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A Quadra

Fui passar uma semana ao continente  com a família e amigos , faço-o enquanto puder e não por querer sair da ilha mas para não deixar a distância fazer esmorecer os laços. As festas em si dizem-me pouco . O solstício de Inverno escolhido pelos cristãos para celebrar o nascimento de Jesus merecia ser celebrado só por si , e o que hoje em dia é o Natal parece-me um bocado absurdo.

Passar um Natal sem falar de religião é difícil mas consegue-se , eu evito seja que discussão for para manter a paz e a relação que tenho com os meus irmãos, se  quisesse irritar o meu irmão dizia-lhe  que o laço entre  nós  deve ser mais forte que qualquer construção mitológica e política  e que irmãos não devem guerrear por causa de abstracções e conceitos improváveis , mas nada disso , simplesmente evitamos o tema e se por acaso algum dos miúdos  , com a curiosidade e perspicácia da idade , pergunta “porque é que o tio  não faz isto ou aquilo?” eu digo que pessoas diferentes fazem coisas diferentes e nem toda a gente faz a mesma coisa . Acho que não basta como explicação , especialmente para crianças entre os 3 e os 8 , mas não me compete a mim explicar-lhes  porque é que por exemplo não rezo nem vou a missas . Gostava , mas não posso.

Apesar de não ter o chamado espírito natalício   acho que as crianças devem receber presentes no Natal .Para não oferecer aos meus sobrinhos um brinquedo que dá uma hora ou duas de brincadeira e depois era encostado preferi levar  os 5 mais pequenos ao zoo. Pode ser o cinema , uma tarde num parque , para o ano será um jogo de futebol , este ano escolhi o zoo por estar convencido de que é bom para todos os miúdos ver e conhecer os animais. Eles divertiram-se muito e adoraram a bicharada , eu só não saí de lá deprimido por causa da felicidade deles e do pouquíssimo tempo que temos juntos.

Se por um lado valorizo o trabalho dos zoológicos por outro parte-me o coração ver por exemplo 5 chitas em 200m2 e  pássaros que só voam até à rede. Sei que as condições melhoraram muito , que os bichos não passam fome e estão bem tratados e que se não fosse pelos zoos muitos já tinham desaparecido da face da terra mas acho que vale mais uma hora a ver um documentário da BBC ou NG sobre a vida selvagem do que ver um rinoceronte ancião a dar quatro passos de cada vez entre umas poça de lama ridícula e muros de betão ou um hipopótamo a apanhar água de uma mangueira. É deprimente , nunca mais vou a nenhum , prefiro nunca mais ver um leão ao vivo do que ver um leão naquelas condições.

A tradição de jogar ao Risco com os amigos pelo  Natal  manteve-se mas muito a custo e está cada vez mais ameaçada . Se há cinco e dez anos éramos sempre seis ou sete este ano  fomos  três, parece que somos os últimos solteiros , os últimos que podem fazer o que lhes apetece. É tudo muito espectacular , todas as criancinhas são geniais e , por alguma razão por explicar , são todas acima da média e valem tudo mas não deixei de notar duas ou três vezes um olhar desconsolado quando perguntava:

-Então o Risco, não vens?

-Eh pá quem me dera…. Não dá…

Fui ver um amigo brasileiro que se instalou por uma temporada na Praia do Norte, é surfista e está lá mas vai surfar a Peniche , na Nazaré é só para ver… Gosto de ver a revolução e animação que o surf está a trazer a Portugal , espero que continue e aumente e tenho pena que na ilha  não haja ondas regulares . Não faço nem nunca farei  surf mas adoro ver e os surfistas , como visitantes e turistas , são do melhor que se pode ter . Nunca deixo de ir à Nazaré sem sorrir ao lembrar-me de que passei metade da juventude a caminhar para lá constantemente e não me lembro de ver mais do que um ou outro bodyboarder na Praia do Norte , agora é a explosão de praticantes e espectadores , com direito a monumento e tudo.

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Ainda não falei com ninguém que goste do surfista veado mas certamente haverá alguém , uma coisa que aprendi ao longo dos anos é que  obra de arte é um conceito elástico e o que é uma merda sem jeito nenhum para uns  é uma peça magnífica para outros. Percebo bem a motivação de fazer um monumento ao surfista intrépido mas a cabeça de veado, ao que consta numa evocação do animal que , reza a lenda, o D.Fuas Roupinho perseguia por ali, parece-me estúpida, mas pronto. Se calhar evoca a super-humanidade dos gajos  que se metem naquelas ondas, não sei.

Sempre no eixo Alcobaça- Lisboa onde divido o tempo no continente, jantei nas Caldas com os amigos da faculdade, é  dos meus dias favoritos do ano. Dois dos meus melhores amigos são de esquerda  a sério , e diga-se o que se quiser dos debates na imprensa e net, não há nada como a conversa e troca directa de pontos de vista . Falou-se de muita coisa , discutiram-se as razões pelas quais o país “está melhor”. Destaco dois pontos de contenção que , naturalmente , não ficaram nem nunca ficarão resolvidos : a teoria esquerdista que condena o assistencialismo  e a atribuição de responsabilidades em geral.

