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Bancos

Se utilizam o facebook talvez já tenham encontrado este vídeo, é um discurso de um deputado do parlamento europeu  sobre os bancos e respectivas malfeitorias. Foi partilhado e visto centenas de milhar de vezes e teve o mérito de explicar a muitas  pessoas o que é um sistema bancário de reserva fraccional , que anda aí há décadas mas , ao julgar pela maior parte das reacções a este discurso, era um segredo conspiratório .

Se forem ver quem é este senhor tão incomodado com o sistema de reserva fraccional  verão que é deputado do UKIP ,  partido da extrema direita Britânica . Vi sempre este discurso partilhado por pessoas de esquerda , muitas delas da esquerda , digamos , aguerrida , que assim me demonstraram mais uma vez que é muito fácil ver os extremos tocarem-se. O meu amigo que quando partilhou este vídeo comentou “quem fala assim não é gago , categoria !” certamente teria outro comentário a oferecer a outro vídeo do mesmo indivíduo a explicar porque é que a imigração é má.  Contradições que passam bem por cima de muitas destas pessoas , que descartam essas incongruências com uma facilidade arrepiante. Pelos vistos pode concordar-se com um fascista em certas coisas , é uma noção interessante , um bocado como aquelas pessoas que escolhem os bocadinhos da Bíblia mais confortáveis e ignoram os mais incómodos e acham que está bem assim.

Voltando aos bancos , este sistema  que utilizamos permite-lhes  emprestar muito mais dinheiro do que está realmente depositado , no prática e simplificando muito permite aos bancos , comerciais e centrais , criar dinheiro. Tal como explica o eurodeputado nesse discurso , é um sistema que se presta a muitas perversões e riscos , como se provou em 2009. Quando a bolha da especulação imobiliária rebentou causando a miséria global que sabemos , na primeira linha do opróbrio estavam os bancos , os canalhas dos bancos. Ainda hoje são o alvo mais fácil de populistas e demagogos de toda a ordem , que ficam mais chocados com o ordenado de um gestor do que com a utilização dos bancos para fins políticos.

Aos que partilham da indignação expressa nesse vídeo , e se revoltam com notícias como a do CM que diz que “a banca leva 1629 euros a cada português”  eu gostava de perguntar : que tal seria a vossa vida sem bancos que podem emprestar o que não têm? 

Pagaram o vosso carro a pronto? A casa onde moram , construíram-na vocês , depois de irem poupando para comprar os materiais? O sítio onde vocês trabalham , é uma organização sem dívidas que opera sem crédito? As obras e serviços públicos que nos beneficiam a todos , terão alguma coisa a ver com crédito concedido ao Estado pelos bancos?  Cartões de crédito e  multibanco , não usam? Certamente que nunca  gastam mais do que recebem ao fim do mês e poupar dinheiro é enfiá-lo na lata dos biscoitos.

Vamos lá a ver , o crédito , goste-se ou não , é a base da economia em que vivemos , até ver, e esse crédito só é possível graças à invenção espantosa que foi a reserva fraccional. Proporciona grandes cambalachos , potencia desigualdades e , lamento desapontar os que olham para a Sociedade como se tivessem sempre 12 anos , pode ser muito injusta , mas é o que nos proporciona este modo de vida , que alguns dizem que é uma miséria ,  afirmando-o  ao teclado do seu mcbook air enquanto escolhem que filme vão ver essa semana , saindo a ruas iluminadas , asfaltadas e limpas , cheias de restaurantes e lojas . Crédito.

É muito fácil aviltar os bancos , quanto mais não seja porque toda a gente lhes deve dinheiro e ninguém gosta de credores ( uma das origens históricas do anti semitismo foi essa , os judeus sempre foram banqueiros) pelo que são os alvos fáceis. Por isso a essas pessoas  que  se escandalizam com as actividades dos bancos eu peço que se escandalizem primeiro com o nosso modo de vida , como indivíduos e como nações , construído sobre o crédito , construído sobre o sistema de reserva fraccional.  Os grandes buracos bancários no nosso país não se devem à reserva fraccional nem à ganancia dos bancos , devem-se ao aproveitamento e controlo político destes , é contra isso que nos deveríamos  revoltar .

