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O Bote da Baleia

Faz agora 30 anos que se caçou a última baleia nos Açores, nas Lajes do Pico. Foi o fim de uma história longa, heróica e muitas vezes dramática, felizmente está documentada e o património está cuidado, desde os vários museus que contam a história da faina e guardam os artefactos à memória viva dos muitos baleeiros que ainda estão entre nós, e no principal: as embarcações que são mantidas e navegam todos os anos, com a juventude do arquipélago misturada com os velhos lobos para se manter a arte e termos a certeza que os garotos de amanhã vão poder ver um bote da baleia a todo o pano e, quem sabe, navegar num.

Não há grandes dúvidas de que os melhores baleeiros eram dos Açores, não são os Açorianos quem o diz, são os estudiosos das maiores armações baleeiras de sempre, nomeadamente Ingleses de Liverpool e Americanos da Nova Inglaterra, até no livro que vem à cabeça de toda a gente quando se fala em baleias está escrito com todas as letras, os melhores e mais procurados eram os ilhéus dos Açores.  Baleeiros de Nantucket e New Bedford faziam quase 2000 milhas para Leste  até aos Açores antes de rumarem aos mares do Sul para épocas de caça que duravam anos, não só para refrescar e posicionarem-se melhor para a descida do Atlântico mas também para recrutar marinheiros, tantos quantos pudessem. Sabendo das condições de vida no arquipélago no século XIX e princípio do século passado, é normal que as fortunas ganhas com bravura em  mares distantes faziam sonhar muita juventude, que se aplicava ainda com mais empenho do que o que a necessidade já ditava. Um trancador (o que lança o arpão que apanha a baleia) açoriano que embarcasse numa escuna americana sabia que deixava a sua família orientada por meses e que dentro de poucos anos podia voltar rico, quem sabe até chegar às califórnias perdidas de abundância. 

Convido os mais curiosos a fazer uma simples busca no google tipo “baleação nos Açores” para aceder  a minas de informação detalhada, e para os mesmo interessados, uma visita às ilhas,principalmente o Pico,o Faial e as Flores, que sendo pequena mesmo assim figurou alto na história e teve a sua fábrica da baleia, hoje um museu impecável.

Desde que aqui arribei pela primeira vez que os botes da baleia me chamaram a atenção e pensava em navegar com eles e ver de perto o que seria a sensação de andar atrás de baleias em coisas daquelas. Os anos passaram, há 6 vim morar para cá, os botes na rampa do porto no verão, raramente os via sair. Fiz-me sócio do clube naval mas não pensava em participar, até porque me ausentava frequentemente no Verão. Além disso sei bem que posso viver aqui mais 30 anos que vou ser sempre continental, há uma linha. Não estou a protestar, acho perfeitamente normal e gosto muito de linhas, todos devíamos saber e poder traçar claramente as linhas e limites e ter noção  do que é preciso para os atravessar.

Há uns meses  perguntaram-me  do clube naval se este ano eu queria fazer parte de uma companha para ir às regatas na Horta e no Pico. Eu pensei:  a linha já foi afastada mais para diante! e como dei por encerradas as viagens oceânicas,disse logo que sim.Ficaram de  me dizer alguma “entretanto”.

Passaram meses e nada, e eu sou um gajo que não só gosta de um certo nível de organização como tenho uma noção boa do que é preciso para juntar, treinar e soldar uma tripulação nova num barco novo. Também conheço o nível dos marinheiros do Pico e do Faial, que têm dezenas de botes e montes de juventude e mestria que faz isto regularmente e com dedicação, estruturas e programas montados e anos de experiência. Aqui é tudo aleatório e incipiente, e eu sei bem que não  podemos pensar em ir ganhar a regata da Semana do Mar mas temos a obrigação de ir lá e não ser uma vergonha.Há uma grande diferença entre chegar em último e ser uma vergonha.

Como nunca mais me disseram nada tirei daí o sentido e felicitei-me por não ter logo começado a escrever um grande post sobre os botes da baleia. Eis que na semana passada outro conhecido meu diz-me que o clube naval lhe tinha confiado a responsabilidade de um dos botes para levar às regatas do Pico e do Faial, e se eu queria ir. Claro que sim, com os  pressupostos:  começávamos já a treinar; eu estou feliz tanto de oficial ao leme como a fazer lastro na borda; há que ver que nunca andei num bote e eles diferem imenso dos barcos a que eu estou habituado e, finalmente,  o objectivo não é ir de festa para as lendárias adegas do Pico e depois no dia arriar o bote, dar meia dúzia de voltas e abandonar, à maneira de um conhecido navegador solitário português, e regressar à doca confiante de que temos desconto porque somos lá das Flores, é esperado vir fazer número e marcar presença. O objectivo tem que ser  ir aprender o máximo com os que sabem mais que nós, acabar o percurso e que quem estiver a ver não diga “aqueles toleirões das Flores” e sim “não se amanharam nada mal, mesmo assim”.

Já saímos quatro vezes, dou-me bem com a companha toda, é um mundo novo para mim e temos muito trabalho pela frente,  muito que aprender uns com os outros e  estou radiante não só porque já naveguei como oficial num bote da baleia como isto me faz sentir aceite e parte desta terra. Não são as minhas perícias de vela que vão levar isto a um nível novo mas sei que tenho um contributo positivo a dar e de qualquer maneira é uma aventura. Uma aventura marítima na senda  de homens admiráveis em embarcações históricas, e ao fim do dia  subo o monte e vou para casa. Também sonhei isto quando era pequeno.

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PS: O cordeiro enjeitado vive,ainda não está safo mas aguenta-se.

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