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Arribado

Arribei às Ilhas Virgens depois de 25 dias de mar e uma travessia do Atlântico que se a medida do sucesso é a conclusão , foi um sucesso. Por várias outras medidas deixou muito a desejar, para não dizer que foi uma miséria. Seguem-se 10 páginas de notas escritas pelo caminho, desde a largada de Las Palmas no dia 8 do mês passado até à arribada esta madrugada à ilha de Virgin Gorda

11/04

Não é preciso muito para me convencerem de que o clima está a mudar , no ano passado registou-se pela primeira vez a passagem de uma tempestade tropical pelas ilhas Canárias e este ano , 19 anos depois de começar a lá ir  regularmente em todos os meses do ano , pela primeira vez cheguei , estive e saí sem trocar as calças e meias pelos calções e chinelos. Registaram-se em Abril temperaturas mais baixas do que se tinham registado ao longo do Inverno todo.

Zarpámos a uma sexta , primeiro porque raramente há tempo a perder e cada dia que passo em terra tem custos  ,  depois por uma espécie de desafio às superstições. No princípio da minha vida de marinheiro observava um número de superstições, mais até por querer abraçar em pleno as tradições e o mundo náutico  tal como o idealizava do que por fé nelas. Por exemplo , não gostava nada do nome do meu primeiro (e único) barco  mas não o mudámos porque dá azar. Os anos passaram  e concluí  naturalmente que era estúpido pretender que o dia da semana em que se partia podia ter alguma influência que fosse no decorrer da viagem. Uma das revistas náuticas que temos a bordo conta a história de uma travessia do Atlântico Norte em que a tripulação , muto experiente , se recusou a zarpar a uma sexta como era vontade do armador, zarparam no  sábado e a viagem acabou por ser  um fiasco completo.

O prognóstico era de ventos fortes e saíram mais fortes do que previsto, descemos o canal da Gran Canária que nem um tiro , debaixo de ventos Norte de 40 nós e rajadas a 45 , com três rizos na vela grande e um pedacinho de genoa  e nisso passámos o resto do dia , a noite e  o dia seguinte , com pausas de cada vez que se passava a sotavento de uma das ilhas a Oeste . Se alguma vez voltar às Canárias para uma travessia hei-de ir à ilha de Hierro, uma das mais pequenas e a mais ocidental , não só para ver como é e o que é que lá há mas para tirar um dia à travessia. E por solidariedade e comunhão com Ilhas Mais Pequenas e Ocidentais dos Arquipélagos.

Depois de 3 dias de ventos frescos e rizos a subir e a descer lá abriu o sol e o vento infelizmente caiu , já corremos 500 milhas e estamos a 2850 das Bahamas , estou preparado para mais 24 dias de viagem , se tiver que ser.

16/04

Há quatro dias atrás , navegávamos com o pano todo à bolina num rumo Noroeste antecipando uma anunciada mudança de vento para Norte quando ouvi um estalo metálico, subi à ponte, olhei para o mastro e o coração afundou-se. Dois encaixes que ligam a vela ao mastro tinham quebrado, comprometendo assim o uso da vela grande e por conseguinte a viagem toda. Tinham vergado quando navegámos com ventos fortes e assim que receberam tensão no outro bordo, partiram. Tinha mantido o velame dentro das recomendações do fabricante  mas não foi suficiente. Impossível de reparar no mar sem danificar a vela com reparações de fortuna , arriámos para o terceiro rizo e rumei à Horta , ficava a 600 milhas e era a terra mais próxima. O patrão disse passadas umas horas que nos Açores não há hipótese de encontrar as peças em falta, que rumasse a  Tortola , eram 2000 milhas e tenho lá a assistência toda . Eram 2000 milhas há três dias e são 2000 milhas hoje, porque temos tido ventos contrários e o barco está desequilibradíssimo com o pano tão reduzido, mal avançamos. Tenho-me lembrado muito da penúltima travessia, num 620 em que me aconteceu algo parecido que me obrigou a voltar para trás. Ter que ir para a Horta partia-me o coração e destruía as  hipóteses de um lucro decente nesta viagem e de regressar a casa  no princípio de Maio. Quando o patrão informou que as peças já estavam a caminho de Tortola estive para lhe dizer que nos Açores não há stock de peças  especializadas mas também há correios, mas o que é certo é que apesar do risco estava contente por avançar em vez de recuar. Voltar para trás é do pior que pode haver.