6 thoughts on “Bancos

  1. nunca tinha visto isto…e nao sou de esquerda ou direita. mas parece-me tudo verdade. e escandaloso.
    o sistema politico e financeiro numa promiscuidade total, e quem paga é o individuo, seja em juros, taxas, subsidios, beneces fiscais ou simplesmente assumindo dividas de falencias (via bancos ou directamente via estado, que parecem quase um só).

    nao percebo como tu, que não curtes intervençao estatal, que primas pelo liberalismo, que te indignas com a divida da carris, por exemplo, que é apenas mais uma desta grande embrulhada, mas que pareces sempre compreender e desculpar (nem que seja por omisão, nao condenando, ou, como neste post, positivamente respaldando o status quo).

    todos estamos no sistema e contribuimos para ele. dele dependemos e para ele contribuimos. mas podemos imaginar algumas diferenças e achar que seria melhor. mesmo que pequenas diferenças e pequenas melhoras. senao nem vale a pena pensar.

    não faço ideia onde isto vai parar, mas como está, e a evoluçao que leva, cria-me ansiedade pensar que somos meras marionetes insignificantes nas mãos de politicos e grandes multinacionais (cada vez mais uma só coisa), cujo interesse é servir-se do individuo, como mera pilha em forma de consumidor e contribuinte. A produçao e acesso de informaçao cada vez mais nessas maos grandes e ao seu serviço…

    vejo um individuo cada vez mais insignificante… “liberdade” significa cada vez menos, se é que alguma vez significou alguma coisa. pouco importa se é china ou eua, ou portugal, porque os bancos, trusts, redes de informacao, cadeias de produçao e sobretudo distribuiçao alimentar, e energética em geral… tudo esta, cada vez mais, na mao de cada vez menos, e menos sem genero politico, religioso, nacional, ou sem respeito pela noçao de individuo e familia (“grupos pequenos”)como nucleo fundamental da sociedade.

    nada novo, tudo cliche, mas aceitar o status quo é perder esperança de mudar para melhor (mesmo que pouco), e se é para aceitar aceite-se tudo.

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    • O post tenta explicar o que no meu entender é o preço a pagar pelo nível de vida que levamos e que o problema da banca é sobretudo político . O sistema de reserva fraccional não é um pormenor que se possa melhorar , é a base do sistema e nunca me ouviste negar os problemas que acarreta, mas as pessoas esquecem-se dos benefícios que trouxe ,e continua a trazer , benefícios do ponto de vista de quem consome a crédito , ou seja , toda a gente. A razão pela qual , na minha opinião , gramámos e continuamos a gramar com os prejuízos dos bancos é porque é impossível a sociedade tal como a conhecemos funcionar sem eles. Não sei qual é a alternativa a este sistema bancário que não passe por uma redução gigante no nível de vida de toda a gente, e era isso que eu gostava de ver reconhecido pelos críticos ferozes do sistema . Chateia-me um bocado querermos sempre comer o bolo e ficar com ele e fazer passar a tal ideia de que isto é culpa de meia dúzia . Chateia-me um bocado que raramente se consiga ver a relação custos – benefícios. Não tenho esperança nenhuma de que nada mude para melhor , excepto no plano individual em que cada um pode progredir , melhorar e aprender , e nessa medida ir “espalhando” um pouco de mudança para melhor . Tens alguma proposta para um sistema bancário que elimine o dinheiro fictício e todas as corrupções que ele comporta ? Ou que que tenda para isso?

