Início » Sociedade » Comércio Justo

Comércio Justo

Na minha definição, “comércio justo” é aquele em que o comprador e o vendedor estão de acordo com o preço de uma transacção voluntária. O problema é que o mundo detesta simplificações pelo que aprendemos recentemente que o comércio só é justo se respeitar parâmetros reconhecidos  pelas pessoas que inventaram  o conceito e a partir daí se arrogaram o poder de dizer o que é justo e o que é injusto, e logo sobre um tema tão importante como o comércio mundial. Gente de coragem e ideias fortes.

Este “comércio justo” funciona porque há uma elite urbana , rica e com problemas de consciência que acha que por comprar um quilo de arroz com a etiqueta “fairtrade” por bastante mais do que custa um sem a etiqueta está de facto a contribuir para um mundo melhor, mais justo. O sistema é como  uma grande cooperativa e até gosto bastante de cooperativas, a razão, uma das razões , pelas quais embirro com isto é terem decidido chamar-lhe “comércio justo” ,  que por definição torna o comércio que não é feito nestes moldes injusto, não aceito isso. Não há maneira nenhuma de o conceito se alargar a bens que não os agrícolas , e só isso seria suficiente para terem encontrado outro nome , porque  inventar o Comércio Justo é diferente de inventar o Comércio de Produtos Agrícolas Justo.

Chegou aqui ontem  o Tres Hombres ( e com o tempo que faz, vão ficar pelo menos mais 4 dias…) uma escuna clássica que se dedica ao comércio justo. Parte dessa justiça comercial pelos vistos passa por transportar a mercadoria como era feito há 150 anos, porque este pessoal acredita que dantes é que era bom. Vêm da República Dominicana e vão para Amsterdão, vendem cacau bruto a 6,5€/kg , produto que é óptimo para quem tem uma torrefação em casa e gosta de fazer o seu próprio pó para o leite ou para cozinhar e não suporta dar 11€/kg à nestlé por um produto acabado , embalado e rotulado , coisas que só por si  transpiram injustiça.  Também vendem rum , claro está , esse é a bom preço mas só se vende aos 20lts, também deve ser parte da justiça do sistema, tem que ser granel.  Como me interesso pelo tema e sou adepto de tudo o que é contrabando tenho estado (moderadamente) atento ao modo como estes comerciantes justos vendem aqui o seu produto , num cais , sem um recibo nem uma licença, estou à espera de os ver a falar com a polícia marítima , que lhes vai estragar a festa assim que algum pescador reparar no que se passa e, chateado por não poder vender à vontade um peixe pescado ali ao lado não vai ficar sentado a ver um bando de hippies a vender cacau de contrabando à luz do dia. Também gostava de ver o capitão a explicar ao oficial a diferença entre “comércio justo” e “contrabando”, porque a alfândega não quer saber da opressão dos camponeses na Guatemala , quer saber de legalidade das importações comerciais e das vendas. Espero estar no porto para ver estes desenvolvimentos , alegram-me sempre a rotina e esta tropa fandanga atrai sempre muita gente e muita simpatia , é surpreendente o número de pessoas que nem precisa de ler um folheto ( não há folheto) para saber que isto é gente boa a fazer coisas boas , logo, temos que participar e ajudar. A bondade e a ingenuidade andam frequentemente de mãos dadas, comprem uns quilos de cacau em bruto que dão sempre jeito ter na cozinha e ajudem a juventude da Europa do Norte  a viver as suas aventuras sociais.

O barco é este :

Os barcos à vela são para mim  objectos de encanto ,  os tradicionais mais ainda,  fiz uma carreira com a navegação oceânica pelo que sei alguma coisa sobre isto .  Transportar carga à vela entre continentes talvez não seja  a maneira menos eficiente de o fazer mas andará lá perto e seria simplesmente incomportável se estes veleiros não fossem comandados por reformados , tripulados por voluntários e mantidos por doações e voluntariado. Eu também consigo abrir uma loja de preços justos se me pagarem o transporte dos produtos , subsidiarem a renda, trabalharem para mim à borla e se os clientes não se importarem de esperar 3 meses por um produto ( de uma lista restrita).

Já me tinha cruzado com o Tres Hombres na Horta há uns anos e pareceu-me logo um esquema , no sentido em que é uma bela maneira de meia dúzia de pessoas financiarem um nível de vida cheio de estilo . A operação toda parecia-me que tinha algum valor publicitário para a causa dos camponeses explorados mas  pouco passava disso, o modelo nunca pode passar de uma actividade marginal nem podemos esperar que se generalize. Ou podemos?

Anúncios

Responder

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s