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Sobre o Hawaii

Os polinésios habitam as ilhas do Pacífico há milhares de anos e a sua dispersão pelos arquipélagos minúsculos deste Oceano é para mim o maior feito de navegação de sempre  , mesmo tendo  em conta as façanhas dos Portugueses de 500 no Atlântico e no Índico e , entre outras , as viagens do capitão Cook , que venero como o maior navegador da História e que morreu numa praia do Hawaii.

Os polinésios , em canoas  construídas exclusivamente de vegetais e navegando exclusivamente pelos sinais naturais , sem instrumentos de qualquer espécie, navegaram e  colonizaram a extensão do Pacífico desde a Nova Guiné à Ilha da Páscoa , desde a Nova Zelândia ao Hawaii. A quem a grandiosidade disto não é imediatamente aparente sugiro uma vista de olhos a um mapa.

Durante séculos e séculos viveram uma existência simples e imutável. Conheciam a agricultura e eram pescadores exímios mas desprezavam o comércio e achavam a acumulação de bens uma noção ridícula. Um clima benigno e uma natureza generosa  asseguravam que as necessidades básicas eram fáceis de garantir e a vida ,se bem que não exactamente como o Rosseau a imaginou no Bom Selvagem , era em geral feliz e tranquila. Verdade, havia escravos, havia nobres e plebeus , havia conflitos entre tribos e clãs, havia as devastações periódicas dos furacões e deuses coléricos e exigentes mas estavam livres da maior parte das angústias , opressões, medos , incertezas e constrangimentos que regravam , e regram , a vida no que convencionámos chamar Civilização.

Depois de séculos e séculos disto a civilização encontrou-os, primeiro pelos Espanhóis que lançavam expedições a partir do Peru, terra que nessa época se ocupavam a espoliar e oprimir , perdão , cristianizar e desenvolver . Estas expedições eram completamente aleatórias e só por sorte e acaso encontravam uma ou outra ilha, teve que se esperar até às grandes armações baleeiras do século XVIII e XIX para começar a haver contacto regular dos polinésios com  os europeus, contacto esse que foi, todas as pessoas de estudo e senso concordam hoje em dia , uma catástrofe para os indígenas.

Primeiro vieram as doenças , quando a lascívia sem fim dos marinheiros encontrou a curiosidade , alegria e inocência dos indígenas. Em poucas décadas as doenças venéreas dizimaram  uma população indefesa. A seguir veio o imperialismo , que ditava que havendo terra , há que a dominar , e aos baleeiros e comerciantes seguiram-se as fragatas . Por fim , qual quarto   cavaleiro do apocalipse, vieram  os missionários.

Um missionário nos século XIX era  uma pessoa  tão completamente convencida da justeza e infalibilidade das suas crenças que sentia  uma pulsão irreprimível para as partilhar com os outros. Se os outros por acaso eram  de cor diferente a partilha tomava  antes a forma de imposição, porque coitados dos pretos não sabiam  nada e  como  selvagens vão acabar no inferno se não forem cristianizados. A maldade e ignorância deste raciocínio só se tornou aparente décadas depois de o mal estar feito e ainda hoje não é clara para toda a gente.

A maior parte dos  missionários que assolaram o Pacífico no século XIX eram americanos ,  vinham sobretudo da Nova  Inglaterra e eram calvinistas , talvez a seita mais  triste , mesquinha e fanática de toda a cristandade. Estes missionários ouviam as histórias de idolatria , canibalismo e fornicação na ilhas , sempre as histórias favoritas dos marinheiros que exagerando  loucamente os factos   se gabavam assim da sua coragem e proezas sexuais, e ficavam possuídos por um fervor de justiça e compaixão que os impelia a percorrer dezenas de milhar de quilómetros para ir levar a palavra da salvação às ilhas.

Curiosamente , a poucas centenas de quilómetros das casas destes missionários que sofriam pessoalmente com a desgraça dos polinésios vivam centenas de milhar de africanos a laborar de sol a sol sob o chicote, propriedade privada de outros homens e sem a esperança de lhes ser concedida dignidade de pessoas. O estado desses já não incomodava os missionários nem os impelia numa viagem de justiça divina que seria muito mais curta , presumivelmente porque  aos escravos escorria-se água pela testa , davam-se nomes cristãos ,  fazia-se decorar meia dúzia de lengalengas e com isso ganhavam a Salvação da alma . O corpo pertencia a outro homem , mas  branco , logo superior , tal como garantia a  Bíblia , o único livro que os missionários liam e toleravam , que também especifica que a escravatura é sancionada divinamente , e sendo assim , está tudo bem no Mississipi e no Alabama, o inferno é no Hawaii.

Lá partiam estes fanáticos alucinados para os mares do sul , convictos de que estavam a cumprir a palavra de Deus e em poucas décadas corromperam povos , destruíram culturas que raramente se esforçavam por tentar compreender e abriram caminho aos governadores e guarnições europeias. Era muito fácil converter centenas de indígenas , começando pela nobreza , e isto não se conseguia com argumentos teológicos ou persuasão , conseguia-se porque os indígenas  raciocinavam assim : nós temos os nossos deuses e só temos estas coisas , os brancos têm barcos enormes , roupas, máquinas, livros e armas incríveis , pelo que o deus dele só pode ser mais poderoso que os nossos. Sendo pessoas já profundamente religiosas e convencidas da intervenção permanente do sobrenatural na vida das pessoas , concluíam que a superioridade material só podia vir de apoio divino superior.

