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Fidel

Sempre me causou  estranheza  a capacidade que muitas pessoas têm de avaliar as ditaduras consoante são de esquerda ou direita, e isto não são só os comunistas e neo comunistas que o fazem , não é preciso ir muito longe para encontrar quem diga que o Chavez era um ditador e no fôlego seguinte dizer que  fazia falta  outro Salazar.  Podem encontrar-se diferenças de grau , tipo número de mortos , mas uma ditadura é sempre má e tem sempre que ser condenada e combatida . Se é verdade para as ditaduras tem que ser verdade para os ditadores.

Os nossos aficionados do Fidel , incluindo o afectuoso presidente da República , preferem encontrar o lado humano  do personagem  e ignorar as violências . Temos o PCP , que devemos louvar por ter proporcionado , com 30 e tal anos de Festa do Avante , uma das raras oportunidades que um cubano tinha de sair do país.   O Podemos aqui ao lado falou nas “luzes e sombras” do Fidel , é pena que quando mandam o capitalismo para os infernos só lhe vislumbrem as sombras , nunca há nenhuma luz.  Hoje li no Facebook que “O internacionalismo do Fidel salvou a África” , uma coisa errada a tantos níveis que nem me deu vontade de comentar  mas deu-me muita vontade de rir porque há muitos anos que não via esta subtil distinção entre “ingerência imperialista” e “internacionalismo socialista” , fenómenos que na prática eram a mesma coisa. Se um regime marxista pedia ajuda a semelhantes para combater inimigos internos , é o segundo caso . Se um regime de sinal oposto faz a mesmíssima coisa , já estamos perante o primeiro caso.

Podem-me enumerar  as conquistas sociais do comunismo cubano e as iniquidades do bloqueio americano  que não me impressionam muito quando postas na balança contra  a opressão e o autoritarismo.  Há  coisas que para mim definem e condenam o Fidel sem apelo nem agravo e são básicas . Básico é aquilo que está na base , e sobre uma base má não se pode pode construir algo de bom. Escolho duas:

– Fidel transformou Cuba numa prisão da qual ninguém saía legalmente , a não ser para fazer propaganda ao regime. Nunca é demais lembrá-lo , houve muitos cubanos que nasceram, viveram e morreram sem que alguma vez o Estado lhes  tivesse dado a possibilidade de ver outras realidades , outras terras outras gentes. Defendam isto .

– Fidel metia na prisão quem o contestava. Apesar da fina distinção oferecida pelo ilustre Saramago numa das suas visitas  ( não são presos políticos, são contra revolucionários) , o que é certo é que em Cuba , durante a vida do Fidel , não se podia ser contra o governo. Defendam-me também essa e expliquem-me como se eu fosse muito burro como é que esses dois factos não são mais do que suficientes para mandar o Fidel para o panteão dos Inimigos da Liberdade.

Republico aqui um post de  2013  sobre Cuba , foi escrito mais por me terem incomodado  as homenagens e devoções ao Che Guevara que se viam e vêm, mas acho que tem pertinência agora que o homem finalmente morreu e se discute o seu lugar , grande , na História. E já agora é bom lembrar que só porque o Fidel morreu a sua obra não : Cuba é governada pelo seu irmão , como manda a defesa da Democracia , ainda sem oposição nem escrutínio nem eleições nem liberdade de expressão  .

Em 1998 andava a viver uma aventura que ainda hoje me parece irreal , a vagabundear à vela pelo Atlântico e as Caraíbas , num velho barco de 9 metros em aço . Estávamos ancorados clandestinamente em Los Testigos , um grupo de ilhotas na costa da Venezuela e a decidir o que fazer a seguir , depois de ao fim de 6 meses termos tomado consciência de que afinal não podíamos dar a volta completa ao globo e teríamos que entretanto voltar a Portugal , se é que queríamos continuar a comer todos os dias , manter o o nosso barquinho em condições e cumprir as nossas obrigações financeiras. 