A minha aposta de escolher a rota mais a Norte e rumar directo às Bahamas em vez de fazer a rota  tradicional pelas Caraíbas  fracassou  e assim não vou  conseguir  pôr um ponto final na carreira com uma espécie de volta ao estádio , já só  me interessa chegar lá . A situação é muito melhor do que com o 620 porque tenho amplos mantimentos, já que tinha preparado para uma passagem de 3400 milhas me vez de 2700 , nesta altura do ano não arrisco ser varrido da superfície do oceano por um furacão e a vela está impecável , é só mesmo substituir os encaixes , mas ontem houve uma surpresa que me deitou abaixo .

Reparei que a bomba de esgoto  trabalhava  sem parar, o nível dos tanques de água tinha tombado , começámos à procura e larguei uma torrente de pragas em bom português quando descobri uma válvula defeituosa num cilindro de água a jorrar a reserva toda para os fundos, água que a bomba de esgoto por sua vez mandava borda fora. Assim se foram mais de 400 litros de água doce, tornando-me a reserva limitadíssima para um barco de capacidade de manobra  tão reduzida e tão longe de terra. Claro que um barco como este, que até tem máquina de lavar louça, também tem um dessalinizador com o qual posso fazer mais de cem litros de água doce por hora…se o gerador funcionar , o que não é o caso. Está em greve, a água de arrefecimento não circula e até ver a reparação está fora do meu alcance. Não me preocupei com fazê-lo reparar em Las Palmas porque uma tonelada de água chega e sobeja para uma viagem destas, dá para duches e tudo… mas é preciso não mandar metade borda fora nem ter o barco coxo .

Como estão a ler isto é sinal de que cheguei a terra em condições, talvez duas semanas depois de estar a escrever estas linhas , e se bem que nesta altura não estou a pensar ai que estamos desgraçados também não estou nada contente. Muito pelo contrário, e o esforço, além da conservação extrema dos recursos (água, gasóleo, comida e condição das velas) , vai para a moral da tripulação , sorrir ,  dizer platitudes como “ o vento tem que rodar entretanto ” e brincar com o facto de estarmos num barco de quase um milhão de dólares a lavar a louça num balde com água do mar.

17/04

Faz hoje um mês que cheguei a Bordéus e no optimismo necessário ao começo destas empresas acreditava que de hoje a quinze dias o mais tardar ia estar de regresso a casa. De hoje a 15 dias estarei , com sorte , a chegar a Tortola , nas Ilhas Virgens ,sítio que nem fazia parte do itinerário .Sabe-se lá quando é que regresso a casa.

Com o problema da água a concentrar-me a atenção tive  mesmo que inventar  uma reparação de fortuna na vela , coser-lhe duas faixas ao longo da ponta de cada régua para fazer com isso a ligação ao mastro e substituir as peças quebradas. Não é altura para me preocupar com ficar com a vela nova furada por costuras amadoras. Passei uma hora empoleirado na retranca a coser a primeira e deixei a segunda para o Julien, primeiro porque o meu jeitinho para trabalhos manuais prima pela inexistência, as coisas que faço dão para desenrascar mas pouco além disso, e segundo porque o moço trouxe um manual e equipamento todo de arte de marinheiro, tudo sobre costuras, olhais , falcaças e tudo o resto que se faz com cabos e outros têxteis a bordo. Tem passado a viagem toda a praticar e agora teve ocasião de pôr o que aprendeu a verdadeiro e importante uso.

