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O Resto do Pacífico

No dia 5 , mesmo  antes  da partida , tiraram-nos uma foto perfilados no convés, uma foto frequente que eu nunca peço para tirar mas também não nego quando alguém se lembra. Não peço para tirar porque por alguma razão nunca  consigo deixar de imaginar a foto com a legenda “a tripulação do iate assim assim, na última vez que foram vistos vivos”. Isto é mórbido mas é das tais coisas sem remédio… Bom, como se prova pela possibilidade de se lerem estas linhas , estamos outra vez à vista da Humanidade, vivos e de boa saúde , 17 dias depois , tendo cruzado metade do Oceano Pacífico e chegado à Califórnia em boa ordem.

Zarpámos do iate clube, que apreciei muito mas já me saturava, direitos a outra marina onde havia uma doca de combustível e lá abastecemos , os 500 litros que levam os tanques do barco e outro tanto em bidons no convés. De certo modo um exagero mas, tal como com o quarto tripulante, se me oferecem a possibilidade não a vou negar só para fazer  economia a quem se está nas tintas para economias.  Daí, já era meio da tarde, cruzámos a costa Oeste da ilha de Oahu, que me pareceu a costa de S.Miguel  mas em gigantesco. Na ponta NW apanhámos o vento em cheio e largámos para Norte à vela, finalmente à vela numa viagem que nos tinha trazido da Nova Zelândia até ao Hawaii sempre de motor ligado. Minto, em quase dois meses houve dois dias em que seguimos só à vela…

Com o Ollie e o Tommo já sei bem como são as coisas, e eles comigo, uma pessoa não passa assim dois meses a viver com outra em viagem num barco pequeno sem a ficar a conhecer muito bem, e ou vai ou não vai. Com o outro skipper a coisa só ia porque nos pagavam para ir, navegar com aquele homem não dá prazer nem satisfação a ninguém, mas havendo brio de profissional faz-se o que se tem a fazer, o prazer não vem ao caso e a satisfação obtém-se de um trabalho bem feito. Com o recém chegado Mike teve que haver o necessário período de adaptação, mas escrevendo isto com 9 dias de viagem posso dizer seguramente que tudo corre bem. Tem cerca de 50 anos e mais de 30 de barcos , tem mil histórias de terra e do mar e se lhe atribuísse um defeito nesta altura seria a sua incansável  vontade de partilhar essas histórias. Falha-me a paciência e o interesse mas uma das perícias que tenho e que melhor me serve na vida é conseguir ouvir uma pessoa indefinidamente aparentando interesse e aprovação quando na realidade apenas estou à espera de que se cale e não tenho um interesse por aí além no que estou a ouvir. Isso é ser falso! , podem-me dizer , e será verdade, mas o que é certo é que só faço isto com pessoas que de algum modo estimo e para não as magoar, porque com as  restantes não tenho grandes problemas em dizer “sim sim , mas olhe , tenho que me ir embora” ou coisa que o valha.

Por isso, por ser bom ouvinte e por prezar a satisfação e contentamento de toda a gente a bordo, sem as quais o meu trabalho resulta muito pior e mais difícil  , tenho ouvido muito mais histórias sobre Nova Iorque e episódios da vida da Califórnia do Sul do que à partida me interessariam. Também acho piada a quem consegue falar que tempos  na primeira pessoa sem nunca lhe ocorrer fazer uma perguntinha ou pensar que os outros também podem eventualmente ter coisas interessantes para contar. Mas o gajo é engraçado e apesar de cultivar bastante a própria importância tem histórias cómicas e curiosas. Tem além do mais uma qualidade muito importante: sabe cozinhar a sério e adora fazê-lo, pelo que se ocupou da cozinha, libertando-me assim do que para mim é uma tarefa e presenteando-nos  todos os dias com refeições deliciosas , estou a ponto de dizer que nunca , em quase 17 anos de navegação , comi tão bem no mar….Além do mais interessa-se por História, viajou alguma coisinha e tem inclinações políticas fortes, não andam muito perto das minhas mas são fortes, pelo que se podem ter conversas decentes. Por fim, sendo marinheiro experiente , conhecendo este barco e tendo já feito esta viagem várias vezes ,posso dormir descansado e não tenho que dar uma data de instruções nem estar sempre a vir ver como vamos , tanto ele como os outros sabem o que estão a fazer, para mim é outra bênção.

A lua cheia a nascer como não se vê em muitos sítios:

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Tivemos seis dias de vela pura direitos ao Norte que muito agradaram a toda a gente, a começar por mim , até que a brisa desfaleceu , metemos máquina e rumámos a Este . No dia 11 de Setembro   estávamos a  34 graus de latitude norte e começou finalmente a arrefecer, depois de mais de dois meses de vida de t-shirt noite e dia. Começaram a sair as camisolas, calças e meias à noite, desligaram-se  os ventiladores nas cabinas. Na Califórnia o tempo  vai estar  balsâmico como sempre mas os trópicos ficaram para trás e vamos a caminho do Inverno. Foi bom este período nos trópicos mas seria melhor se tivesse sido em Fevereiro , se tivesse como tantas vezes trocado meses do nosso Inverno europeu pelo calor  , assim troquei os melhores meses lá na ilha por calor do outro lado do mundo.