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  2. sinceramente nao sei como seria. embora eu nao tenha (nem nunca tenha tido) nenhum credito pessoalmente,vivo num mundo em que familias, empresas, Estado… a sociedade, vive-se a credito em geral. só porque nao tenho directamente creditos não deixo de viver no mesmo sistema, e dele beneficiar e por ele ser prejudicado. boa parte dele é dinheiro inventado por magia, grande parte é, por exemplo, poupanças de chineses…e de outros…é algo surreal: os chineses poupam, e emprestam-nos dinheiro para nós nos endividarmos mais com eles…e depois perguntamos porque é que eles estão aqui a comprar tudo ao desbarato…esta semana foi mais um grupo de comunicaºao social…Mas enfim, parece que a China também estás mudar a economia e finança para serem uma sociedade de consumo e já vão na mesma direção que nós. Os russos têm um dos níveis mais baixos de vida a credito…e nem por isso estao melhores ou merecem a nossa inveja.

    mas dessa constataçao (vivemos a credito, parte do nosso nivel de vida é suportado por credito, por isso precisas de credito e bancos) não deriva logicamente que devemos santificar e salvar bancos a todo custo. nem sob a ameaçao do “to big to fail”. Até Estados vão à falência, porque nao bancos?!? Agora Estados vão à falência para salvar bancos…porque senao ficam sem bancos para lhes emprestar dinheiro…para não irem à falência!É um ciclo vicioso… e esquizófrénico.

    se uma familia, ou empresa (pequena), ou individuo entra neste ciclo fode-se, e nem Estado nem bancos o vão salvar. até ajudam ao enterro. mas Estados e bancos (uns através dos outros) fodem-nos coercivamente para se salvarem…

    não vês aqui perversão? achas isto normal?

    achas normal que num país como o nosso o Estado já tenha posto dezenas de milhares de milhoes de euros em bancos (só os extra, para assumir passivos fraudulentos, nem estou a falar de juros, taxas, etc) mas se tu deveres umas centenas em impostos apertam-te até sufocares?

    achas isto justo? achas que devemos compreender e aceitar tudo com o medo do “to big to fail”, é melhor empurrar para a frente e acreditar num credito eterno?

    obviamente não sou clarividente nem sei se há alguma soluçao boa. “curar o sistema” parece sempre levar a pobreza instantanea sem garantias que depois melhore sem voltar ao mesmo esquema. mas continuo a achar que o que começou com o Bush e Obama (ou se agudizou ai) em 2008 não se explica só com o medo de uma derrocada mundial. não é so cobardia. é o um dos maiores golpes de sempre. Um golpe que continua a dar-se, e que em portugal se vê grego…esta tudo falido e ninguém admite, mas lá vai imprimindo mais dinheiro e sacando mais taxas e impostos para ir rolando para a frente…

    isto mete nojo. e se o sistema não implodir em breve, então é a esquizofrenia total. as leis economicas e financeiras do mercado (do “capitalismo” afinal existem ou não? se podemos continuar nesta fuga para a frente, então tudo o que se ensina nas faculdade de economia, e outras, não passa de tangas. não faz sentido nenhum.

    E gostava de te ver a fazer uma critica do capitalismo, do ocidente pseudo capitalista que tanto prezas, porque nao te vejo a fazer isso. o que te vejo é a dizer que isto é causado pela esquerda,sindicatos ou pelos imimigos nao democraticos do ocidente…mas não é. O Bush o Obama e o Trump, são tão a cara disto como o Passos e o Costa. e eu e tu. E a Google, o fb, a coca cola, monsanto, santander, deutchbank, etc…isto é uma crise do “ocidente capitalista”. E se o “ocidente capitalista” tem algo de bom não é certamente esta esquizofrenia sem sentido e insustentavel. E se é, então a unica coisa que podemos dizer aos russos, ou ao chineses, ou aos angolanos, etc, é que somos melhores que eles a roubar e viver do que nao temos. E isso pode ser circunstancial. não sobra nenhuma superioridade moral…somos só os chicos espertos que agora saca mais recursos…

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  3. “dessa constataçao (vivemos a credito, parte do nosso nivel de vida é suportado por credito, por isso precisas de credito e bancos) não deriva logicamente que devemos santificar e salvar bancos a todo custo. nem sob a ameaçao do “to big to fail”. Até Estados vão à falência, porque nao bancos?!? ”

