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A Subida do Pacífico

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Esta é a primeira vinheta de um livro que me mudou a vida , chama-se “A Balada do Mar Salgado” e chegou-me às mãos tinha eu uns 11 ou 12 anos . Foi o primeiro de uma série que mostrou ao mundo que a banda desenhada também pode ser literatura  e que me pôs a sonhar um sonho que ainda dura.

Se o Pacífico é o maior , a sua  travessia é forçosamente  a maior , e quando se faz no sentido Oeste- Leste é sempre contra os ventos dominantes , os alíseos do Pacífico , Sul e Norte, e as correntes  dominantes , e por isso se chama a subida.

Demorámos  23 dias das Fiji até aqui, a ilha de Oahu no Hawaii , fiquei a 2 dias do meu record para a navegação mais demorada  e estou bem contente por estar em terra, ainda por cima num arquipélago  onde nunca tinha estado. Como não  tinha a responsabilidade da navegação não  contava os dias nem as milhas nem os rumos nem as coordenadas , deixei-me andar num limbo azul em que os dias se misturavam uns com os outros numa sequência de principio esquecido e sem fim à vista , até ter aquela sensação peculiar  de que a vida sempre foi  isto e vai ser sempre isto ,  água e vento , dia após dia após dia .

Pacífico

 Já me tinha esquecido de que num monocasco à bolina a vida é a 40 graus de inclinação, mais cinco menos cinco. A habituação é rápida mas  vivo na cabine de proa , o pior sítio a bordo no que diz respeito a barulho e balanços , às vezes levantamos voo ,  literalmente , e é mais difícil descansar. Não ter a cabine à popa  é o que me custa mais  nesta espécie de “despromoção” temporária.

Outro factor de certa dificuldade é o calor, um pouco menos para mim que sou  arraçado de   salamandra e estou feliz acima dos 30 graus , mas o pessoal sofre bastante porque chega facilmente aos 35 , mesmo com brisa. É das poucas circunstâncias em que fico mesmo contente por ter este físico ,  são precisos 40 graus para me fazer suar e mesmo assim é difícil se ficar quietinho  ,  coisa que eu faço bastante bem.  A outra circunstância é quando me consigo enfiar  e mexer por compartimentos apertados  e de difícil acesso onde os gordos ( ou mesmo uma pessoa “bem constituída”) não tem grande hipótese  de se meter  , para chegar a uma bomba , um tubo ou , como foi o caso nesta passagem , chegar ao quadrante do leme e  tensionar o cabo sem ter que desmontar meio barco.

Quanto ao capitão… somos de escolas , estilos , temperamentos e métodos diferentes mas não houve o mínimo problema . Questionei interiormente o uso  exagerado do motor quando se podia ter velejado muito , muito mais  mas isso  é apenas uma escolha diferente , não necessariamente melhor ou pior. Protestei uma vez , energicamente , porque se preparava para mandar ao mar os resíduos de uma  mudança de filtros de óleo do motor e isso transtorna-me um bocado, mas ele assentiu logo sem problema nenhum, guardou-se tudo. Fico zangado  , sei bem que os Oceanos já estão porcos e maltratados  para lá de salvação possível , e que há milhares de barcos de pesca e comércio nos quais a noção de guardar o lixo e os resíduos a bordo dá vontade de  rir , mas raios me partam se hei-de contribuir para  esta desgraça ambiental em curso e sem remédio.