Nesse dia 11, na comunicação diária com terra quando  recebemos a informação meteorológica, pedi que me vissem o resultado do Sporting . Perguntaram-me, dada a distância a que estava , que diferença é que me fazia , respondi que pouca , simplesmente o resultado que esperava alegrava-me um bocadinho  o dia e se se desse o contrário não mo estragava , dados os milhares de quilómetros de distância que me separam do lampião mais próximo , seja da variedade civilizada ou ordinária. Os rapazes de verde e branco lá cumpriram a sua obrigação ganhando à vontade ao Moreirense , não só me alegrou o dia sabê-los isolados no topo da tabela por mais uma semana como me fez pensar mais uma vez na pequenez do meu país , onde uma localidade como Moreira de Cónegos tem uma equipa de futebol  a disputar o campeonato principal.

A brisa finalmente começa a esmorecer ainda mais e a rodar para Sueste   depois de seis dias de Nordeste- Leste mais ou menos fresco e seguimos então  a motor , com o barco direito , a aproximarmo-nos muito mais do rumo ideal que nos levará a Los Angeles. Dizer que Los Angeles é o destino é quase como ir para  Almada e dizer que se vai para Lisboa , mas aquilo é tão grande que absorve tudo e os limites são difusos . O destino é Marina Del Rey , uma marina que é quase uma cidade  de direito próprio e tem nada menos que seis mil barcos amarrados. 6000. Estou agora mais optimista quanto à chegada, acredito que vou bater a expectativa inicial de 20 dias , que era conservadora, e agora penso em 18 pelo que me alegro com a ideia de dois ou três dias de exploração por lá e a possibilidade de estar de regresso a casa ainda em Setembro.No fundo mais três ou quatro dias não interessam nada , e se calhar fazia melhor em aproveitar uma oportunidade que não será frequente , ter abrigo, comida e carro à borla na Califórnia e aproveitar ao máximo , mas não. Mesmo  vivendo no barco , comendo no barco os restos desta viagem (temos comida que quase chegava para regressar à Nova Zelândia…) e tendo carro emprestado o que é certo é que inevitavelmente gasta-se dinheiro e não pode ser por estar para receber algum que me posso esquecer da minha condição natural. Além disso, se quero poder passar o Inverno descansado  tenho que juntar avaramente os cobres todos.

O outro acontecimento do dia 11 foi que o Ollie “pescou” uma ave , uma espécie de gaivota que mergulhou sobre a amostra da linha de pesca , confundiu-a com um peixe e espetou-se no anzol , aos gritos. Teve que ser puxada para bordo e fizemos uma “cirurgia” , cortando o anzol para o retirar pelo outro lado. O Ollie é um moço às vezes , digamos ,  insensível , e pode ser ouvido a dizer coisas como “que se lixe  o ambiente” pelo que foi com uma certa surpresa que lhe vi verdadeira aflição e choque no rosto enquanto aquilo durou e depois disse , muito sério, “chega de pesca” , o  que para mim foi  óptimo , eu quanto mais velho fico mais radical me torno nestas coisas dos animais , permito a pesca a bordo porque entretém a tripulação e varia a dieta mas custa-me ver  até um peixe a morrer em estertores , sobretudo quando não precisamos de o matar para comer. O passaroco sobreviveu, pelo menos enquanto nos foi possível vê-lo, deve ficar bom porque a ferida não era grande e apanhou-lhe mais pele que outra coisa.

Contaminei toda a gente com a febre da Guerra dos Tronos e recomecei a ver a série , há sempre coisas que escapam da primeira vez . Tal como livros de excepção que  são melhor apreciados à segunda , mesmo que certas incertezas já não o sejam. Também nesse espírito trouxe os Maias para uma re leitura, muito porque poucos dias antes de vir para esta viagem encontrei uma edição por 5 euros , não resisti  e trouxe-a. É um fac símile da edição original, no português do século XIX o que dá outro interesse à leitura. Lembrou-me os esforços , em grande parte vãos , da minha professora de Português do oitavo ano para nos interessar por essa e outras obras e de quando , já adulto , li o livro por não ser obrigado a fazê-lo. Apesar de conhecer o enredo retirei mais prazer desta leitura do que das outras vezes combinadas e continuo convicto de que o Eça é o maior , depois do Pessoa , e cento e tal anos depois continuamos a ver Portugal explicado nas suas páginas.

Escrevo isto dia 14 , estamos a 1258 milhas de Los Angeles , acabo de receber a notícia da derrota do Sporting às mãos do Real Madrid , 2-1 não é nenhuma desonra .Já me cheira o refogado, para o jantar vai haver bifes da vazia grelhados, batatas no forno com natas e queijo  e um molho qualquer que envolve três fases distintas, nunca vi tal coisa .