Para os meus amigos à esquerda o Banco Alimentar é anátema , o topo da odiada caridadaezinha . Acham que só serve para apaziguar consciências , dar lucro aos hipermercados e emprego  a tias como a sra. Jonet , que entre outros defeitos intoleráveis diz coisas óbvias como “os pobres não podem comer   bifes” coisa que chocou meio mundo . Acham  que  dar comida aos pobres só serve para perpetuar a pobreza e que o que faz falta não é auxiliar , é capacitar. Eu discordo, acho que a caridade é um dever não só para pessoas religiosas , que não me interessa assim muito onde se compra a comida desde que chegue a quem tem fome ,   que “capacitar” é mais um conceito vago que ninguém consegue concretizar  e que sonhar com um  mundo sem pobres é como sonhar com um mundo sem guerra . Enquanto se protesta porque não acaba deixa-se de aliviar , porque é preciso erradicar e não aliviar. É como não querer tratar  sintomas de doença porque não pode curar a causa. Irrita-me que haja quem ache que o  RSI é bom mas o banco alimentar é mau : Assistencialismo do Estado , bom , assistencialismo privado, mau.

A outra questão é a da responsabilidade , a melhoria da situação do país deve-se ao PS e seus suportes. Que esta melhoria aparente seja alicerçada em aumento da despesa pública e  e das benesses aos clientes  não parece incomodar os meus amigos. Coisas que há 4 anos aconteciam, como as mortes nas urgências , continuam a acontecer como é  normal mas há 4 anos enchiam as capas dos jornais  numa cacofonia de morte e calamidade e desgraça , hoje são notas de rodapé.  A palhaçada que vimos na discussão dos resultados de PISA é outro exemplo, foi tal o afã em minimizar as reformas do Nuno Crato que se mentiu e inventou descaradamente , tudo para evitar dizer “afinal nem tudo foi horrível e melhoraram muitas coisas”.  Os impostos e os preços aumentam mas como a austeridade saiu do léxico isso já não é grave. Os portugueses gastaram uns 5  biliões de euros no Natal , coisa que me parece estranha tendo em conta que , segundo a esquerda, o país estava na miséria , tinham destruído tudo ainda aqui há ano e meio. Se a situação estivesse tão má como a pintaram era impossível estar tão boa como a pintam agora  , e as melhorias na economia devem-se a coisas que nada têm a ver com este governo , como a explosão do turismo. Entretanto a dívida continua a aumentar, os custos das empresas de transportes públicos subiram 30% no ano passado mas não há falta de quem pense que isso não é relevante.   Como toda a gente devia saber , a factura desta “melhoria” vai chegar mais cedo ou mais tarde. Para os problemas , existentes ou por descobrir , pode-se sempre culpar o BCE e a conjuntura externa , factores que não interessavam no anterior governo , que era só neo liberais a querer vender e destruir o país. Agora a conjuntura externa já deve ser  tida muito em conta. Exemplos da dualidade de critérios na análise aos governos são às carradas, basta ter alguma memória e ir lendo os jornais. A vergonha , como sempre, anda ausente em parte incerta , ausente inclusivamente do Passos Coelho , que já devia ter percebido há meses que acabou, os portugueses muito dificilmente lhe  voltarão a confiar o poder e só está nesta altura a atrapalhar, mas lá está , os políticos têm a sua própria visão, nem sempre directamente  ligada à realidade.

Também não gosto que me respondam a críticas que faço ao Presidente da República lembrando o anterior. Eu não quero saber do anterior para nada , os seus defeitos  não atenuam em nada os deste e isso não é forma  de discutir política : este é um bocado parvo mas olha que o anterior era uma múmia.  Ah , sendo assim , há que lhe tolerar as palhaçadas e a hiperactividade, ok.

Bom , abaixo a Política , eu quero é que o Costa aguente a geringonça  e que quando rebentar outra vez  que  não seja assim tão humilhante e profundo como conseguiu o Sócrates. Tal como nas eleições antes das últimas , a minha expectativa  e desejo principal é que a legislatura se cumpra inteira , e estou bastante mais optimista quanto à paz social porque enquanto a esquerda for governo a Imprensa está pacificada , e por extensão a opinião pública , e há  menos contestação e protestos, não porque não haja razões mas porque as percepções mudaram.