Sei bem que ao chegarmos lá ninguém vai olhar para aquilo e dizer “bom trabalho , rapazes , safaram-se bem” , o mais provável é dizerem “ eh pá ,  uma vela nova toda furada com costuras manhosas” mas eu já cheguei a uma altura em que , perdoem-me a linguagem , estimo muito  que  se fodam.

Acabadas as costuras içámos a vela toda pela primeira vez em 5 dias, a brisa apareceu que nem de propósito, esteve um dia de sol radioso ,o barco ganhou vida e arrancou a 8 nós à bolina folgada em 10 de vento, uma  coisa linda de se ver. O mar estava lisinho, foi daquelas tardes  em que senti o ânimo a crescer outra vez não obstante os problemas que ainda nos esperam , conhecidos e desconhecidos.

18/11

Hoje é o dia do meio caminho , desta vez um bocado aldrabado por causa da  mudança de destino , devíamos assinalá-lo a 1750 milhas das Bahamas e vamos fazê-lo a essa distância de Tortola ,  mas pronto.  Faço um jantar melhorado, que consiste em juntar mais uns ingredientes à minha receita única e abrir uma garrafa de tinto. Calhou mesmo bem porque o Patrick apanhou esta manhã o primeiro peixe da viagem e assim dá um toque extra à coisa. Pensando bem até acho que vou alterar  a receita , sei bem que se correr mal  eles vão  dizer que está óptimo de qualquer maneira , tal como eu faço sempre mesmo quando as tripulações me apresentam coisas um bocado  tristes na vez deles de cozinhar .

Vamos a motor , o vento caiu de manhã depois de  um dia completo de vela em que regressámos a um progresso respeitável, andei de volta do gerador na esperança de dar com o problema , a experimentar isto e aquilo mas nada, continuamos com racionamento de água .Também estive a fazer contas e mais valia ter estado quietinho , as estimativas do lucro final desta viagem não são animadoras mas um tipo tem que encolher os ombros e continuar a fazer o melhor que consegue .

19/04

Às 4 da manhã estava a içar as velas , é coisa que não tenho o hábito de fazer , aumentar pano a meio da noite , mas a brisa começava a mostrar-se e não se podia desperdiçar , depois disso corremos o resto da noite e toda a manhã a perto de 10 nós a um largo , se pudesse ser sempre assim…mas nem era meio dia já estava a reduzir velas outra vez , o céu carregado e o vento a rodar para SSW e a refrescar . Sul  sudoeste é para onde queremos ir pelo que o progresso rápido e confortável na direcção certa foi sol de pouca dura. Ainda assim estou mais optimista do que ontem , faltam pouco mais de 1600 milhas e pelos meus cálculos só tenho que fazer 800 à vela e resta-me gasóleo para cobrir o resto a motor caso falhe o vento, o que é um conforto quando se está tão baixo em água. Ninguém toma banho há 11 dias e em princípio vai ficar assim pelo menos mais dez mas não é grave. No mar não há poeiras nem todas as outras sujidades da terra que se colam à pele pelo que uma pessoa que passe vinte dias sem um duche no mar tem um aspecto (e cheiro)  diferente de uma que faça o mesmo em terra. E como não temos convenções sociais para respeitar nem há por aqui ninguém que nos faça preocupar com a imagem, não é grave. De qualquer maneira mais uns diazinhos e uns graus mais para Sul e a temperatura já vai dar para banhos de água salgada, que tiram bem o sebo se bem que deixam uma camada de sal que se torna desconfortável. Ninguém disse que isto era fácil.

 

20/04

 

Acordei uma hora antes da minha vigia  com o barulho e o balanço excessivos, caía uma carga de água valente e o vento levantava-se .Reduzimos as velas e  o vento pouco amainou nas 12 horas que passaram até que escrevo isto, tem sido um dia difícil ainda por cima porque o vento sopra acima dos 25 nós de Sudoeste , que é a direcção para onde queremos ir. Já houve umas abertas, as velas já subiram para voltarem a descer logo a seguir e ainda não vejo o fim a isto. Além do desconforto e da falta de progresso o que chateia mais nestas alturas é a possibilidade de a qualquer altura se danificar mais  alguma coisa.

