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25/4 e o resto

Fiquei sem internet em casa há cinco  dias, a banda larga portátil deixou de trabalhar, estas coisas não são feitas para durar.Disseram-me que substituíam se estivesse na garantia ou me vendiam uma nova, talvez até me dessem uma lá com o esquema dos pontos. Tudo muito bom e muito eficiente só que ir a uma loja Vodafone, só de avião.Tratando de tudo pelo correio  é processo para mais de quinze dias. Insularidade.

Não me transtorna muito e até me faz recuperar horas normalmente gastas a procrastinar e a  pastar em frente ao écran, consumindo tempo com coisas que  podem entreter mas não adiantam grande coisa à vida de uma pessoa nem contribuem para o avanço da causa.

As notícias  mais importantes  encontram-se  facilmente, das eleições francesas só vi um parágrafo, a confirmar Macron/Le Pen na segunda volta, fiquei satisfeito. No dia seguinte ouvi uma declaração na rádio que me pareceu extraordinária. Um ex embaixador chamado Seixas da Costa comentava, com a sua vasta experiência de Paris e da politica, o resultado das eleições.Falava sobre os passos e politicas que Macron ia adoptar, as pessoas que ia convidar, quais vão as suas prioridades e eu pasmei,o senhor ex –embaixador, democrata da velha cepa, dá de tal maneira por certo o resultado que falava como se nem valesse a pena ir a votos  numa segunda volta. Pareceu-me incrível, quanto mais não seja por respeito pelo voto. Não há falta de declarações deste género, até livros escritos, sobre a Presidente Clinton por exemplo, e correu como sabemos, muito devido à  fúria contra uma classe política que está tão habituada a ter tudo sob controle e tem tanta confiança no sistema que neste caso dá a vitória de Macron como um dado adquirido.

Há estudos que demonstram a viabilidade de determinar o resultado da vontade popular sem as pessoas terem sequer que ir votar, governando por, digamos assim, sondagens. Aplicando análise estatística a uma amostra válida da população pode-se inferir a vontade do todo, e agir em conformidade. Não tenho opinião sobre isto, mas tenho opiniões bastante fortes sobre a necessidade de haver sufrágio universal  regular e limpo, as eleições não podem ser só uma formalidade e o resultado delas pode determinar o futuro de um país, logo, menorizá-las como um detalhe ou desrespeitá-las descartando publicamente a hipótese de Le Pen ganhar, é mau. Prognósticos, ao contrário do que defendia o grande lateral direito do FCP João Pinto, têm que  fazer-se antes do jogo, mas o embaixador  estava  a comentar a goleada e implicações de um jogo que ainda não aconteceu, às vezes corre mal.Além do  mais a equipa do Seixas da Costa foi humilhada mas isso não o impediu de se congratular com o resultado.

O 25 de Abril passou-me quase despercebido,o meu vizinho belga perguntou-me se eu queria ver  “o filme do 25 de Abril”, declinei , mais por falta de interesse no cinema em geral e sobretudo na realizadora, que se não a estou a confundir foi uma senhora que subiu na vida  até chegar a ser deputada, pelo PS. O meu vizinho ficou surpreendido ao saber que a deputada Medeiros vive em Paris e lá viveu todo o tempo que foi deputada.Cada um deve viver onde se dá melhor, mas se somos Deputados da República não é pedir muito que se resida na mesma, mas a ela parecia-lhe natural, são pessoas que vivem em mundos muitos diferentes. O filme sobre a revolução até pode ser muito bom e bonito mas  não tenho paciência para uma visão romantizada dos acontecimentos pela lente e perspectiva  de uma artista portuguesa da rive gauche.

 Vimos em vez disso um documentário francês,sou mais de documentários do que de filmes. O meu amigo belga é esquerdista  e como me conhece como visceralmente anti-comunista pensava que eu de alguma maneira era “contra o 25 de Abril”, ou que o lamentava ou que  me era indiferente.

Longe disso. Tinha um ano em 74 , não tenho memórias pessoais  mas cresci e vivi a evolução, sou observador atento e curioso da História e da Politica,só posso ter respeito e agradecimento. Até ver ,tenho por garantido o meu direito a dizer e escrever o que penso, falar e associar-me com quem quero, ler os livros que quero e ir e vir quando quero, dou muito valor a essas coisas, e tenho a impressão de que  que tal como vieram numa madrugada de Abril podem ir noutra madrugada qualquer.

É difícil, não é impensável nem impossível. Há centenas de milhões de pessoas no mundo que não têm esses direitos, há pessoas a trabalhar activamente contra esses direitos onde eles existem  e uma catástrofe natural ou humana pode criar condições para que desapareçam.  Acredito que nenhum país pode ter paz e prosperidade se os cidadãos não tiverem essas liberdades, nós devemo-las ao MFA e ao golpe de Estado do 25 de Abril, há que honrar a data e os protagonistas . O meu amigo ficou surpreendido quando lhe disse (e como fomos vendo no documentário)  que os comunistas não fizeram  revolução nenhuma, conseguiram sim mobilizar-se mais prontamente e já tinham os manuais todos sobre o discurso de revolução, a tomada do poder e o seu projecto de sociedade.Havia certamente comunistas no MFA, mas os objectivos não eram instalar a ditadura do proletariado como sonha o PCP, eram democratizar, desenvolver, descolonizar. Cumpriu-se.

Além de voltarmos a ter liberdades fundamentais, há outro aspecto do 25 de Abril me  dá orgulho no meu país : derrubou-se um regime opressivo com quase 50 anos e democratizou-se o país sem uma guerra civil que teria sido terrível. Quando vemos as histórias de golpes de estado e revoluções pelo mundo percebemos que somos um caso muito raro em que se trouxe a mudança sem derramar sangue,isso não tem preço.

Muitos não vivem bem com a memória da  revolução, desde pessoas que perderam e deixaram tudo em Africa, e foram muitas, a pessoas que simplesmente são de direita dura e estavam confortáveis, material e intelectualmente, na ditadura. Muitos outros vão olhar sempre para o passado com nostalgia simplesmente porque eram novos na altura. Podia ter sido diferente, claro, tudo podia sempre ter sido diferente, melhor, mais justo, mas “foi o que se pode arranjar” e para mim foi bastante bom.

Não vejo a Liberdade em perigo em Portugal, podem faltar-nos muitas coisas e podemos  ter problemas sérios  mas enquanto as pessoas forem livres de pensar, discutir, aprender, questionar, organizar-se  e propor , e se de tempos a tempos se puder mudar de governo, há uma esperança de que se consiga o resto.

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