Passeei muito pela Baixa e pela zona do rio, Lisboa está linda , ferve de turistas e movimento e por todo o lado se vêm pessoas a adaptar ideias importadas, que é uma  maneira muito  portuguesa de inovar. Se não se importa a ideia importa-se o nome , dos  hábitos mais parolos que temos. Agora por exemplo S.Martinho do Porto já não fica na Costa De Prata , é na Silver Coast . Acho graça aos que ralham contra o turismo , mas graça como se acha a um bebé que borra a cara toda com tinta , é uma estupidez que tem piada  . Da minha parte , venham , e não é hipocrisia por viver numa ilha isolada , mesmo na minha ilha começa a ver-se o aumento do turismo ( o governo PS , que durante décadas impediu a liberalização do espaço aéreo recolhe agora alegremente os louros do desenvolvimento trazido pela mesma , é lindo de se ver) e espero que continue , paz e sossego são das coisas que prezo mais na vida mas não quero viver numa ilha miserável , envelhecida  e vazia. As pessoas devem lembrar-se de que mesmo que não tenham rendimentos directos do turismo esta expansão beneficia o país todo como poucas actividades económicas conseguem fazer. Podemos melhorar e beneficiar ainda muito mais , sobretudo não estragando o tanto que temos de bom , e sobre isso  deixo aqui uma observação e um reparo  : das coisas que mais impressionam e agradam a uma parte grande dos que nos visitam é a facilidade  com que se pode comprar e consumir álcool em Portugal, e o seu preço.  Não sei se toda a gente percebe isso,  obviamente nem toda agente liga  a isso e certamente muita gente desaprova minis a um euro que se podem beber numa esquina ou garrafas de vinho  de   €5 num banco de jardim mas sei que  a vantagem pode bem ser estragada num instante com coisas que governos deste género adoram fazer : mais taxas e regulamentos. Espero que não mexam nisso como já conseguiram fazer com o negócio do alojamento turístico.

Não fui ver o Sporting anteontem para ir jantar com uma moça que conheci do outro lado do mundo e que veio passar cá o ano , foi um erro  porque jogos do Sporting ao vivo só posso ver um ou dois por ano mas mulheres para me criarem esperanças que depois destroem em três tempos aparecem sempre   , eu já devia saber mas alguma coisa me diz para não desistir de vez , o que é que eu hei-de fazer…  Das coisas mais odiosas que conheço é o que os franceses chamam “coquetterie” , uma atitude   que consiste em prometer o que não se tem intenção de dar. Encara-se isto com boa disposição, até se louva, como os chamados flirts, eu acho que  não passa de enganar os outros para própria satisfação, é bastante mau .

No dia 1 às 7 da manhã estava no aeroporto para apanhar o voo para os Açores, não houve festa nenhuma , como já  há muitos anos . Apontamento pirrónico de viagem , daquelas coisas que me fazem esperar só voltar a voar daqui a muitos meses : a quantidade de pessoas que vai avançando na fila para a inspecção de segurança , lentamente , e que apesar de à sua frente se estar a desenrolar o processo todo ; apesar de haver cartazes a avisar o que tem que se fazer e de estar lá um agente a dar as mesmas indicações constantemente, apesar de verem todas as pessoas a fazer as mesmas coisas devagarinho à sua frente, chegam à sua vez  tal e qual ocuparam o seu lugar no início da fila : Mochilas às costas , cintos, computadores , líquidos , talão de embarque, casacos, coisas nos bolsos. É inacreditável, essas pessoas fazem-nos perder minutos de vida ali por não serem capazes de perceber o que está a acontecer e o que vão ter que fazer a seguir e ligar as coisas, nunca deixa de me surpreender esta estupidez.

Ainda não me estreei a voar para os Açores com as low cost porque até ver a diferença de preço ainda não chega para me compensar vantagens que tenho na  Sata , espero que a companhia aproveite e potencie o boom do turismo mas a conta continua a crescer . Aqui há uns anos , ainda no tempo do último Grande Primeiro Ministro Socialista que tivemos , quando a vida era mais doce e o céu era o limite , a Sata lembrou-se de criar uma rota para Salvador da Baía. Como é que isto se enquadra  numa companhia cuja missão é ligar os Açores ao Continente e às Comunidades Açorianas não ficou bem claro , mas fez-se apesar dos velhos do Restelo. Correu como previsível mas  não foi muito grave , creio que os prejuízos não passaram das centenas de milhar. Como  a austeridade  trazida  pelos neoliberais acabou  é  Tempo Novo , outra vez tempo de fazer investimentos duvidosos  com recursos públicos e para contentar amigos e interesses particulares , por isso a Sata em 2017 vai voar para Cabo Verde. Só conheço a aviação comercial do ponto de vista do passageiro e do curioso mas parece-me uma aposta escusada que vai sai cara , mesmo se o objectivo for  dar mais uso ao A320, que no meu voo de ontem ia assim, 165 lugares, 25 passageiros.

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Na Horta ainda esperei uma hora  e pensei que ia começar o ano como em 2014 , cancelado no Faial, mas não , o tempo abriu e lá se aterrou sem abanões de maior e num dia relativamente claro.  Cão, gato e restante bicharada estavam de saúde e tranquilos e encontrei tudo mais ou menos em ordem.

Não tenho grandes razões de queixa de 2016. A morte de celebridades não me afecta , mesmo as de artistas dos quais eu gostava. O ano político foi negativo em agregado ,  muito más notícias para um liberal , mas houve algumas boas e há áreas de progresso .Não me lembro e acho que não houve um ano sem guerra desde que existo , o que há agora é mais informação por isso sem ir comparar números e estatísticas de especialistas  não sei se 2016 foi mais ou menos mortífero que os outros.  Tenho a certeza que 2017 não vai ser um ano aborrecido , da minha parte vou dar o meu melhor e esperar que este ano o meu melhor seja melhor que o do ano passado.

 

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