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Sobre as Eleições Francesas

Mais vale ser pessimista, esperar o pior e depois reconhecer o engano e apreciar um resultado favorável do que ser optimista e confiante e depois sofrer desilusões. Felizmente enganei-me quanto às eleições francesas, os franceses revelaram-se menos xenófobos e isolacionistas   e mais europeístas do que o que eu pensava, ainda bem.

Não acho que o Macron seja a “esperança”  da Europa nem a “salvação” da França mas do lote de candidatos é o que me oferecia mais garantias de que isto não vinha tudo abaixo nos próximos meses, as pessoas que anseiam pelo colapso vão ter que esperar  mais um bocado. Congratulo-me com a obliteração da esquerda  em França, que agora tem que se reorganizar e renovar se quer  continuar a ser relevante.

Gostava de os ver a largar  muita bagagem e  entrar neste século em vez de continuarem  a martelar na tecla centenária : é um drama e um bloqueio haver pessoas muito ricas e pessoas muito pobres e é outro drama haver mais pobres que ricos. Se abandonassem a simbologia e o discurso de regimes  opressivos do passado e do presente; se abandonassem o discurso do confronto permanente e das expectativas exageradas que os trouxe a este ponto ; se num esforço hercúleo aceitassem a Economia de Mercado e a livre iniciativa e se dedicassem a melhorá-la e torná-la mais justa em vez de a querer abolir ou condicionar; se reconhecessem os limites do Estado e começassem a querer não expandi-lo cada vez mais e  sim racionalizá-lo, torná-lo transparente e retirá-lo de onde não deve estar para o reforçar onde faz falta; se em vez de querer decretar a igualdade começassem  a propor a liberdade de cada um subir até onde consegue desde que não atropele ninguém, continuando a defender os que vão inevitavelmente ser atropelados,  podiam perfeitamente ganhar um novo fôlego e grande apoio para travar todas as lutas que urgem para tornar o sistema mais justo e mais equilibrado. Por outro lado, também  podiam aferrar-se aos seus batidos programas, slogans e propostas , mas deixando bem claro que podemos ter a famosa e nunca vista  igualdade, só que vai levar a que seja  tudo nivelado por baixo, tudo reduzido ao mínimo denominador comum, excepto, claro está , para  os membros da classe dirigente. Prometer a prosperidade do capitalismo num sistema socialista  já não convence muita gente.

Acho que nada disso se vai passar e o mais provável é voltarem todos às trincheiras, tal como acredito que a senhora Le Pen não vai  equilibrar o seu discurso e programa, o mais provável é radicalizar-se  mais.

Como a democracia é óptima quando os nossos ganham mas uma coisa corrupta,podre  e desvirtuada quando perdemos, já há milhares de pessoas a organizar-se e a protestar contra o novo presidente que ainda nem se sentou na cadeira. Os mesmos que afirmavam que o Hollande ia revitalizar a França e relançar a Europa hoje dizem  que o Macron é um vendido e vai ser um fiasco.  O ilustre Varoufakis, paladino de sei lá o quê e  que nunca mais vai ter que passar por essa chatice de se sujeitar a votos, já veio dizer (claro que a opinião dele continua imprescindível para a imprensa) que se vai opor ao Macron com todas as suas forças,  felizmente são poucas.

Desde o Aristóteles que as virtudes do caminho do meio são proclamadas por sábios de vários lugares e religiões. A moderação,a síntese de opostos, a capacidade de se pegar em dois pontos de vista distintos e encontrar o terreno comum, são coisas que qualquer pessoa numa conversa particular vai considerar virtuosas e sensatas. Na política não funciona bem assim e um político que venha dizer que acha que uma ideia do seu adversário tem mérito e deve ser adoptada é logo fuzilado, com os seus correligionários à cabeça do pelotão. Acho que não é preciso dar exemplos concretos, não só da recusa de partidos de cores diferentes em  aceitar a validade das propostas dos adversários como da prática habitual de se condenar algo na oposição para depois o fazer  no governo ou vice versa.

Talvez o Macron consiga provar as virtudes do centrismo pragmático, talvez não. Pode ter é a certeza de que assim que anunciar uma reforma de fundo vai ter as ruas a ulular de raiva e sindicatos prontos para paralisar os serviços à mínima perda de privilégio,protecção e qualquer atenuar da discriminação sofrida pelos cidadãos que não trabalham para o Estado.