O capitão trata-nos impecavelmente  ,tem décadas de experiência ,  comemos do bom e do melhor  , não nos falta nada  , não falha nada em termos de segurança  e como disse a  diferença principal é de temperamento e estilo, que também implica diferenças nos modos de fazer ,  estratégias e tácticas diferentes. De vez em quando exaltava-se com o Ollie , o mais novo, em modos que  me pareciam exagerados  dado que nunca vi o moço fazer nada de realmente grave. Acredito que  há duas qualidades primordiais no capitão ideal , e que me esforço por cultivar porque apesar de poderem ser naturais também podem ser aprimoradas , como tudo : a frieza e a imperturbabilidade ,  e com frieza não quero dizer ser distante ou severo para com a tripulação , quero dizer manter sempre a calma. Dos elogios maiores que me podem fazer é ” nada te enerva”.Ver o capitão levantar a voz e perder a calma por coisas para mim menores não me pareceu  bem , sobretudo porque meia hora depois de ralhar a sério com o moço já o estava  elogiar e na brincadeira com ele. Ora aqui dá-se um fenómeno interessante e com paralelo na educação das crianças : se o pai berra constantemente com um filho , este, logo aos 3 ou 4 anos  se não for estúpido  , percebe que a coisa é passageira e comum e que dentro em pouco volta a ser um queridinho , logo, deixa de dar importância aos berros e exaltações, entram por um ouvido e saem  pelo  outro à mesma velocidade. Se por outro lado o pai , ou capitão , mantém sempre a calma a aponta as falhas em tons sérios mas moderados, a criança/marujo sabe que se ouve um berro é porque a coisa é a valer , baixa as orelhas , presta atenção e não repete. Simples.

O Tommo , o velho kiwi, é o que eu chamo de lenda , e não é uma distinção que eu dê de ânimo leve. Tenho aprendido bastante  com ele , de mecânica e de regulação de velas .Falamos de barcos  e trocamos muitas historias , eu sobre as minhas navegações e outro dos meus temas preferidos , a ilha das Flores , ele sobre a Nova Zelândia e as suas navegações.Já deu a volta ao mundo duas vezes , uma delas sozinho. Nessa viagem aconteceu-lhe uma vez  começar a dormitar no cockpit e quando abriu os olhos estava sentado à sua frente um homenzinho moreno , de bigode e com um fez vermelho na cabeça.

– De onde que tu vieste?

-De Istambul

-E fazes o quê?

-Sou motorista de táxi

-Ah… aceitas um café?

-Pode ser

E desceu à cozinha , fez um café mas quando subiu de novo ao cockpit o visitante tinha desaparecido. É um fenómeno comum e observado desde o Joshua Slocum  em navegadores solitários , expostos a grandes períodos de privação de sono , isolamento e esforço físico. É relatado e documentado frequentemente e já foi sobejamente estudado e explicado , especialmente nesta era em que os atletas para mim sobre humanos que fazem regatas à volta do mundo sozinhos são  monitorizados constantemente  . Quase todos alucinam a dada altura. Curiosamente , se virmos um taxista turco é uma alucinação mas se virmos uma senhora vestida de branco já é uma aparição.

Passámos todos estes dias sem ver vivalma , nada a não ser aves. Transcrevo aqui uma passagem sobre elas que está no meu livro por publicar , foi escrita no Atlântico  mas é a mesma coisa:

Tal como não sei os nomes das espécies de golfinhos e mal distingo entre roazes , toninhas e sei lá que mais há , também não distingo bem nem sei nomear as aves marinhas, mas também vão passando, vêm-se quase todos os dias, a mil milhas de lado nenhum, raramente acompanham o barco por muito tempo, podem fazer uns círculos sobre a amostra na linha de pesca, a eternamente vazia amostra na linha de pesca, ou por vezes dar uma volta ao barco ou acompanhá-lo uns minutos, estudando o intruso nos seus domínios, olhando para baixo, controlando a trajectória de voo com um bater quase imperceptível das asas, a um momento rente às vagas no outro a descrever um círculo em torno do topo do mastro, sozinhas ou aos pares. Aves que passam meses e meses em alto mar e só vão a terra para se reproduzir. Encontram sempre a sua ilha, e sabem sempre quando é tempo de partir outra vez. Isso fascina-me.

Uma destas aves  poisou no convés num dia de tempo pior e veio à boleia um dia inteiro.

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Chamámos-lhe Russel e quando ao nascer do sol o vi sem se mexer , com o pescoço virado para trás e o bico enfiado nas penas, pensei logo, olha, morreu. Já me aconteceu várias vezes , não com aves tão grandes mas com mais pequenitos que poisam no barco precisamente porque estão doentes (fartam-se de comer plástico, que a minha praga desça sobre todos os que mandam plástico ao mar) ou esgotados  e acabam por morrer. Fui ao pé dele , mexi-lhe com o dedo, ele levantou a cabeça e olhou para mim durante uns segundos ,abriu as asas ,  espreguiçou-se , olhou em volta e voltou a enroscar-se para dormir outra vez , fiquei com um sorriso  para o resto da manhã.