O meu companheiro de aventuras sugeriu voltar via Cuba , o francês que andava connosco queria ir à Jamaica mas não tinha voto na matéria , eu concordei logo , já nessa altura me parecia que o Fidel podia morrer brevemente e queria muito ter a oportunidade de ver um país Comunista por dentro , com o sistema em pé. Passada uma semaninha entrámos no grande porto de Santiago, escoltados por uma vedeta militar que parecia mover-se a vapor , e começou aí uma experiência de Cuba que durou um mês inteiro. (…)  Durante os primeiros quinze dias andei fascinado com as coisas que fascinam toda a gente que vai a Cuba , tipo os médicos andarem de autocarro , um posto médico em cada aldeola , a ausência de lixo , a música e simpatia dos cubanos e o custo de vida ridículo para quem se conseguia fazer passar por cubano . E claro , as cubanas , que revelaram ser as únicas raparigas no mundo que reconheciam o meu devido valor , mas estranhamente só quando eu deixava de me fazer passar por cubano. Na última semana aquilo já me parecia terrível , opressivo e exasperante e quando zarpámos direitos aos Açores foi com grande alívio e satisfação. 
Regressei a Cuba por duas vezes anos mais tarde , já como profissional , numa fui de avião para tirar de lá um barco , logo no aeroporto confiscaram-me um GPS e um VHF portáteis e começou aí um périplo por ministérios e organismos oficiais , porque dois aparelhos banais no Ocidente em Cuba são de uso exclusivo oficial , proibidos a particulares e os estrangeiros requerem autorizações de vários ministérios como o da Geodesia e o das Comunicações para os possuir. Foi um processo Kafkiano em versão tropical e permitiu-me conhecer Havana como poucos ou nenhuns turistas conhecem . Para tirar de lá o barco tive igualmente que tratar de formalizar a sua venda e transferência de propriedade ( eu ia contratado pelo novo dono) num país que não reconhece propriedade privada , e por essa via familiarizei-me com outra vertente da burocracia cubana , coisa de que nenhum De Sousa Santos  sequer suspeita e a que nenhum turista é sujeito . Já da primeira vez tinha tido batalhões de oficiais a trazerem-me a bordo dezenas de papéis para preencher , guardas armados no cais a revistar-nos de cada vez que saíamos ou entrávamos no barco e sido confrontados com regras como “nenhum cubano pode ir a bordo” , demonstrações muito prácticas de um verdadeiro Estado Policial. Isto é um facto , quer os Comunistas ocidentais gostem quer não.
 Os cubanos têm todos um cartão de identidade com a sua província de origem , e certa vez num parque um polícia , ignorando-me por completo , veio pedir a identificação à minha amiga que por acaso era guantanamera , e estávamos  em Santiago. A rapariga estava cheia de medo porque não tinha razão oficial para ter saído de Guantanamo e aquilo podia-lhe valer problemas sérios , mas lá se desfez em desculpas , o polícia finalmente olhou para mim ( só passado algum tempo é que percebi que uma das coisas que me identificava como gringo era usar relógio) e foi-se embora. 
Na terceira e última vez que lá estive foi porque tinha ficado sem gasóleo a caminho das Ilhas Virgens , vinha de Key West num barco a motor e não tinha mesmo escolha , entrei clandestinamente num sítio chamado Puerto Padre na costa Norte, num barco americano com 3 americanos. Essa estadia de pouco mais de 24 horas permitiu-me confirmar a flexibilidade e pragmatismo do cubano comum , mesmo militar , que manda as directrizes  intermináveis do Comunismo  às urtigas assim que vislumbra uma vantagem pessoal. Como no resto do mundo , as pessoas em Cuba sonham com um mundo melhor para si e se lhes dessem a oportunidade gostariam muito de ter bens de consumo , liberdade de expressão , a possibilidade de subir na vida e outras minudências que o Capitalismo nos oferece e o Comunismo nos nega .
