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Páscoa

Celebra-se  nesta altura nos países cristãos a Páscoa, a ocasião em que o filho de Deus e ao mesmo tempo o próprio Deus omnipotente é torturado e executado pelas suas criaturas para re-aparecer alguns dias mais tarde,  mostrando assim  que é possível vencer a morte, coisa  nunca  feita antes de Cristo nem depois, foi só mesmo ele.

Deu  um exemplo que mais ninguém consegue seguir para além da parte mais simples e comum que é morrer.Estando a história da Igreja repleta de santos que segundo eles tiveram vidas iguais a Cristo seria de esperar que pelo menos um de entre essas centenas tivesse regressado depois de morto, quanto mais não fosse para nos iluminar e convencer, mas está difícil, até ver o número de ressurreições demonstradas anda pelo zero. Podemos viver como espécie muitos mais séculos  que haverá sempre milhões de pessoas para as quais é suficiente saber que foi escrito há 1900 anos que Cristo ressuscitou para se convencerem de que também eles se vão erguer dos mortos.

Isto não me incomoda  porque defendo que cada um deve acreditar no que quiser se isso o ajuda a levar uma vida menos inquieta e mais feliz,desde que não prejudique a vida dos outros, mas levanta  um  número de questões que regressam regularmente nestas datas.

A primeira é a que me assombra desde que comecei a perceber o modo como os Evangelhos foram escritos e chegaram até aos nossos dias.  Não consigo conceber como se pode defender a veracidade, validade, integridade e significado de livros que foram escritos ( pela estimativa dos próprios fiéis e crentes) pelo menos 60 anos depois dos acontecimentos que relatam. 60 anos , num tempo em que uma ínfima minoria sabia ler ou escrever, em que o sobrenatural era parte da vida diária e ninguém sabia para onde ia o Sol ao fim do dia . O Mundo não se consegue pôr de acordo sobre factos ocorridos há 20 anos gravados em vídeo mas consegue aceitar factos relatados oralmente há 19 séculos e basear neles doutrinas  poderosas  , isto rebenta-me a cabeça.

Pensemos depois na língua em que os Evangelhos foram escritos , o Grego. Cristo e os seus falavam Aramaico. Ninguém andava atrás de Cristo a tirar apontamentos pelo que o que foi registado foi o que foi escrito em Grego sobre coisas ditas em Aramaico meio século antes. Isto não causa preocupação com a integridade da mensagem, tal como as  centenas  de traduções , censuras , adaptações e ajustes que os textos sofreram ao longo da História , acompanhando o crescimento do poder da Igreja. Pensa-se que o processo longuíssimo de tradução e disseminação da Bíblia não foi sujeito à propensão humana para manipular e distorcer para obter  poder, e isto também me rebenta com a cabeça.

Estes  debates são furiosos há séculos , de um lado pessoas que gostam de ver as coisas explicadas com argumentos sólidos, do outro pessoas que não precisam da Lógica nem da Razão para viver porque preferem um plano espiritual em que basta aceitar e seguir. Enquanto os debates forem de ideias não há problema, mas passámos estes séculos todos em que o confronto de ideias também se fez e vai continuar a fazer pela força e com violência, e isso é dramático. Não tenho nem interesse nem calibre para entrar nas minúcias que ocupam os estudiosos sérios de ambos os lados, nem preciso porque sem ter que andar a fazer a exegese dos textos nem aprender Grego posso basear a minha avaliação em observações simples e banais como esta:

Evangelho de S.Mateus , 26 : 36,56 Então, chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. 37 E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. 38 Então, lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui e vigiai comigo. 39 E, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. 40 E, voltando para os seus discípulos, achou-os adormecidos; e disse a Pedro: Então, nem uma hora pudeste vigiar comigo?

Jesus afasta-se dos discípulos para orar , e quando regressa estavam todos a dormir. Apesar disso a oração ficou registada, a minha pergunta é :  quem é que o ouviu? Há quem diga que uma gota de veneno chega para inquinar o poço, eu pergunto, perante esta e tantas outras inconsistências dos textos, quem é que distingue o que é verdade do que é inventado e com que critério? Ah , os textos dizem só que se “afastou”, podia não ter sido muito e podiam ter ouvido….antes de adormecerem todos. Não , segundo o relato de S.Lucas afastou-se a distância de um “arremesso de pedra”, a menos que rezasse aos berros não o  podiam ouvir. O mesmo S.Lucas escreve que nessas horas apareceu um anjo a Jesus. Um anjo, que devia ser aparição de tal modo corriqueira na Palestina do século I que os outros evangelistas que lá estavam nem se deram ao trabalho de o mencionar,  passou despercebido a todos menos a Lucas. As respostas tentadas a estas  dúvidas acabam da mesma maneira : é uma questão de Fé ,  a crença em algo misterioso e sobrenatural que não pode ser demonstrado.

Mas há coisas que podem e deviam ser demonstradas , como os chamados milagres . Por ocasião da próxima visita do Papa agitam-se as hostes , esgrimem-se argumentos e explicam-se posições. Vale a pena ler a entrevista desta médica/freira que explica o processo de canonização dos pastorinhos de Fátima.  A primeira coisa que noto é a burocracia do processo, o sistema inventado para reconhecer milagres que não é baseado em mais nada além da fé nos evangelhos mas que por produzir quilos de páginas de discurso pensa que estabelece a verdade. Parece que uma pessoa foi curada de uma doença de modo inexplicável pela ciência actual . Essa pessoa rezava aos pastorinhos , logo, foi curada por intercessão dos mesmos. Este raciocínio ofende-me o sentido lógico, porque há muitos casos de curas que a ciência não explicou e que no entanto aconteceram, mas como não houve oração já não são milagres. Se me querem convencer da existência de milagres não é com um calhamaço teológico com explicações auto justificativas e circulares, é com a demonstração de que a oração é eficaz, com uma amostra estatísticamente válida de pessoas que sofram do mesmo mal, recebam o mesmo tratamento e se dividam entre as que rezam e as que não rezam.  Se o poder da oração é real , nestas circunstâncias as que rezam devem mostrar melhorias superiores, e isso não ser verifica. A Igreja tem os meios e teria  interesse em patrocinar e desenvolver um estudo assim  para encerrar a questão, mas o problema é que para eles a questão já foi encerrada há muito tempo. Os ateus melhoram ou pioram tanto como os hindus ou os evangélicos, para quem leva estes temas a sério e amanha bem o inglês pode por exemplo começar a explorar por aqui . Vi aqui há uns anos um estudo empírico e espontâneo sobre o poder da oração,  levado a cabo no cemitério de Santa Cruz em Dili , há muitos desse género mas os caçadores e justificadores de milagres nunca consideram esses,nos casos em que o poder da oração não aparece a explicação é  “as vias do Senhor são misteriosas”. É como nos naufrágios de antigamente : Um navio estava em perigo, a tripulação rezava , o navio salvava-se e era milagre , havia Te Deums  , procissões e capelas. Nas centenas de casos em que a tripulação rezava e o navio afundava na mesma, era azar ou melhor ainda, castigo.

Atribuir a intervenção divina ao que não se consegue explicar de outra maneira  é a origem de todas as religiões e está de boa saúde em 2017, quando já andamos de volta de Marte, o que para mim é  extraordinário e um pouco triste.

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