Escrita

Sei que nunca  vou ser um escritor no sentido comum do termo porque  me falta o que é comum a todos os escritores decentes :  a pulsão incontrolável de escrever ou a disciplina para escrever mesmo quando não se tem vontade nenhuma. Fora disto não há nada , não há talento que resista à falta de prática e perseverança nem há qualidade em textos escritos em esforço.

Todos os “gurus” da escrita ( farto-me de rir quando vejo pessoas a dar “cursos de escrita criativa” e nas suas qualificações há um blog e um livro publicado pela Chiado Editora)  insistem em que é preciso forçar a palavra , trabalhar a frase ,  lutar contra a folha em branco , insistir , apagar e voltar  escrever , sempre. Eu até concordo , mas muitas vezes o resultado é mau  quando os produtos  dessa insistência são publicados .

Vivemos na época da auto publicação em que deixou de existir a condição primordial que existia ainda há 20 anos : para publicar alguma coisa tem que haver pelo menos uma revisão do texto por alguém qualificado e o texto tem que ser julgado interessante por pelo menos mais uma pessoa . Hoje é escrever e carregar no botão , na net é à borla , se querem publicar um livro em papel quaisquer 1000€ fazem de vocês um autor. A qualidade está diluída numa torrente de banalidades e mediocridade , a aparência e/ou fama  dos autores  vende textos , os correctores ortográficos automáticos camuflam limitações e insuficiências e a “barulheira” é tal que uma pessoa se perde facilmente .

Sabem qual é o livro mais vendido em Portugal nesta altura ? “O meu Plano do Bem” , a autora é uma personalidade da televisão e a sinopse do livro é medonha , é o género de coisa que só interessa a quem lê colunas sociais e que pensa que por ler aquilo poderá ficar mais perto de uma vida como a da autora , ignorando que ser  bonito e famoso não se aprende nos livros nem se atinge com planos de cinco etapas. Aposto o que quiserem que se a senhora fosse uma anónima de  Fornos de Algodres podia levar aquilo às editoras que quisesse que ninguém lhe passava cartucho , aquilo existe e foi publicado porque a autora é bonita e famosa e isso atrai as pessoas , mesmo que os textos sejam amálgamas recicladas  de pseudo filosofias de bem estar e inanidades básicas tipo aquelas em que se especializou Gustavo Santos , um indivíduo que diz , sob aplausos tremendos , coisas assim :

Só aquele que ousa, por sua livre e espontânea vontade, abandonar o rebanho da indolência para fazer o seu próprio destino é que alcançará, verdadeiramente, o total poder da alma que é.

Aqui o que não é óbvio é confuso , como seria de esperar de um gajo que  fala longamente sobre “assumir a alma” , mas  ele é um referencial no mercado da auto ajuda , mercado ao qual os portugueses chegaram como é normal com cinquenta anos de atraso, o que por uma vez lhes confere uma  vantagem : têm para trás de si cinquenta anos de  produção alheia para requentarem e adaptarem .

No segundo lugar da   lista dos livros mais vendidos vem a JK Rowling , e isso para mim demonstra outro factor poderoso nisto das escolhas de leitura: a moda. Não devia ser assim mas é , e tal como na questão da roupa fico estupefacto ao ver que a maioria das pessoas usa como critério para as suas escolhas o que os outros usam ou lêem : Isto usa-se muito sempre foi o suficiente para eu não usar uma coisa desde que saí da adolescência , a única época da vida em que é aceitável querermos fazer e parecer como os outros .

Na   minha proposta de “rotina 2017” reservei os Sábados para escrever , ou pelo menos umas horas dos Sábados ( era para ter começado anteontem mas tive uma matança de um porco) , em  que vou esforçar-me por escrever uma página mesmo que não me ocorra nem me apeteça nada. Isto não quer dizer que a regularidade ou qualidade dos posts aqui vai melhorar, quer só dizer que é  um exercício que vou levar mais a sério , para minha própria edificação e melhoramento , não esperando mais do que provocar um sorriso aqui , uma reflexão ali , talvez algum enervamento num comunista que aqui venha por acaso num dia de textos sobre política.

Talvez  no fim de algumas dezenas de   Sábados me encontre com um monte de páginas interessante sobre os dois únicos temas sobre os quais  eu poderia escrever alguma coisa de qualidade : viagens marítimas à vela ou a vida numa ilha pequena e remota.

Por falar nisso , no outro  dia escrevi aí ,  a propósito de já nem sei bem o quê , “ilha isolada” . Ninguém reparou e eu deixei ficar como exemplo de um problema que eu aponto aos outros mas do qual não estou livre : as dezenas de erros e  incorrecções que lemos todos os dias , e ninguém se importa muito.

PS: estou a ler o Ensaio sobre a Lucidez , do J.Saramago , já vou na página 70 e tal e ainda não encontrei um único ponto de interrogação , está-me a fazer muita confusão.

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