 Já fui muito romântico , ainda tenho alguns resquícios que a idade e as desilusões se vão encarregando de eliminar , e quando era novo e saído de fresco da faculdade de Sociologia ( sem acabar o curso) até tive a tal foto do Che na parede do quarto. Nunca me identifiquei com o Comunismo ou Socialismo mas saí da universidade com uma formação teórica tendencialmente de esquerda , comum a uns , arrisco , 90% dos sociólogos. A imagem icónica do Che Guevara inspirava-me , a revolução Cubana tinha sido uma verdadeira aventura , o regime do Batista era execrável e o Che era um herói de carne e osso , ainda por cima asmático e sonhador como eu. 
Passou-me depressa com a leitura atenta de mais e mais História e depois de experimentar Cuba em primeira mão e profundidade , depois de regressar ao Mundo e ponderar bem sobre o que tinha visto e vivido, hoje só me posso rir com o estatuto concedido ao dr. Guevara no imaginário da esquerda . Acabei na semana passada um livro chamado “ Fidel & Che , uma amizade revolucionária “ , que recomendo vivamente a pessoas de qualquer cor e preferência política , um livro escrito  com base em documentos recentemente desclassificados , inclusive pelos Russos , e entrevistas com contemporâneos, é uma história fantástica , contada sem juízos de valor ou críticas implícitas. Um livro que se debruça mesmo sobre a amizade entre os dois homens e não pretende ser nenhuma condenação ou exaltação da Revolução Cubana. Fidel não era comunista , não tinha ideologia absolutamente nenhuma , nem motivação superior além do poder. Desde adolescente que o seu carisma , inteligência , energia , e capacidade de trabalho enormes eram dedicadas a tomar o poder e mandar . Lutou contra Batista não porque este era um ditador opressivo mas simplesmente porque era quem estava no poder. Fidel teve lutas amargas com os Comunistas cubanos e acabou por tornar-se comunista por força das circunstâncias. Já o Che era um ideólogo dos mais ferozes , declaradamente empenhado na criação do Homem Novo , conceito que devia aterrorizar qualquer pessoa amante da Liberdade.“Os indivíduos devem desaparecer” , disse um dia em conversa com um burocrata do ministério. Se o ideal de Fidel era mandar em Cuba , e tiremos-lhe o chapéu porque o conseguiu contra todas as probabilidades , o de Che era uma revolução global que geraria esse Homem Novo , completamente imerso no desígnio colectivo , a expressão individual abolida , o verdadeiro e puro Comunismo. Para consternação dos comunistas contemporâneos estão bem documentadas as execuções de “contra revolucionários” , designação sob a qual podia cair qualquer pessoa que tivesse tido funções no regime de Batista , um bocado como os saneamentos em Portugal em 74 , só que em Cuba era a tiro contra uma parede , supervisionados pelo Comandante Guevara , não só durante a guerra mas depois de se ter tornado oficialmente Cubano. Depois da queda de Havana foi criada uma nova Lei da Nacionalidade : a todas as pessoas que tivessem combatido Batista por mais de dois anos e que tivessem chegado a Comandante era concedida a nacionalidade Cubana. A única pessoa no país nestas condições era o Argentino Guevara , o emergente aparelho não foi capaz de ter a honestidade de o declarar cidadão assim sem mais , teve que disfarçar o acto numa lei , como se não tivesse poder discricionário , porque a lei é para todos e somos todos iguais , camaradas….. Acho isto muito revelador da mentalidade dessas pessoas. Seguiram-se anos como ministro , e Fidel , mil vezes mais inteligente que Che , foi capitalizando a aura do revolucionário , que andou em périplos pela Russia , China e África , conseguiu enervar e desagradar todos os que visitava com o seu idealismo e radicalismo , mas enquanto ia escandalizando estadistas , mesmo comunistas , ia encantando seres como o Sartre e muitos jornalistas Ocidentais , e isso tinha uma valor publicitário inestimável . Obcecado