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Questões de Vida e de Morte

Dois temas que voltaram à ordem do dia, o aborto e a eutanásia , começos e fins de vida e o modo como o Estado os deve controlar , regular e restringir.

Ao que parece agora explica-se o aborto nas escolas a miúdos do oitavo ano , é daquelas notícias que me dão uma grande satisfação por não ter filhos cuja educação me ia dar muitas noites sem dormir. O meu problema não é tanto que nalguma disciplina sobre educação sexual na escola se ponha os alunos a falar sobre o aborto , que existe e não vai acabar . O meu problema  é com quem é que vai falar aos alunos sobre o aborto , porque tal como não quero ter um catequista a explicar que é pecado também não  quero uma pessoa que acha que o aborto deve ser só mais um meio de contracepção . Não há maneira de garantir que o professor  encarregado do tema tem formação científica suficiente e além de falar sobre os números do aborto  e seus “custos laterais” consegue apresentar e equilibrar as visões possíveis e divergentes sobre a questão.

Há multidões de católicos por todo o lado dispostos a ignorar no Trump o que eles chamam de pecados ,  ( ira ,  soberba ,  inveja ,  vaidade , adultério, mentira  )  e o facto de lhe faltarem pelo menos 5 das  7 virtudes  que eles chamam cardeais ( paciência , humildade , caridade , bondade e castidade)  só porque ele vai vai avançar a sua agenda contra o aborto e “combater o islão”  e isso para mim é verdadeiramente extraordinário .

Ninguém sequer pretende que o aborto vai alguma vez desaparecer , há gravidezes  indesejadas desde que há gravidezes e assim vai continuar , e muito gostava eu de encontrar alguém que dissesse que é possível acabar com o aborto. Não é possível, o que é possível é reduzi-lo , e as consequências físicas e psíquicas para as mulheres que os fazem , a números insignificantes , e isso faz-se com  acesso generalizado a contraceptivos , com intervenções feitas  por profissionais de saúde em hospitais e clínicas a sério dentro da legalidade.

Podem contar-me dezenas de histórias de crianças indesejadas , maltratadas e abandonadas que se tornam grandes e felizes homens e mulheres mas isso a mim não me prova ponto nenhum , ao lado desses há um número pelo menos igual de crianças indesejadas que levaram vidas miseráveis e causaram miséria ao longo da vida. Há uns anos houve uns autores americanos que casaram controvérsia por apontar uma correlação curiosa entre a legalização do aborto nos Estados Unidos e a profunda quebra no crime  16 a 20 anos depois disso. Correlação não implica causalidade mas é verdade que os criminosos provêm desproporcionalmente de famílias disfuncionais e grande parte nunca foram queridos. É frio ( e possivelmente injustificado) afirmar que foi bom não terem nascidos tantos que estavam fadados para uma vida de crime, mas acho que não deixa de ser um ponto interessante.

Enquanto houver orfanatos cheios de crianças já nascidas , carregadas com todo o potencial da Humanidade  sem que ninguém as acolha numa família e permita crescer em segurança , não sou sensível à urgência e obrigatoriedade de viabilizar fetos que ninguém espera com amor.

Espero que não haja nunca mais referendos sobre o tema em Portugal , a nossa lei parece-me justa , tanto quanto sei um profissional de saúde pode perfeitamente recusar fazê-lo , como deve ser seu direito .Todas as pessoas que são por convicção contra o aborto continuam a poder ter todos os filhos que queiram e não queiram e aos que lamentam dinheiro do estado para a prática , eu também lamento o dinheiro do estado que vai para as práticas religiosas na forma de isenção de impostos , fica cada um com as suas lamentações e a coisa vai andando.

Há mais  pessoas a fazer barulhos sobre referendar outra questão de vida ou morte , a eutanásia. Vai ser mais um debate fracturante , um , dois , esquerda direita , Prós e Contras.  Eu sou a favor da eutanásia mas não me agradaria muito  que a decisão sobre a vida de outras pessoas dependesse da minha opinião expressa num referendo. Acho o prolongamento desnecessário do sofrimento em doentes terminais uma coisa  imoral , se o doente estiver consciente e desejar acabar com tudo. Para mim é só esse o espinho da questão : como garantir que a pessoa está no pleno uso das suas faculdades e é sua livre e ponderada vontade morrer.  Que um doente no fim da vida , com as funções biológicas a chegar ao seu limite natural , seja obrigado a existir à custa de drogas por mais uns meses é das coisas mais tristes que existem.

Tal como se deve acarinhar e proteger a criança nascida deve-se respeitar e dar dignidade a quem chegou ao fim do caminho ou a quem pura e simplesmente está farto de sofrer e não quer continuar a sofrer . Desde que a decisão esteja sempre na mão do próprio , o que envolve estado consciente , não vejo razão nenhuma para que não se deixe uma pessoa acabar com a vida . Há uma diferença enorme e crucial entre suicídio e eutanásia , é que pessoas suicidam-se constantemente por muitos  factores diferentes (tantos que seu estudo deu origem à Sociologia moderna ) mas só são eutanasiadas por dois : o seu futuro físico é ou impossível  (no caso de uma pessoa doente com 90 anos e Parkinson’s , por exemplo)  ou medonho e 100% dependente , no caso de um tetraplégico  cego , por exemplo.

Há pessoas doentes com 95 anos que fazem questão de estar vivas ,  tiro-lhes o chapéu e estimo-lhes muitos mais anos e força : enquanto cá quiserem estar devem ser encorajados e ajudados a ficar. Há pessoas sem braços nem pernas que não só vivem como sorriem e criam e ajudam e conseguem ter vidas preenchidas , heroicamente preenchidas. Isto não quer dizer que os que não conseguem nem querem devem ter que permanecer.

Ouvi dizer que o Adolfo Mesquita Nunes , um tipo que eu aprecio muito , teve  uma intervenção “demolidora” numa televisão num debate em que desmontou a eutanásia enquanto questão de liberdade individual , ando à procura e ainda não encontrei.Não sei se vai haver referendo ,em princípio não gosto da forma  mas pelo menos têm a vantagem de provocar debate , e eu vou ver se alguém me convence de que é mau e imoral e anti ético , estou sempre aberto à possibilidade e de qualquer maneira , se chegar a uma  altura em que seja uma questão pessoal , vou-me estar  tintas para o que diz a lei.

PS: Por falar em questões de vida e de morte , hoje há clássico no Estádio do Dragão. Eu sei que disse aí atrás que desistia , e deixei de  ver jogos , o que já não foi mau , até porque perdemos uns quantos , mas não fui capaz de deixar de “acompanhar”.  Ia religiosamente a um café de um grande sportinguista aqui das Lajes , o café parecia um Núcleo e ao longo de quase seis anos vi lá sempre os jogos , tantas e tantas vezes só eu e ele. Sermos só os dois explica em parte porque é que ele acabou por fechar o café no princípio do  ano .

14523297_10154563329185477_4929738132281986204_nSe fosse outro jogo não saía para ir ver , acredito sinceramente na diferença que faz sermos mais um a apoiar nas bancadas mas  o apoio frente à televisão não tem influência no resultado e não se sofre nada . Sendo o Porto , tenho que ir ver , e ia mesmo se o Sporting estivesse a 20 pontos do primeiro, porque é um clássico.

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