Amarrámos ontem às 6 e meia da manhã em Virgin Gorda e enquanto os escritórios não abriam ocupámo-nos com desarmar  e arrumar a genoa e a dobrar a vela grande em condições , em geral a ordenar tudo  para não chegarmos à base a parecer uns vagabundos . No escritório da marina não me imprimiram os papéis nem tinham internet , arranjei internet no bar , o tempo suficiente para beber um café , descarregar os papéis , reparar na televisão que mostrava um arraial enorme  em Leicester , grande campeonato! , publicar aqui esse post de ontem e dizer à família que estou bem e me recomendo.

Ao fim de meia hora acabei por conseguir que me imprimissem a papelada numa loja de mergulho e turistices , até disse que comprava um boné e a moça riu-se , pensei mesmo em comprar um boné mas nenhum  me agradou   Fui buscar a tripulação para ir à alfândega e imigração e o Julien recebe a notícia de que o irmão teve um desastre de automóvel e está no hospital por um fio. O moço ficou  devastado ,  claro que não é o mesmo , e tornou-se logo bem clara a hipótese de ele regressar já a França. As piores notícias que nos esperam nunca são aquelas em que pensávamos, e perante essas as outras quase desaparecem.

Passámos uma hora na alfândega , paguei uma hora de marina, comprei 3 litros de leite por $10 , até me engasguei , era a única coisa fundamental que se tinha mesmo acabado a bordo , as cebolas podiam esperar mais uns dias , e zarpámos para Tortola.

13 milhas para Hodges Creek , 9 nós e as duas máquinas a fundo , para descarbonizar. Na base esperavam-me os do costume e de há muitos anos , dois franceses que sabem talvez tudo o que há a saber sobre Lagoons. Um é carrancudo e mau feitio por natureza, fala muito pouco e é sempre seco , ao longo dos anos consegui que ele me tolere  , por mostrar serviço , e sempre que lhe peço alguma coisa aparece  feita , mesmo que seja com má cara, ele é mesmo assim. O outro usava  rastas até há uns anos , é igualmente competente mais é mais descontraído. Mostrei-lhes as avarias , as peças que me tinham mandado não eram o que eu tinha pedido mas era tudo de resolução simples, num dia resolvíamos tudo.

Com isto era uma da tarde . Deixei a tripulação no barco , o Patrick não tinha interesse em ir sentar-se num bar a beber cerveja , uma ou duas está bem mas sessões não é com ele. O Julien consumia-se na internet , coitado. Arranjei boleia para Road Town e sentei-me num dos bares numa das marinas à espera de um amigo que me vinha encontrar . Preveni-me com os auscultadores e o meu leitor de mp3 porque os gostos musicais aqui da rapaziada raramente concordam com os meus, pedi  um copo grande de água e uma cerveja e deixei a informação toda do dia assentar. Outra coisa boa de estar sentado a um bar com auscultadores é que torna bem claro que não queremos falar com ninguém. De igual modo , se os tiramos quando alguém se senta ao nosso lado é quase como dizer “olá”.

As coisas não estão assim tão más como eu as imaginava  a avaliar pelas comunicações com as entidades patronais e pela rapidez com que concordam comigo e aceitam as minhas sugestões , ou então estão à espera que chegue lá.Aliás, enquanto não se fala de números é fácil ser-se compreensivo .  É-me igual.

Depois de mais quatro cervejas constatei que já não tinha dinheiro , pedi outra porque tinha mesmo que esperar pelo meu amigo para ele pagar , não ia ficar ali à espera sem fazer nada.

Na CNN  uma da histórias do dia era “Navy Seal morto por 100  lutadores do ISIS”.

Tão mau a vários  níveis , primeiro que seja notícia a morte de um soldado e depois pela maneira como chegam à conta 100. Não foram 80 nem 130, eram mesmo cem , pá. E depois o homem , mesmo que tivesse sido atacado por 325 ao mesmo tempo , era sempre morto por um , há um tiro fatal , não há 54 tiros fatais , por definição de “fatal” .Este título  quer dizer que os nossos são tão bons que foram precisos 100 para matar um , informação à medida de  mentalidades de camponês medieval.

Apareceu  o meu amigo Tony ,skipper inglês já bem para norte dos sessenta , ex submarinista centenas de milhar de milhas , vive cá ,  conhecemo-nos quando ele fez uma viagem comigo  (por aborrecimento e falta de trabalho) de Charleston  para aqui, viagem que teve a particularidade de envolver uma colisão com um cargueiro, foi muito pedagógico.

Quando ele chegou eram umas seis ,   lembrei-me  de que ainda não tinha comido e estava a pé desde as 3 mas isso , por estranho que pareça , não me deu fome nem sono. Passámos que tempos na conversa do costume , o trabalho ,  e já nem me lembro que horas eram quando a mulher dele apareceu para nos levar , apreciei muito não só porque não tinha ali dinheiro para um táxi como porque sinceramente já não estava nada capaz . E voltei a Hodges Creek dando o dia por ganho.

Manhã com o sofrimento atroz do costume , lá pelas 9 já estava quase operacional. Até ao almoço assistiu-se nos trabalhos e pelas 3 da tarde estávamos com os danos da viagem reparados. O Julien comunicou-me que se vai embora, é daquelas situações que é uma merda para toda a gente, não é que ele possa fazer alguma  coisa pelo irmão mas sempre está ao pé dos pais e de qualquer maneira a cabeça dele não permite agora viagens marítimas. Teve que pagar ele o seu bilhete de regresso porque o acordo prevê uma viagem completa.Fiquei com um problema novo , falta-me um tripulante , ainda por cima o Julien era o que tinha visto para os EU, mas duas horas depois já tinha resolvido o problema , um amigo meu de Fort Lauderdale disse-me logo que podia estar em 20 minutos no aeroporto, não é preciso tanto mas não vai ser falta de tripulante que me vai fazer perder aqui mais tempo.

Amanhã vou levar o Julien ao ferry a Road Town e fazer as compras, comida para uma semana e ao fim da tarde chega o Frank , se dois aviões e um ferry não engatarem o plano . Em princípio parto na sexta. Quer dizer, daqui parto sempre na sexta porque tenho que deixar este pontão, ao fim de semana é mudança nas frotas de charter , regressam uns e partem outros e é  confusão por todo o lado e este espaço está reservado.

Esse vídeo é uma curiosidade: uma vista aqui da sala de estar e o que acontece quando o ar condicionado está a trabalhar .  Génios do design , não posso esperar por mostrar isto ao dono do barco em Fort  Lauderdale.

 

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