    Conheces-me bem e sabes que sou um bocado literalista , não me agrada que sugiras que eu alguma vez “santifiquei” ou defendi salvar os bancos a todo o custo. Também nunca disse que ” isto é causado pela esquerda,sindicatos ou pelos inimigos nao democraticos do ocidente” , aponto as responsabilidades que acredito estarem aí mas se vês nisso um recusar da responsabilidade de todos estás-me a ler mal . Se reparares critico o “controlo e aproveitamento político”, sem apontar lados da barricada , porque não sou estúpido e percebo que vem dos dois. Quando falo neste post em malfeitorias , cambalachos e potenciamento de desigualdades da parte dos bancos , não estava ser sarcástico mas leste nisso de alguma maneira que eu participo numa santificação qualquer dos bancos.

    Como bem notas no comentário anterior , a minha posição por defeito é defender menos intervenção do Estado na economia. Defendo que não devia haver bancos públicos e que o Estado não devia interferir , além da regulação necessária. Se um banco vai à falência devia mesmo rebentar , a perversão que eu vejo no sistema bancário é o modo como se privatizaram os lucros e nacionalizaram os prejuízos , governos de esquerda e direita .

    “se uma familia, ou empresa (pequena), ou individuo entra neste ciclo fode-se, e nem Estado nem bancos o vão salvar. até ajudam ao enterro. mas Estados e bancos (uns através dos outros) fodem-nos coercivamente para se salvarem”

    Quanto ás famílias ou empresas que entram neste ciclo , o que eu acredito é que nenhum banco te põe uma pistola à cabeça e te faz um empréstimo que tu não queiras. Os termos são ás vezes quase criminosos e o ciclo da divida é esse , mas há uma alternativa : ser mais pobre , ter menos coisas, viver materialmente pior , consumir menos , crescer menos. Como ninguém quer oferecer essa alternativa e nenhum político alguma vez foi eleito por apelar a que as pessoas sejam mais pobres , o ciclo é quase obrigatório.

    Se vires o meu post anterior a este podes ver o meu grau de optimismo quanto ao sistema em que vivemos . Quanto à superioridade moral do ocidente , já partimos essa pedra aqui antes a debater o “problema islâmico” e se bem me lembro não concluímos nada para além de que eu acredito nela , tu não e não nos demovemos.

    Críticas do capitalismo há às dezenas , escritas por gente muito mais qualificada do que eu ,todos os dias por essa imprensa e livrarias , e é fácil fazê-la , é olhar em volta e enumerar os sintomas de decadência e corrupção que estão à vista por todo o lado. Sempre foi muito mais fácil chegar ao pé de uma casa, pronunciá-la podre e deitá-la abaixo do que olhar para ela com tempo por dentro e por fora , identificar e medir as podridões e criar um plano para a recuperar . Escreve um artigo a denunciar as iniquidades do sistema e tens público certo e interessado , mais difícil é tentar no meio do clamor para que o sistema caia lembrar o que de positivo ele tem e que não se pode deitar abaixo uma coisa antes de ter outra para pôr no mesmo sítio.

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  4. Obviamente que te conheço e sei mais ou menos bem o que pensas e temos a vontade para discutir e discordar. Na realidade eu nao tenho soluções e nao sei bem o que e melhor. A dscussao para mim também e a ver se me entendo e ao assunto em questao.

    Como sabes para mim nao ha ocidente nem esquerda direita etc. Nem faz sentido falar nesses termos.
    A arabia saudita, tao nossa aliada, e ocidente ou…e o que? Vivermos com dinheiro de chinocas…diz o que de ocidentes e orientes? E so capital…nao sou marxista. Mas muitas das analises que ele fz se adaptam ao nosso tempo com umas poucas adaptações.

    Enfim. Eu nao quero destruir nem reconstruir nada. Nem ocidente nem capitalismo. So nao entendo. Mas entendo que nada disto e verdade logico ou justo.

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