 

21/04

Vamos a andar literalmente para trás, a perder distância em relação ao destino,não há meio de  o vento se mostrar a nosso favor , a direcção não podia ser pior , resta-me ir descendo mais para Sul onde as probabilidades de encontrar ventos favoráveis aumentam. Porque é que foste tão para Norte , perguntam .Vim tão para Norte porque o objectivo era as Bahamas por uma rota de grande círculo, que dependia de duas  coisas : barco em condições plenas e informação meteorológica regular. Quanto à primeira , acabou assim que se partiram as peças na vela principal e agravou-se muito quando se perdeu metade da reserva de água. Quanto à segunda, o meu patrão não  é de confiança e , calculo que por uma questão de poupança nas comunicações, não me manda nada há mais de três dias , assim é difícil decidir. Acho que está a chegar a altura em que os custos de trabalhar para ele superam os benefícios, isto não pode continuar indefinidamente. Faz amanhã duas semanas que zarpamos de Las Palmas , o tempo finalmente começa a aquecer mas não há mais nada de positivo.

Quero ver se este dia me fica bem marcado na memória para quando estiver a pensar em aceitar outro trabalho destes. Ainda há pouco respondi curto ao tripulante que tinha uma pergunta perfeitamente legítima, o moço claro que se ressentiu, nunca me acontece e é sinal de que começo a ficar com os nervos um bocado desarranjados. Não só por causa da incerteza em quanto tempo mais vamos levar a chegar a Tortola, é também  pelo facto de depois de lá chegar  ainda me  faltarem  duas semanas sólidas para concluir o trabalho e voltar a casa  ; porque todos os dias aparecem coisinhas  novas como é natural num barco a velejar em alto mar mas que depois me vão de uma maneira ou outra cobrar; porque faz amanhã quinze dias que não tomamos um duche nem sabemos quando é que vamos poder tomar um ; porque como é costume culpo-me pela   maior parte destas coisas e porque desgraçadamente tenho a certeza de que as contas me vão sair muito curtas no fim.

E agora calo-me com  lamentações e prometo só voltar quando as perspectivas melhorarem. Porque têm que melhorar.

24/04

As coisas pioraram antes de melhorar , tenho um problema sério com o enrolador da genoa sobre o qual não vou elaborar sabendo que a maioria dos leitores disto é leigo em coisas de vela. Basta  dizer que há danos ,  o uso pleno dessa vela está comprometido e é mais uma coisa pela qual vou ter que responder.

Já há muitos dias que nem quero ver a distância que falta, sei que são bem mais de mil milhas e já dei por mim a  amaldiçoar o Mar e o Vento com um ódio tal que nem sei, mas pouco depois regressa a razão e a consciência de que estarmos aqui ou não estarmos não tem relação absolutamente nenhuma com as condições climatéricas , não há aqui nada contra mim. Nunca gostei de ler ou ouvir falar sobre aqueles que “lutam contra o mar” ou “os elementos” , sobre os que “venceram oceanos” ou “conquistaram montanhas” , são  das coisas mais estúpidas que se pode dizer porque para haver uma luta ou conquista tem que haver duas partes envolvidas e nestas coisas de desafiar os elementos só existe o esforço do homenzinho , os elementos não lutam contra nada.

O vento foi-se, como era normal,  agora resta saber quando é que se vai instalar no Leste- Nordeste  , a sua direcção natural quando sopra aqui nesta altura do ano.Enquanto não sopra vamos a motor , ainda tenho uma reserva aceitável de gasóleo que conservo com avareza  , a lição do ano passado bem aprendida: saí com a confiança fundamentada apenas na experiência prévia de que para Oeste de 50 graus Oeste “há sempre vento” , provou-se não ser bem assim e passei dias e dias à deriva e a arrastar-me , para chegar já nos vapores de gasóleo que não poupei quando devia . Não conto com vento para lá de 50W e vou ter que fazer umas 500 milhas à vela, dê por onde der, leve o tempo que levar.