Encorajados pelos relatos dos  missionários os governos sentiam-se na obrigação , uns mais cinicamente do que outros , de ir salvar os polinésios deles próprios e levar governo a ilhas que até chegarem os pretensos governantes tinham vivido sem precisar mais do que o que já tinham. A influência dos missionários e dos seus descendentes dominou a vida nas ilhas , as suas leis , desenvolvimento e forma de propriedade e exploração das terras , e foi determinante na revolução de chacha que derrubou a monarquia indígena com o único objectivo de provocar a anexação aos Estados Unidos que ocorreu em 1900

Não posso deixar de equilibrar esta crítica aos missionários calvinistas , que a meu ver foram  a Praga do Pacífico , com uma referência a um missionário que também foi para o Hawaii mas não foi para criticar nem reformar nem salvar almas nem ensinar outros a viver. O Padre Damien de Vouster foi um missionário católico que chegou às ilhas e dedicou a totalidade da sua vida a ajudar os leprosos , sem lhes pedir nem perguntar nada nem obrigar a nada. Só ajudá-los , porque mais ninguém os queria ajudar , especialmente os calvinistas para os quais os mundo é assim : Tens lepra? És um pecador , é castigo de Deus , reza e pede perdão e talvez , talvez te safes.

Depois de convertido o rei , vestidas as moças , destruída a cultura  ancestral e toda a gente  ser obrigada a trabalhar a prioridade passou a ser ganhar dinheiro , e o meio descoberto pelos brancos foi a cana de açúcar. A razão que obrigou a  levar escravos africanos para o Brasil também valia no Hawaii : os indígenas tendem a não aguentar trabalho duro e prolongado. Como já era tarde na História para importar escravos os proprietários das plantações , entre eles várias famílias de missionários, importaram antes trabalhadores chineses , contratados a prazo , normalmente por cinco ou dez anos. Estes chineses estavam proibidos de trazer famílias e era suposto irem-se embora no fim dos contratos. Vieram às dezenas de milhar e poucos acabaram por regressar , tornando-se parte integrante da população do Hawaii há mais de cem anos, hoje muito mais acima na escala social, tal como os japoneses que vieram nas mesmas circunstâncias , como trabalhadores rurais a prazo e foram ficando. Fiquei contente por saber isso porque se não soubesse à partida que há mais de 150 anos que os chineses e japoneses são parte integrante da paisagem e tão havaianos como os outros tinha tido um choque , porque estão por todo o lado. E os chineses não são as minhas pessoas preferidas.

Quem também veio para cá há quase 150 anos foram portugueses , da Madeira e dos Açores e igualmente para cortar cana de açúcar e cultivar ananás. Como eram brancos não metiam tanto medo aos anglosaxónicos que mandavam em tudo e a eles foi-lhes permitido trazer as famílias. Tinham a vantagem de já conhecer a cultura da cana e de serem , como ainda hoje somos , gente trabalhadora , discreta  e de respeito. Trouxeram as famílias e coisas como o cavaquinho , que o mundo todo conhece como Ukelele , as malasadas e o chouriço. Pensei que ia ser mais aparente a herança portuguesa aqui mas até ver, além de “salsicha portuguesa” nos menus dos restaurantes ainda não vi mais nada que me lembrasse de Portugal.Também é verdade que ainda não saí de Honolulu, vamos ver.

Honolulu é uma grande cidade , com tudo o que as grandes cidades têm. O resto da ilha ainda estou para ver , e também a ilha de Kauai , onde vou para a semana. Pelos menos até dia 5 do mês que vem vou andar aqui . Nessa foto à esquerda vê-se a a marina onde estamos e para baixo a lendária praia de Waikiki.

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One thought on “Sobre o Hawaii

  1. Há meses vi um episódio de uma série chamada A Humanidade que tratava disso mesmo, a expansão dos antepassados dos polinésios. Partindo da zona da Indonésia e da Nova Guiné para explorar o Pacífico, chegaram tão longe quanto a Nova Zelândia e a ilha da Páscoa. Designaram-na a maior epopeia humana tendo em conta os rudimentos de navegação (canoas frágeis, orientação pelas estrelas, pelas correntes, pelas aves). Há quem defenda, pela presença de achados arqueológicos, que chegaram à costa do Chile.
    Por outro lado, o Mário Vargas Llosa tem um livro (Paraíso, na Outra Esquina) que em parte retrata a vida de Paul Gaugin no Taiti e nas Marquesa, para onde ele foi à procura de uma sociedade que não estivesse contaminada pelo Ocidente. E está lá todo o processo das autoridades civis e religiosas para aniquilar os vários aspectos da antiga civilização maori. A famigerada missão civilizadora.
    Uma última curiosidade, quando falas dos Espanhóis no Pacífico. De referir que muitos dos seus esforços eram pensados. Principalmente a partir do momento em que ficam na posse das Filipinas e pretendem estabelecer ligação com Acapulco (a famosa rota Manila-Acapulco), tentando encontrar a via mais fácil de o fazer. Como muito melhor sabe do que eu, tratava-se de descobrir os ventos e as correntes favoráveis. Acabaram por perceber que funcionava como no Atlântico: para ir para o México tinham de subir e para voltar para as Filipinas tinham de rumar a Sul, num circuito oval. Pelo meio, foram identificando várias ilhas (e não descobrindo – outros antes tinham-no feito), como as Marquesas. Engraçado que nunca aportaram ao Hawai porque ficavam muito abaixo ou acima das rotas que usavam.

    Abraço. Boa viagem.
    Gonçalo

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