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Animalismo

Uma das polémicas correntes é sobre a nova lei que reconhece os animais como seres vivos dotados de sensibilidade e protecção jurídica. Os bichos deixam de ser coisas perante a lei, e  para mim , que nesta altura tenho 15 bichos de várias qualidades e funções, é um marco civilizacional.

No entanto, ao ler alguns artigos e  comentários sobre o assunto vejo que anda aqui um mal entendido. Henrique Raposo é um colunista que eu aprecio porque pertence a uma minúscula minoria de opinadores que não tem medo de se assumir como pessoa de direita, e ainda por cima escreve bem. Discordo com ele numa quantidade de coisas, por exemplo desagrada-me profundamente o seu identificar do SLB como o fulcro, glória e essência do futebol nacional e o martelar permanente na tecla do “sou de uma família pobre que veio para a grande cidade e subi a pulso” . Não dou para os seus peditórios sobre religião ou valores sociais mas o que é certo é que ele representa uma grande faixa da população portuguesa que cada vez tem menos voz na comunicação social. Da última vez que se ouviu falar dele foi por causa de um livro que escreveu sobre o Alentejo das suas raízes.O livro não agradou a muita gente da esquerda, que por deformação congénita não consegue encolher os ombros e escolher outro livro: tem que se protestar, boicotar e insultar. É uma forma de luta.

Desta vez o homem salta outra vez das páginas do Expresso para o vespeiro das redes sociais por causa deste texto sobre as recentes alterações à lei sobre os animais . O Henrique Raposo vê nela outro passo não para a humanização das relações com os bichos mas sim para a desumanização do próprio homem. É um grande salto de raciocínio dizer que a lei “faz “equivaler o homem e o cão”,  é errado e diria mesmo um pouco estúpido porque está-se , felizmente , longe de conceder qualquer espécie de equivalência, o que se faz é reconhecer que os bichos sentem e sofrem e não podem ser tratados como coisas. Saltar  daqui para qualquer equivalência, legal ou qualquer outra , entre homem e bicho é impossível.

No entanto há aqui uma preocupação com um problema bem real, que é o excesso de zelo em que caem frequentemente as militâncias e os defensores das causas como esta , basta ver certas acções e reinvindicações da PETA, por exemplo . Basta ver os números do mercado dos animais de estimação e muita gente torceria o nariz perante as centenas de milhões gastas em comida gourmet para os gatos, sessões termais para cães ou  ainda pessoas que dizem coisas como “o meu cão ensinou-me a ser pai”.  Os excessos de “humanização” dos bichos podem ser encorajados por esta lei mas certamente que não seriam prevenidos com a falta dela.

Há também a questão da visão religiosa do autor, as Sagradas Escrituras ensinam que o Homem foi posto na terra para dominar as outras espécies, e a outra visão que diz que só por haver superioridade e capacidade de dominação isso não é carta branca para se fazer o que se quer com os bichos. Por alguma coisa Deus Nosso Senhor teve aquela trabalheira toda a ajudar o Noé a enfiar numa arca 78 milhões de casais  de espécies animais , pinguins ao lado de raposas, osgas para a direita, águias para a esquerda, e a salvá-los do dilúvio que Ele próprio enviou. Uma operação dessas só pode provar o amor de Deus por todos os bichos ( se ele até os inventou um a um…) e obrigar a concluir que temos que os tratar bem.

Henrique Raposo vê nesta nova concessão de direitos aos animais mais um passo de gigante numa caminhada feita de coisas como o casamento gay, a co-adopção,as barrigas de aluguer e tudo mais que forem,digamos, inovações sociais.É tudo sintoma da mesma desagregação social que ele lamenta, dizendo que transforma os humanos em coisas ao mesmo tempo que quer transformar os animais em humanos. É muita confusão, muita evolução no sentido que não era o preferido, para a cabeça de um jovem conservador católico que consegue ver numa lei que protege os animais mais um degrau da degeneração da sociedade e da degradação dos costumes.

Como ele se refere várias vezes ao “animalismo” como filosofia, eu gostava de lembrar que o animalismo defende apenas que os homens são animais . Isto a mim parece-me incontestável e devia ser aceite por todos, deixando a questão seguinte (o que é que nos distingue dos restantes animais) para ser resolvida de outra maneira.Ou a racionalidade que nos faz Homens é produto da Evolução e Selecção Natural , ou foi toque mágico de uma entidade superior, seja qual for a nossa explicação preferida é muito difícil negar que somos todos animais. Para muita gente , animalismo e a defesa dos direitos dos animais confunde-se com uma exigência de igualdade ou , como para o HR, equivalência. Tirando a  minoria de extremistas que se pudesse acabava amanhã com a pecuária e obrigava a consultas veterinárias regulares pagas por todos, a maior parte das pessoas não acha que exista nem que seja desejável essa equivalência.

É por isso que considero esse artigo  um tiro ao lado,  confunde um avanço social que é reconhecer os bichos como seres sencientes  (uma evidência, de resto) com uma causa perdida , inútil e marginal que é a “equivalência” de que se queixa o Henrique Raposo.

 

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