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Cliché

Há pouco tempo um amigo visitou-me na ilha , e enquanto olhava para a minha casa virou-se para mim  e disse:

-Pá ,  és um cliché.

Não é preciso rebuscar muito para concordar  , conhecendo-me um pouco e sabendo como eu vivo. O cliché reforçou-se muito nestes últimos dias. O marinheiro que por um erro ou falha enterra a sua carreira é um dos clichés da literatura náutica, desde génios absolutos como Joseph Conrad a vulgários como A. Perez Reverte. Este último tem um livro chamado “A Carta Esférica” , em Portugal inexplicavelmente editado como “O Cemitério dos Barcos sem Nome”, que é um repositório e revisitação de todos os clichés , não falta nenhum .

Bom , nesta profissão não temos muita margem de manobra para erros assim e como não tenho inclinação para desviar culpas nem sei fazer outra coisa que não aceitar as minhas responsabilidades é certo que os meus dias de trabalhar para estas duas companhias terminaram. Uma viagem de dois meses e 6400 e tal milhas vai reduzir-se , ao fim e ao cabo , aos cinco segundos em que encalhei e aos dois ou três minutos em que as manobras de acostagem me correram mal e fiz uns riscos no autocolante de vinyl que envolve o casco. Mete raiva porque os mesmo riscos , num barco de fibra branca normal , era polidos em dez minutos . Como rasparam o Vynil , que é todo numa peça e não se pode remendar  , querem substituir tudo, coisa de uns  30 mil euros , fora o resto das coisas que aconteceram durante a viagem. Vai ser envolvida a seguradora , vai haver prémios a disparar , o meu nome vai para a base de dados dos gajos menos fiáveis , nesta altura é bem possível que acabe por fazer esta viagem pelas despesas.

Retirei  o post anterior porque nesta fase a  principal coisa a lembrar é que “tenho o direito de permanecer calado e tudo o que eu disser pode ser usado contra mim” . Aliás , isto é sempre bom de lembrar , especialmente neste país obcecado por processos e advogados e litigação. Lidar com pessoas que vão lucrar com os meus problemas  requer muita atenção e calma .

Nestes dias complicados soube-me muito bem ver e estar com velhos amigos a sério e receber  telefonemas de outros a dizer que tinham visto que eu estava na cidade , para nos encontrarmos , iam-me buscar onde fosse preciso e tinha abrigo sempre que precisasse. Nunca ganhei dinheiro com esta vida  , nem o reconhecimento dos tubarões da indústria , mas ganhei isso que não tem preço.  Até ofertas de trabalho tive mas não concebo nesta altura pegar em barco nenhum  , daqui por duas horas vou para o aeroporto , só me quero ir embora daqui . Isto marca o fim de uma época , e não é cedo demais.

Vou para casa , ver se o cliché é levado até ao nível Hollywood e daqui a dois ou três anos me aparece um amigo lá na ilha a dizer que há um barco qualquer difícil num sítio distante e obscuro e que precisa mesmo de mim para o ir lá buscar. Eu vou dizer que já não faço isso , ele vai insistir ,  e eu vou olhar para o cão , o gato as ovelhas , vou pensar durante umas horas , pensar que o dinheiro dá sempre jeito, e vou acabar por aceitar.

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