com uma revolução global imaginária , qual anonymo dos anos 60 , e a fazer perder a paciência a muita gente como é timbre dos idealistas , resolveu envolver-se na guerra civil do Congo. “Outras terras do mundo reclamam o concurso dos meus modestos esforços” , escreveu numa carta a Fidel renunciando ao cargo e a despedir-se a caminho de África. Nenhuma terra reclamava nada ao Che , quando muito grupúsculos de alucinados como ele precisavam de ajuda , mas nesta altura o Che já tinha poucos pontos de contacto com a realidade. A aventura no Congo é uma farsa hilariante que espero que alguém transforme um dia em livro e começou logo com a constatação de que nem sequer o terreno em que se movia era o que esperava .Os Serviços Secretos cubanos nem um mapa exacto tinham conseguido providenciar , as pessoas que ele queria ajudar ( era o Laurent Kabila , lembram-se do Kabila , esse revolucionário que tanto bem fez ao Congo e cuja herança perdura até hoje? ) não ficaram nada contentes por o ver e a operação , sem surpresa , não foi nada do que tinha imaginado.Num dos momentos que mais me ri a imaginar , deparou-se com 4000 tutsis que tinham sido expulsos do Ruanda , nunca tinham ouvido falar de Comunismo nem estavam interessados em tornar-se Homens Novos , estavam a ajudar os congoleses a reforçar a defesa contra os rebeldes , que el Che vinha ajudar. Não correu bem , a sua ignorância profunda sobre a realidade africana inevitavelmente veio ao de cima , e passadas algumas semanas de vagabundagem inconsequente com a sua tropa fandanga encontrou-se , no “terreno ideal” escolhido com o seu génio táctico , cercado pelos mercenários do coronel Hoare , um inglês , que não sabia muito de política mas sabia de operações militares em África e que em pouco tempo correu com os cubanos do Congo. Pouca gente se referirá a aventura congolesa do Che como um fiasco ignominioso , e no entanto não foi outra coisa. 
Falhado em Africa , voltou-se para a America Latina , e para um fim de farsa com entrada directa no panteão dos mártires e ícones globais , foi fazer uma revolução proletária para um país sem proletários , a Bolívia, que conhecia muito bem por ter lá passado de mota uma vez na juventude. Foi mal recebido , perseguido e não fez nada , nada a não ser deixar-se apanhar e matar. Foi a CIA , descobriu-se aqui há anos, horror e consternação. Então se o homem era orgulhosamente guerrilheiro , passava a vida com invectivas e declarações de ódio eterno aos EUA , proclamava a luta armada contra o imperialismo americano e Revolução em todas as Américas , não se coibia de assinar sentenças de morte a contra revolucionários , pergunto o que é que é escandaloso no facto de a CIA o ter procurado e eliminado? Quem com ferro mata… 
Numa modesta “Mensagem aos Povos do Mundo” publicada numa revista radical , apelava a “2, 3 , muitos Vietnames “ , e não se cansava de incentivar e defender um estado permanente de Revolução. Ora , revolução como ele a entendia e a fez , era armada , e ainda hoje me causa grande estranheza o incensar da memória de um homem que practicava e apelava constantemente à violência e cujo projecto social era criar uma massa amorfa condicionada ao Comunismo. 
Gostava muito que os herdeiros modernos do Che assumissem a sua herança na totalidade e não quisessem apenas escolher as partes boas , porque se é para ser assim também nos podiam deixar viver descansados com o Liberalismo e o Capitalismo , se podemos simplesmente ignorar os defeitos e contradições dos nossos favoritos, não é? Um guerrilheiro fanático  que foi começar guerras civis em países estrangeiros sem que ninguém o tivesse chamado ,  depois de ajudar a instaurar um regime totalitário noutro país estrangeiro , é um herói internacional moderno e as bandeiras com a sua cara voam em comícios na Europa do século XXI . 

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