heterossexuais a ser tratados como cidadãos de segunda , a ver se se mantinham  opiniões homofóbicas. Antes de passar ao terceiro factor, quero protestar contra o uso generalizado de “homofobia” para descrever pessoas que se opõem aos gays e aos seus direitos. “Fobia” significa um medo irracional de alguma coisa, e  essas pessoas não têm nenhum medo irracional, têm apenas preconceitos e ignorância.

O terceiro e último factor que me fez perceber que é estúpido ser contra  direitos iguais dos gays e que estes devem ser , como toda a gente, deixados em paz a viver a sua vida é a pergunta que costuma calar os idiotas e “anti gay” :  expliquem-me claramente quem é que é prejudicado quando dois homens se podem casar?A quem é que pode ofender ver duas mulheres a passear de mão dada na rua?Porque é que felicidade dos outros causa tanta preocupação? Em que é que a sexualidade de uma pessoa interfere com o resto das suas responsabilidades e trabalhos na vida? No fundo, qual é o problema, além de se contradizerem  textos vetustos e inventados que só deviam servir como documento histórico?

Escrevi isto porque reencontrei , com esta história dos botes da baleia, as antigas bocas e preconceitos de sempre quando se junta uma “rapaziada”, um meio em que o insulto jocoso preferido  é “paneleiro”.É tudo na brincadeira , não há no grupo homossexuais que se pudessem ofender directamente mas é a palavra escolhida para gozar e implicar, como era há 30 anos quando eu era garoto. Entristece-me um bocado, tal como me entristecia ouvir referências a um rapaz daqui que,sem surpresas, se foi embora por ter a vida num inferno : esse paneleiro , como quem diz esse ladrão ou esse malfeitor. É triste , é estúpido, é atrasado, é malvado.

Há hoje em Lisboa um “Arraial Gay”, acho que é uma marcha como se fazem pelo mundo todo.Se lá estivesse não iria ver, porque a estética daquilo  não me atrai anda e não tenho paciência para uma certa histeria  saltitante em lantejoulas que acompanha estas manifestações, mas compreendo a sua necessidade e mesmo a necessidade de um certo espalhafato e excesso, tantas décadas forçados a sofrer escondidos tornam natural que quando alcançam a liberdade de ser o que são, queiram gritá-lo ao mundo.

Não posso terminar sem lembrar aos mais esquecidos que os comunistas e demais apóstolos do Socialismo Real como o Che Guevara tinham uma política simples relativa à homossexualidade: repressão e prisão. Foram os liberais que mudaram as coisas, mas aposto o que quiserem que a maioria dos  activistas LGBTGHCPT alinha pelo Bloco. O  laisser faire , laisser passer , um dos credos dos  liberais, também se aplica às nossas liberdades individuais mas os activistas preferem socialismo. Essa ainda não consegui perceber.

 

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2 thoughts on “Arraial Gay

  1. Belo artigo este. em particular o parágrafo que começa: O segundo foi o que eu recomendo a toda a gente que faça se quer viver num mundo melhor, um exercício que devemos fazer até morrer:…
    Gostei mesmo muito e concordo com praticamente tudo o que disseste e a forma como o disseste.

    Liked by 1 person

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