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Califórnia

No último dia o vento subiu bastante como estava previsto e a velocidade disparou, tal como o entusiasmo , agora já se podia dizer com confiança que estávamos a chegar e ao por do sol finalmente vimos a ilha de S.Miguel, uma das chamadas Ilhas do Canal que ficam nas baías de Santa Barbara e Santa Mónica. Os navegadores espanhóis do século XVI não primavam pela originalidade e serviam-se do calendário dos santos para dar nomes a tudo o que viam e esta costa e região é toda corrida a nomes de santos.

Previa-se uma chegada a meio da manhã mas havia vários pontos na rota em que eu queria estar a pé , pontos em que se muda de rumo ou necessitam de mais atenção por se passar mais perto de terra ou de uma zona de tráfego mais intenso. O costume era eu render o Mike às quatro da manhã mas nessa noite  estive sempre acordado e às 3 e meia saí da cabine. O vento tinha caído , olhei para o GPS, estávamos uns 12 graus fora de rumo e a fazer nem quatro nós , pensei que o nosso “piloto local” me ia encher os ouvidos com alguma razão que só os locais conhecem que fazia com se tivesse que sair do rumo e fazer um desvio nesse sítio.Pus a chaleira ao lume , preparei o meu café , subi ao cockpit , vi que a genoa a pender disse “boa noite” e não tive resposta. “Será que este seca está amuado?” .

Adormecer quando se deve estar de vigia é das aquelas ofensas que foi literalmente capital a dada época da História,  muita chicotada foi distribuída e , mais modernamente , muita gente foi despedida e repreendida por isso. Há uma diferença substancial entre passar pelas brasas quando se está a mil milhas de lado nenhum no mesmo rumo há uma semana e a entrar na seguinte e adormecer quando se está com recifes e ilhas a meia duzia de milhas a sotavento e a chegar às proximidades de um esquema de separação de tráfego que parece uma autoestrada para porta contentores . Muitas coisas podem acontecer num barco , espera-se que quem está de vigia vigie, dependemos todos disso.

Ali fiquei sentado de frente para ele , pasmado , até que lá tossi , ele abriu os olhos  e não disse nada por um minuto , nem eu, e depois lá começou a falar sobre o vento que tinha caído e que entretanto íamos ver assim assim , eu nada disse, voltámos ao rumo certo , corrigiram-se as velas e seguimos caminho. Ora sobre este momento podiam-se escrever várias páginas versando a psicologia humana e momentos que definem relações , não estou para ai inclinado , digo só que no resto da noite e do dia seguinte o Mike não foi nada senão  prestável e solícito limpou a cozinha admiravelmente e num silêncio notável . Não falei mais no assunto.

Entrámos em Marina del Rey a meio da manhã , sabia que o sítio era apertado e o vento não ajudava mas estava desertinho por finalmente chegar.O Ollie disse-me com o seu melhor  sorriso “não te esqueças Jorge , se engatares esta manobra vamos todos pensar menos de ti como capitão , como marinheiro e como ser humano ” . Não engatei nada , mesmo tendo feito uma aproximação que vi que não ia dar , dei mais uma voltinha , e com amarras  e defensas no sítio certo e gente que sabe o que está a fazer a ajudar a coisa deu-se à segunda sem tocar em nada , sem  gritos nem motores a fundo , e assim chegou este ao seu destino.

Passadas umas três horas de estar amarrado já estava em Venice Beach com o Ollie e o Mike, muito satisfeitos da vida  . Quando se  vem de 17 dias em que apenas se v~em 3 outrs pessoas sabe muito bem ir para o meio de montes de gente.Los Angeles não me agrada muito , a vida boa é óptima mas é muito cara , vive-se muito para a aparência e a ostentação ,  há dinheiro a mais pelo ar  e a cidade tem uma lista de defeitos considerável , entre eles o ser terrível para pedestres e a poluição séria , que ao que me parece não incomoda assim tanto  as pessoas daqui .Chamam-lhe eufemisticamente  “camada marítima” e depois há os ventos de Santa Ana que sopram do interior e trazem poeira dos desertos , uma coisa séria. Os pores do sol aqui têm uma cor cinematografica por causa da poluição , é como um filtro químico , eu acho bonito sobretudo porque não vivo aqui.

Depois de gastar mais horas do que devia a pensar na visita a São Francisco  decidi não ir mais longe do que Venice Beach e não andar a inquietar pessoas , fiquei muito contente comigo próprio e para celebrar ser tão ajuizado e aborrecido e previsível enfiei-me num bar mexicano com o Tommo e o Ollie  e só saí quando fui convidado a sair pelos seguranças , já estava mais do que na minha hora de qualquer maneira e com esta rapaziada não se pode argumentar , ou melhor , eu já não conseguia .Nem queria , os bares são muito bonitos mas não são feitos para se ir a pé de um para o outro, queria ir dormir  e voltou-se a bordo de uber  , tecnologia maravilhosa , podemos aquilatar o século no qual as pessoas querem viver pela sua opinião sobre a uber. Eu sou adepto.

No domingo pediram-nos para sair com o dono do barco para navegar na baía de Santa Mónica . Saímos , já tínhamos sido pagos mas esperávamos ser recompensados pelo nosso domingo, esperava  que ele acreditasse que a coisa que mais queríamos fazer nesse dia não seria  ir passear à vela , talvez para desenjoar , mas não ,  nem sequer uma gorjeta.  Trazemos-lhe o barco depois de 6800 milhas e levamo-lo a passear , numa terra em que se dá gorjetas por tudo e por nada e se dou 30 para pagar uma conta de 25 nem se incomodam em trazer-me o troco , este gajo vive aqui , anda num mercedes que ainda está por inventar de tão avançado  e brilhante , despede-se de nós com um aperto de mão, custa um bocado,mas enfim , não é uma surpresa enorme.  Pediu-me o meu email e perguntou sobre barcos no mediterrâneo. Uma das lições que me fica mais marcada desta viagem é “tudo por escrito e detalhado à partida”, pelo que estou às ordens , mas noutras condições.

Há quase dez anos cheguei a S.Francisco de uma grande viagem e pensei “atravessar a América de carro, agora ou nunca” , comprei uma carrinha e arranquei para a costa Leste , por um caminho comprido. Nessa altura não só não tinha casa nem cão nem bicharada avulsa para cuidar como a América ainda me encantava , atraía e motivava. Hoje já não , só quero ir para casa , sabendo que é provável que um dia volte a este país , e volto de boa vontade. Visitante ocasional, curta duração. Doses moderadas , não sou feito para estas terras.

O Tommo lá seguiu para a Nova Zelandia , no dia seguinte o Ollie para Toronto e amanhã de madrugada vou eu de Los Angeles para Boston , de lá para a Terceira , de lá para a Horta e por fim para para as Flores . As despedidas são sempre uma parte má , e as mais de 30 horas que me leva a chegar a casa nunca são óptimas , mas vou contente . Não tenho uma lista de coisas que quero mesmo fazer na vida mas ter atravessado o Pacífico para Leste dá-me uma satisfação grande.

Do cockpit do barco vê-se a linha de aterragem do aeroporto , LAX , uma enormidade, e todas as noites fico a ver a fila de pelo menos cinco aviões em aproximação , alinhados para aterrar, aterram com intervalos de segundos , pela noite fora , é das coisas mais impressionantes que já vi. Esta terra é grande demais para mim.

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