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Standing Rock

É o nome de uma reserva de índios americanos que compreende terras que hoje são nos estados do Dakota , Sul e Norte. Em 2014 propôs-se construir um oleoduto que ligava os campos petrolíferos de Bakken , no Dakota do Norte , com um terminal no Illinois. O projecto era de empresas privadas , o Estado cedeu milhares de hectares e direitos de passagem , num processo cujo fedor se devia sentir desde os gabinetes até à rua. O Obama aprovou , e continua a aprovar pelos vistos , o que lá se passa. E o que lá se passa é que as pessoas dos Dakotas não querem  aquilo na sua terra , não querem  deixar passar algo que não lhes melhora a vida em nada, muito pelo contrário   .Lembremos que os habitantes em questão são  índios , que passaram séculos a serem espoliados , dizimados , humilhados e remetidos a reservas como Standing Rock . Lembremos também que querem fazer passar o oleoduto por terras que para eles são sagradas ,   desde que tiveram contactos com outras religiões que nunca mais puderam praticar a deles em paz, ao menos que os deixem respeitar os mortos como entendem . As terras pelas quais passará, se passar , o oleoduto confrontam com a reserva , e são propriedade do Corpo de Engenheiros do Exército Americano. Pensemos um pouco no processo que levou à presente relação de propriedade entre estes “vizinhos”.

Este oleoduto , construído com enormes recursos públicos além dos privados , vai potenciar a exploração a fundo dos campos pertrolíferos  que ficam no Dakota do Norte , e por essas bandas o que se usa como processo é o fracking , que é para mim uma coisa assustadora e uma ameaça clara aos aquíferos , que são enormes nessa zona , e importantíssimos. Se um oleoduto é ambientalmente mau , o fracking é uma catástrofe ,do que li e vi até hoje o que sei é que ninguém tem a certeza do que podem ser consequências imprevistas e danos colaterais, e os que estão presentes , à vista e documentados já são assustadores. A água é a primeira ameaçada , e sendo a água o que é , a ameaça é crucial.

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Há meses que há protestos e ocupações e bloqueios, iniciados pelos índios (sioux pronunicia-se su ,como em Suzie & The Banshees) mas depressa se lhes juntaram centenas de outros activistas. Chamam-se a eles próprios Protectores da Água , assentaram arraial , que não dispensa o folclore habitual . E há meses que há  violência e uma resposta desproporcionada por parte do Estado . O governador chamou a Guarda Nacional mais tudo o que tem ao dispor , todas as agências de segurança estão lá , armados até aos dentes ou não fosse a América , e tem havido sangue.

Do lado dos promotores do oleoduto dizem que houve mais de 500 alterações e consultas e reuniões com as comunidades. Visto daqui , olhando para milhares de pessoas acampadas no inverno feroz do Dakota , a levarem com canhões de água e a dizer que não, parece-me que as tais negociações e consultas não correram muito bem . Se calhar foi porque , por alguma razão qualquer que só podemos tentar adivinhar , os índios têm uma certa renitência em considerar o Governo dos Estados Unidos como entidade que negoceia de  boa fé. Alguma coisa se terá passado que os leva a desconfiar e a oporem-se ao governo, por mais consultas e reuniões que haja.

Também do lado dos promotores está a Lei , a querida Lei , comprada e vendida ao parágrafo , lá como cá . A Lei agora diz que eles não têm mais apelos e as obras vão seguir. O governador deu ordem de evacuação da zona , “por causa das condições meteorológicas”, até Segunda Feira , dia 5 . Os Sioux dizem que não vão a lado nenhum , tal como os milhares de outros manifestantes que lá estão e cujos números aumentam dia para dia. Chega gente de toda a América, e percebi que isto ia ser muito sério quando vi que havia outra espécie de apoio a caminho. Há dois mil , provavelmente mais , veteranos das forças armadas americanas que anunciaram que vão para lá , que não ficam quietos a ver forças de segurança a brutalizarem manifestantes pacíficos e desarmados , vão ser escudo humano dos manifestantes.  A parada subiu de repente , porque agora de um lado estão os militares e para militares do Estado , do outro já não são só hippies e ecologistas .E há uma América que nós não conhecemos nem vemos muitas vezes , que está de olhos postos nisto , por todo o país há manifestações e acções de apoio.

Este impasse entre as obras do oleoduto e a preservação da água no Dakota , de um lado o Governo e o Estado aliados a interesses da indústria e do outro, o povo , no coração da América , parece-me um momento histórico. Não hesito em usar o termo povo porque se trata em primeiro lugar do povo Sioux , muito mais fácil de descrever  , medir ,  ouvir e perceber do que  por exemplo o povo americano . Milhares de outras  pessoas , mesmo descontando os agitadores  profissionais , foram para lá porque sentiram aquilo como uma causa importante e sua . A força moral da causa dos índios é tremenda , tal como a atracção  que exerce sobre o imaginário comum . Muitos manifestantes estão a caminho , ou já estão lá , porque simplesmente acham que os índios já passaram que chegue e que um oleoduto não vale deixá-los em paz na sua terra e proteger a água  . Que por uma questão de princípio o Estado não deve usar a violência  contra o povo. Já usou bastante , canhões de água ( neva forte lá agora) , gás lacrimogénio , balas de borracha , e de certeza que há naqueles postos de comando muita gente desertinha por ouvir a ordem de avançar.

O Obama autorizou tudo e até ver não abriu a boca sobre os protestos e a violência. Já que estava de saída , seria uma boa altura para usar o poder e tempo que lhe resta para mandar uma mensagem clara , ou duas : é preciso proteger a água e respeitem os índios   e parar as obras . Se o oleoduto não estiver pronto dentro do prazo as perdas para os investidores serão dos muitos milhões diários . Se o projecto morrer de vez os prejuízos são  na casa dos biliões. Quanto ao  novo presidente , tem-se uma ideia boa de que lado é que ele prefere nesta história.

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Segunda feira de manhã vai haver um acampamento com mais de 4 mil pessoas, de todas as cores ,  em Standing Rock ( até o nome dá uma carga romântica à coisa) , quase metade das quais veteranos das Forças Armadas . O poder armado do Estado do Dakota e diversas agências federais vão-lhes ordenar que saiam dali. Eles vão dizer que não vão a lado nenhum.

O que vai acontecer a seguir vai ser uma pista enorme para sabermos o que podemos esperar nos tempos próximos.

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