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Lesados somos todos

Um dos maiores dramas do nosso país é o inumerismo , ou analfabetismo matemático ,  muito mais difícil de combater por ser mais insidioso , muito por causa das luminárias da Educação moderna que acham que é mais importante um aluno rir às gargalhadas sadias do que decorar a tabuada e currículos que não preparam os alunos para as contas do dia a dia.  Além do mais é bom lembrar que  uma grande parte dos portugueses viveu no tempo da ditadura , cuja restrição da Educação nos deixou esta herança, talvez a mais pesada.

Se muitas pessoas já leem  e escrevem mal , muitas mais ainda não sabem fazer contas nem avaliar quantidades , e isto nota-se depois nas decisões que tomam , relativas por exemplo ao consumo : uma pessoa vê um anúncio de um crédito para um produto com 25% de juro mas não sabe o que isso significa. Uma pessoa tem na cabeça o número do seu vencimento mensal mas é incapaz de computar as suas despesas para saber quanto gasta. Uma pessoa escolhe uma casa nova sem ter maneira de perceber se está ou não dentro das suas possibilidades reais. Uma  pessoa vê um produto em promoção e vai logo comprá-lo porque lhe parece que uma poupança de 2% em algo supérfluo é de aproveitar. Uma pessoa ouve o Governo a falar de percentagens de défice , aumentos ou cortes mas o que fica são os verbos , porque visualizar e perceber realmente os números infelizmente é para poucos.

Na primeira linha dos aproveitadores desta lacuna (não é só em Portugal , fraco consolo)  estão os bancos , que seguros de que a maior parte dos seus clientes não sabe fazer contas permitem-se apresentar-lhes quaisquer números  e cargas de letra miudinha. 

Aqui há uns anos umas centenas de cidadãos decidiram investir as suas poupanças  no BES. Sendo na maior parte semi analfabetos matemáticos não perceberam aquilo que estavam a comprar e não questionaram os vendedores que , como era de rigor nesses tempos , venderam banha da cobra às toneladas. O BES rebentou e estes investidores ficaram a arder. Não me incomoda nada  , a ignorância só é desculpa até certo ponto e o que é certo é que  estas pessoas perderam dinheiro mas podiam igualmente ter ganho dinheiro , e nem numa nem noutra circunstância o erário público  deve ser tido ou achado , era um negócio entre os investidores privados e um banco privado. Se os investidores não tinham os recursos intelectuais para perceber que corriam um risco, temos pena.

Mas isto é Portugal , e agora que vivemos numa época de afectos o primeiro ministro decidiu usar o dinheiro de todos para compensar alguns por terem feito um investimento que correu mal. Não bastava o desbaratar constante de fundos , não bastavam as dívidas contraídas pelo Estado que por definição nos calham , o PM acha que o Estado também está cá para compensar investimentos particulares falhados. Os “lesados do BES agradecem a bênção” e o Costa mostra toda a sua dimensão de estadista , vai compensar estas pessoas e acabar por ser aplaudido , mesmo por aqueles que vêm os seus impostos servir para pagar más decisões de outros. Isto lembra um bocado as ajudas estatais à agricultura , em anos de secas ou cheias ou contrariedades , o Estado ajuda . Em anos de colheitas excepcionais ou mercados altos ( também existem , raramente se ouve falar deles mas são reais), os lucros ficam em casa. Costa tem muito medo de manifestações , sendo a maior parte organizada por sindicatos , estão nesta altura todas sob controlo ( a factura vai chegar mais tarde) mas manifestações como a destes tristes dos “lesados do BES” não têm nenhum Arménio Carlos que as regule e faça acontecer ou cancelar consoante manda o Comité Central , pelo que são mais imprevisíveis e potencialmente danosas. O PM  não gosta de conflitos nem tensões e enquanto os puder resolver pagando com dinheiro que não há a pessoas que não têm justa causa , é o que vai continuar a acontecer.

Noutro sector , há uma companhia de teatro em Lisboa que está para fechar. Fecha porque não há dinheiro. Se não há dinheiro é porque o que fazem não rende , não tem público suficiente . A mim , e a uns 80% dos portugueses , arrisco , isto é absolutamente indiferente. Ainda no outro dia acho que perdi uma “amiga” muito ligada ao teatro porque lhe disse precisamente isso , que é uma arte que se desaparecesse do mundo amanhã a minha vida não mudava um milímetro. Quando sentimos uma ligação forte a uma coisa é difícil imaginar que outros só sintam indiferença pela mesma coisa , mas é assim .

A libelinha afectuosa que é o actual Presidente acha que não , que tudo tem que ser sentido por todos e já foi fazer não sei o quê, talvez tirar uma selfie , com a companhia de teatro em perigo, e certamente vai agitar para que salvem a Cornucópia . Para ele , como para o Costa , estes salvamentos são óptimos porque não lhes saem do bolso , ou melhor , saem na medida em que também são contribuintes , mas permitem-lhes encher a boca e ganhar pontos a  distribuir  o dinheiro de muitos por causas de poucos. Se o Presidente sente assim tanto como causa nacional o fim de uma companhia de teatro em Lisboa tem bom remédio : faça uma campanha a incentivar as pessoas a ir ao teatro e passe um cheque pessoal à Cornucópia. Senão esteja mas é quietinho dois minutos e tente ler  mais sobre o que é ser  um Estadista.

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One thought on “Lesados somos todos

  1. Concordo cim tudo. Mas isso não diz quase nada sobre este primeiro ministro, que, na prática está a fazer mais ou menos o mesmo que o anterior…

    O mesmo que o Bush e Obama fizeram. O mesmo que fazem na França e na Alemanha…. O mesmo que na grecia do siryza e parceiros e de antes desses…. Os politicos a salvar os bancos privados através de colecta de impostos e impressão monetária.

    Isto não é português, nem socialista nem costes. E sistémico e mundial.

    Eu acho que aquele teatro fechar não interessa nem a 1% dos tugas… Inclusive alguns dos que se fazem até chocados. Senão iam lá. Porque os preços dos bilhetes são subsidiados de várias formas e bem assim o pessoal lá vai…

    Gostar

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