Quanto à questão da imigração, que lê este blog sabe que sou adversário do Islão,que lamento a islamização crescente da Europa,  e os abusos e ofensas de  imigrantes muçulmanos, refugiados ou não, possibilitados pela cultura da tolerância mesmo para quem não tolera os valores da sociedade que o acolheu e para quem vive na Idade Média . Não vejo com satisfação  a tendência demográfica nem o que ela representa em termos de perigo de extremismo, o que me faz não me preocupar demasiado é viver num sítio isolado desse risco e o facto de que é provável já não estar cá para ver  quando por exemplo partidos militantemente muçulmanos começarem a ganhar  poder em eleições por essa Europa fora . Por outro lado a mesma tendência demográfica mostra claramente que sem imigrantes a Europa daqui a  50 anos teria uma minoria de trabalhadores activos a sustentar uma maioria de reformados e uma quebra enorme de produtividade junta a  falta de mão de obra qualificada. Lamento não ter aqui links para sustentar isto, não peço que o creiam só porque sim e por favor investiguem, mas para mim é evidente que pessoas com menos de 55 anos hoje ou poupam particularmente e seguramente para a sua reforma ou vão ter uma surpresa muito desagradável quando chegar a sua altura de reclamar o que políticos de esquerda e direita lhes andaram a prometer durante anos, fingindo que este sistema de segurança social que temos é mais do que um elaborado esquema de pirâmide. Um influxo de imigrantes para  contrariar o envelhecimento galopante da população é uma das maneiras de mitigar isto. Outra é fazer o que eu faço : reduzir as necessidades com uma austeridade extrema e habituarmo-nos a viver com muito menos. “Como é que podes dizer a uma pessoa que ganha 500€ por mês para viver com menos?”. Não posso nem digo, esta recomendação, ou sugestão, é mais para os que ganham 1500 e mais e pensam que são pobres . Durante décadas políticos e vendedores de toda a espécie convenceram-nos a todos de que tínhamos determinados direitos e que nos era devido determinado nível de conforto e consumo, só por existirmos.  Enquanto as condições para ter esse nível puderam ser criadas com dinheiro pedido emprestado às gerações futuras, correu bem. Quando a bolha rebentar de vez vai ser o diabo, menos para os mesmos políticos e vendedores, não me consta que haja muitos ex deputados a passar dificuldades e creio que se houve sítio por onde a austeridade não passou em Portugal foi pela Assembleia da República e pelas reformas e privilégios automáticos dos políticos. Ninguém mexe nisso, nem o PCP é capaz de apresentar um projecto lei a pedir que , sei lá, os políticos tenham que trabalhar o mesmo tempo que os outros para receberem reforma, gostava de saber porque é que isso não pode ser feito e há-de ficar-me para sempre atravessada  a reforma de 7 mil euros mensais por 10 anos de serviço da  Assunção Esteves (a mesma que mandou editar a sua página da wikipedia para ocultar as suas origens humildes), são estas pessoas que fazem as regras e nos conduzem.

Voltando à questão da imigração,  a melhor abordagem para mim seria  , mais uma vez, a do meio:

Nem fechar fronteiras ou deportar centenas de milhar mas sim controlar melhor as fronteiras e os que as querem passar; combater sem dó as fraudes e abusos dos sistemas de segurança social; proibir  e punir claramente  o discurso de ódio em lugares de culto; obrigar os recém chegados a aprender a língua do país onde chegam e  banir inequivocamente a religião da política. Isto não resolveria  a questão do terrorismo nem da falta de integração dos imigrantes mas acredito que ajudaria bastante.

Depois do Trump , que continua a tornar a América num sítio onde nunca mais quero voltar, e do Brexit, onde o isolacionismo mostrou que está bem vivo em 2017 e logo num país que fez mais do que a maioria pela globalização, foi um alívio (a palavra mais usada  hoje pela imprensa) ver que ainda há alguma  esperança no caminho do meio e que não é inevitável que a  UE acabe….contra a vontade de comunistas e fascistas, é bom lembrar.

Uma palavra final para a Wikileaks e seu mentor, o sr Assange. Como é sabido, esta organização “dedicada à liberdade de informação”, escolheu a véspera das eleições francesas para divulgar um monte de documentos alegadamente “comprometedores” para Macron. Para quem ainda tivesse dúvidas sobre o que move essa organização, é lembrar que tal como fizeram o máximo para que Clinton não fosse presidente e sim o Trump, também agora quiseram prejudicar Macron e ajudar Le Pen, que como o Trump é muito amiga da Rússia. Se depois disto ainda vos restam dúvidas sobre o que os motiva , sugiro que vão ao próprio site da wikileaks e vejam o que lá se encontra sobre a Rússia, a Venezuela ou  o Irão , que é, em substância, nada.  A conclusão é fácil de tirar.

 

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