Fazíamos seis horas de vigia por dia cada um até o capitão se lesionar num ombro, ou melhor , ter agravado uma lesão antiga . Ficou sem fazer quartos e passámos a fazer oito horas cada um . Ocasião boa para me lembrar da sorte que tenho em ter navegado 230 mil milhas e nunca ter tido nenhuma lesão séria a bordo, minha ou de um marinheiro , é das coisas que me mete verdadeiro medo e me faz ser ultra cuidadoso ao mexer-me a bordo, pensando cada movimento antes de o executar. Uma falha de um apoio  e podemos torcer um pé ou um pulso , ou pior , e passar duas semanas a amargar.

Oito horas por dia de vigia em que se faz só isso, vigiar . Nos meus barcos permito música desde que seja a um volume baixo que permita ouvir aquele barulho, e também permito que se vá lendo , desde que se esteja constantemente a levantar os olhos  e consciente do que se passa em volta . Este  capitão é mais estrito do que eu , e faz bem , é o mais seguro e a melhor prática , pelo que quando estamos de quarto estamos só e apenas de vigia . Horas de muita ginástica mental, especialmente as da noite .

Vou olhando para as estrelas , para um  céu que só  marinheiros e habitantes do deserto têm o privilegio de ver. Vou pensando em mulheres,  reais e imaginárias , conhecidas e desconhecidas. Vou fazendo contas à vida , a quando  estarei de volta a casa , com que dinheiro e em que é que o vou investir .Vou  pensando no meu cão e restante fauna, há 12 seres vivos que dependem de mim para se manterem vivos e nunca o esqueço. Vou tendo diálogos e debates imaginários   com pessoas religiosas , afiando argumentos clássicos e elaborando novos. Vou fazendo os planos para o Inverno, que está a chegar. Vou escrevendo mentalmente textos como este e um manifesto sobre touradas que estou a  preparar , tal como uma tradução de um texto poderosíssimo do Christopher Hitchens, trabalho que vou fazer como modesta contribuição na luta contra o obscurantismo e a irracionalidade. Finalmente , passo bastante tempo a pensar nas duas questões  que todas as pessoas  deviam ponderar muito a sério , se aspiram a ser mais que , nas palavras do poeta , cadáveres adiados que procriam: “afinal eu acredito em quê, e porquê?

Li umas coisas , um policial passado em Edimburgo nos anos 90 e  outro passado entre a Alemanha e a França na Segunda Guerra mundial, de vez em quando é bom ler um bocado de ficção para variar .Tinha-os comprado por 1 dólar numa livraria de usados em Whangarei, adoro estes nomes kiwis, lê-se fangarei. Também aí comprei um tijolo de 1300 páginas , World Without End ,uma novela passada na Inglaterra da alta idade média, mil  e trezentas páginas por dois dólares pareceu-me boa relação quantidade -preço ( até parece que escolho livros pelo preço por quilo) pelo que passei muitas horas a acompanhar a vida e as intrigas de uma cidade inglesa do século XIV.  Li outro calhamaço de outras 1200 páginas , Hawaii , ao qual vou voltar em breve para falar deste arquipélago, e li  aquele  que foi o primeiro livro do Herman Melville , Typee, passado nas ilhas do Pacífico Sul. Continuo abastecido de livros electrónicos para o resto da viagem mas desconfio  que vou encontrar  mais uns de papel interessantes  na estante de trocas da marina.

Estamos agora no Iate Clube de Waikiki onde vamos ficar por algum tempo. O proprietário está a pensar vir fazer um cruzeiro de uma semana , eu espero bem que acabe por decidir não vir, por um lado seriam mais uns dias de trabalho , logo , mais uns cobres , mas por outro já começo a ter saudades de casa ,  ainda estou muito, muito  longe e quanto mais depressa seguirmos caminho mais depressa chego. De qualquer maneira, uma semana aqui é garantida , e certamente coisas interessantes vão  acontecer.

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2 thoughts on “A Subida do Pacífico

  1. mais um excelente capítulo, gostei muito disto tipo inveja mas não é inveja “olhando para as estrelas , para um céu que só marinheiros e habitantes do deserto têm o privilegio de ver”. Bons ventos

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