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Água

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Fui pagar a conta anual da água , 3 euros e tal , toda a gente paga o mesmo. É uma cobrança relativamente recente , só há poucos anos se instalaram aqui contadores e se começou  a cobrar esta taxa. Eu gosto tanto de pagar taxas como o próximo e também acredito que a água é um bem público , mas dado que não consumimos a água tal como ela cai do céu ou corre nos rios, há que pagar pela infraestrutura que capta, trata , armazena e distribui  a água. As pessoas ralham muito contra a privatização dos serviços de fornecimento de água mas vejo ralhar menos quanto aos serviços estatais , pedi no outro dia para ver uma factura da água em Lisboa e até tive pena , não necessariamente pelo preço que as pessoas da capital pagam por um metro cúbico de água mas pelo número inacreditável de taxas  que entram na factura , muitos dos itens nem têm justificação lógica possível , é um bocado como os  bancos com  coisas como uma que aparece no meio das outras taxas que me discriminam lá :  fee fixa . Ver uma taxa descrita assim numa factura ,  sem mais , convence-me de que este pessoal está-se , para falar mal e depressa , a cagar para o consumidor que não tem escolha , podem lá pôr o que lhes apetecer. Os municípios , tal como os bancos , são peritos nisso, aumentar o que no fundo são impostos dando-lhes nomes diferentes e muitas vezes incompreensíveis, e espalhando-os por outras cobranças. Lembro-me por exemplo da “contribuição audio visual” , um valor que o estado me força  a pagar , sob ameaça de me cortar a electricidade que eu não posso comprar a mais ninguém , para sustentar essa organização  para mim absolutamente inútil que é a televisão pública .

Quando essas taxas insidiosas são impostas  pelo Estado , as pessoas pagam  e não bufam , mas se uma empresa privada faz parecido , aqui d’el Rei que é o capitalismo selvagem que nos está a comer e estão a desmantelar e vender o estado social  e coisas do género. Pessoas  que não se importam que o Estado lhes coma as papas na cabeça  estrebucham se é para pagar  a uma empresa privada , a sério que não percebo isto.

A razão pela qual aqui pagamos pouco ou nada pela água é a sua abundância , nesta ilha mesmo no pico do Verão a água corre por ribeiros e cascatas , chove todo o ano. Foi uma das muitas razões , mas talvez a mais importante , que me fez vir para aqui: No meu tempo de vida não vai faltar  água nesta ilha , água em abundância , às vezes abundância demais como hoje , primeiro dia de Verão e chove a bom chover.

Os sítios que me deprimem  mais no mundo são os sítios secos , já há anos que se alerta para a possibilidade de guerras futuras por causa da água e enquanto os ocidentais urbanos gastam triliões de metros cúbicos de água muitas vezes em desperdícios medonhos há gente que tem que andar dez quilómetros por dia para encher uma lata com água potável para levar para casa. Saber isso devia obrigar as pessoas a cuidar e poupar mais água mas leva é as pessoas a exigir que alguém faça alguma coisa e a protestar contra os preços . Das coisas que mais me impressionou ver em Lima , no Peru , foi uma rua de lavadores de carros onde há dezenas de profissionais que com um balde de água , um , e dois panos deixam um carro  a brilhar. Eles fazem isso porque há pouca água , nós por cá é de mangueira a correr porque achamos que como há agora vai sempre haver.

Um marinheiro de longo curso dá um valor à água que uma pessoa de terra nunca vai perceber , e aprendemos muito cedo o valor da conservação , aprendemos a usar o mínimo , aprendemos que é o bem principal , escasso ,  finito e precioso. Nas cidades do Ocidente  , onde as pessoas cresceram  a abrir uma torneira e ter água doce corrente , pensa-se que a água potável é uma coisa permanente , infinita , garantida. Não é , e o esgotamento das reservas , a este ritmo de consumo , não está tão longe como gostaríamos mas mais uma vez a Humanidade vai fazer o que faz melhor – fingir que não é grave , enterrar a cabeça na areia e pensar que deixando de falar num problema ele desaparece, como nos habituraram os noticiários televisivos.

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7 thoughts on “Água

  1. Já deixei de olhar para o detalhe da minha conta da água, não há mês em que não pague mais de taxas do que de água propriamente, não sei como isso pode ser possível. Os ivas sobre as taxas então são a cereja (podre) em cima do bolo. Tudo graças às últimas alterações que o atual pm fez enquanto estava na cml. E ninguém pia.

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    • Para mim uma as coisas que havia a fazer era dar mais poder aos municípios , porque toda a gente sabe quem é o presidente da câmara mas poucos sabem quem são os deputados, há uma relação muito mais directa e uma câmara conhece melhor as necessidades da população que um ministério.

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  2. Compreendo o que quer dizer mas discordo. O poder local não funciona. Qualquer acréscimo de competências só agrava os problemas. As relações de proximidade quanto muito facilitam ainda mais a relação patrono-cliente que é o que alimenta as bases partidárias.

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    • É verdade que facilita o clientelismo , mas acho que infelizmente não podemos aspirar a ter poder político sem clientelismo … e mal por mal prefiro decisões tomadas a nível local e aplicação dos impostos locais em despesas locais. E também não vejo nenhuma alternativa viável e realista ao poder autárquico. Pelo menos deixou de se falar em introduzir mais uma camada, como queriam fazer com a regionalização…..

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