19 de Setembro

Esta não é a  viagem mais longa , em tempo ou distância , que já fiz , mas é a que me está a cansar mais , e nem sequer é cansaço físico ou preocupações acumuladas, é saturação mesmo. Este ano já estive  no Índico e naveguei da  França até à Florida , deve ser por isso que já olho para o horizonte azul com uma certa saturação e mais saudades de casa do que o costume. Tenho as minhas seis horas de vigia por dia em que tenho mesmo que estar no convés e o resto do tempo passo-o na cabine ou à estação de navegação a escrever como agora. As condições não entusiasmam , vamos meio a motor meio à vela, não há surpresas, o que é bom mas também farta .Estou a olhar para o aparelhómetro  que me diz que faltam 622 milhas para o destino, fazemos 7,2 nós pelo que salvo catástrofes chegamos daqui por quatro dias, mais coisa menos quê. O vento podia pura e simplesmente extinguir-se que tenho gasóleo que chegue, as previsões meteorológicas chegam regularmente mesmo quando já não precisava delas para nada porque amanhã entramos numa zona de vento regular e previsível, um bocadinho de força a mais ou a menos mas estável, quase inalterável. A navegação não tem dificuldade nenhuma, especialmente com um gajo a bordo que , como não perde uma oportunidade para o dizer, é um local, estas são as suas águas.

Este gajo, mesmo sendo um tipo simpático e excelente cozinheiro é nesta altura grande parte do meu problema , porque também é chato como a potassa e qualquer assunto , qualquer, lhe serve para embarcar numa história que começa sempre “quando eu estava em ( inserir cidade ou barco), costumava fazer (inserir actividade/comportamento invulgar) e conheci ( inserir pessoa de grau variável de celebridade) “  e eu sinceramente já estou por um fio , por isso não me importo de passar por sorumbático e anti-social e passar pouco tempo no cockpit , uma vez que ele nitidamente não percebe quando está a aborrecer as pessoas. Deve ser lixado , e é só possível porque tem uma audiência cativa , não temos sítio nenhum para onde ir por isso ele continua a brindar-nos com os seus episódios como se estivesse a falar com três saloios que desceram agora da serra , e não vale de nada demonstrar , repetidamente , que pelo menos pela parte que me toca faço círculos à volta dele no que toca a História , Filosofia ou Política , afirmar repetidamente que me estou  nas tintas para Hollywood ,que a cultura das “celebridades” me dá náuseas ,  que o teatro podia desaparecer do mundo amanhã que eu não dava por isso  e que na parte náutica por cada grande viagem que ele fez eu fiz duas. Nada disso regista , é impressionante. Enfim , é bom tipo mas ninguém lhe ensinou o valor de estar calado e ouvir um bocadinho , também não vou ser eu , só faltam cinco dias.

Estou a acabar a História da Nova Zelândia e a ler um livro do Mark Twain sobre a vida no Mississipi, para desenjoar. Para me entreter fora do alcance das histórias do Mike vou vendo episódios da Guerra dos Tronos , estava a pensar guardar a revisitação da série  para este inverno mas não dá. Vou fazendo projecções sobre os dias que vou passar em Los Angeles, além de Venice Beach , que fica mesmo ao lado da marina e onde ao que parece é tradicional as moças andarem de bikini e de patins e onde faço conta de passar uma ou duas tardes (sempre fui aficionado da patinagem) , quero ir fazer    uma estrada que mereceu uma canção dos Eagles , é a estrada entre a cidade de Ventura e Santa Bárbara , chama-se Ventura Highway e não há-de surpreender ninguém que eu queira ir percorrê-la. Além disso só tenho uma dúvida , ir ou não a S.Francisco, onde vive uma moça que a dada altura foi muito importante na minha vida. Nessa altura eu ia vê-la de avião, de barco, de carro e de comboio, em países e cidades diferentes, pelo que as cinco horas de estrada até S.Francisco são uma brincadeira , mas as coisas mudaram muito em sete anos e nem sei se será boa ideia sequer dizer-lhe que estou na Califórnia e que  gostava de a ver. É essa a questão que me ocupa nas horas longas da noite , tenho cinco dias para decidir e logo se verá  se vou a S.Francisco ou não. Acho que o mais ajuizado é ir para o aeroporto e para casa depois da minha estradinha temática e da observação da patinagem, mas se há coisa que decidi há muitos anos foi que nunca vou passar noites em claro a pensar “se ao menos tivesse tentado”, e isso vale para tudo.

E é tudo do Grande Pacífico, a próxima vez que escrever vai ser de terra firme, certamente com novidades.

2 thoughts on “O Resto do Pacífico

  1. Mais um excelente capitulo capitão Ventura, bom regresso. Ps. Tb ganhei o vicio da Guerra dos Tronos, num mês papei 4 temporadas, as que existem disponiveis no NPLAY da NOS, a sexta vi em direto e suspiro que saia a próxima, a 7ª temporada, falta me ver a 5ª, não a quero ver sacada da net mas sim com legendas tais como as outras.
    Bom regresso abraço

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  2. Pingback: Mohammad Smith | Ave de Arribação

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