Mesmo que , como espero , a garantia cubra as reparações e danos , já sei que não vou regressar com lucro suficiente para passar o Verão e fazer os investimentos que precisava , pelo que assim que chegar a Tortola vou dizer ao meu patrão para contar comigo para um dos tais barcos em Agosto. Não só por causa do dinheiro mas porque não consigo conceber terminar, ou suspender, a carreira com uma viagem tão má como esta.

Notícia boa , finalmente cruzámos o Trópico de Cancer , aparecem peixes voadores viva o calor.

25/04

No dia em que se celebra a Revolução penso nas coisas que se podem ter passado desde que deixámos terra há 17 dias. Será que o Sporting conseguiu voltar ao primeiro lugar? Será que o João Soares ainda passeia toda a sua classe pelo  ministério da cultura? Será que a Casa de Lannister está finalmente para cair? O que será feito  da  minha Sansa Starke? Será que houve mais umas leaks quaisquer que revelaram ao mundo indignado que, sei lá , a indústria do armamento fomenta guerras? Será que mais algum psicopata se fez explodir nalguma praça de Europa? Seja como for duvido muito que se tenha passado em 17 dias, ou vá passar em 25, alguma coisa de realmente importante , algum 11 de Setembro ou  uma declaração de guerra da Rússia à Turquia. Há uma probabilidade, bastante pequena é certo, de o Sporting se sagrar campeão enquanto eu estou no mar , coisa que me deixaria deveras desiludido porque coisas dessas não se podem celebrar sozinho , longe e ao retardador  .Por outro lado, se for o Benfica campeão , é uma bênção estar no meio do mar sem ter que os aturar.

Quanto a coisas mesmo importantes como o meu cão, sei que mesmo que tivesse havido uma desgraça não me iam dizer até eu regressar, e ainda bem porque de longe não podia fazer nada. No outro dia comecei a pensá-lo lá a ter um dos seus ataques epilépticos sozinho, sem ninguém para o agarrar, fiquei com um nó na garganta e  triste, tão triste.

Hoje está o dia mais bonito que tenho visto nas últimas semanas apesar de  não se ver uma nesga de azul no céu  e haver  nuvens baixas , carregadas e cinzentas . A visibilidade não passa de umas duas milhas mas há 15 nós de brisa de Leste que nos dão 7 nós de velocidade tranquila  na direcção certa , um bálsamo para a alma. Passámos  hoje a barreira das 1000 milhas de distância , daqui para a frente é sempre a descer.

26/04

Quando  pensava que tinham acabado os ventos contrários e que o único risco que corríamos era de falta de vento , e mesmo  esse já reduzido porque a reserva de gasóleo é sólida , eis a brisa a instalar-se no SSW e desde ontem à noite que voltámos à bolina , ou seja , contra o vento. Até ver ainda conseguimos manter o rumo desejado mas espantava-me pouco se dentro em breve estivéssemos afastados dezenas de graus . Já escrevi o relatório dos estragos, 3 páginas técnicas ,  ainda não o fechei em pdf para não desafiar a sorte porque nestes dias que faltam (5 , 7, 8 ?) ainda pode acontecer muita coisa.

Nunca estive tanto tempo sem um duche  , faz hoje 18 dias, não tinha vontade nenhuma de bater o anterior record de 17 e certamente nunca esperava que me acontecesse num barco que carrega uma tonelada de água e um dessalinizador. Continuo à espera de coisas boas que esta viagem me traga porque de desconforto, ansiedade, riscos, contratempos e incertezas estou farto.

27/04

Só não desisto porque não me valia de nada, estando a 700 milhas da terra mais próxima, não  resolvia nenhum dos meus problemas dizer ao Patrick “olha desisto, agora és tu o comandante, eu faço as minhas 8 horas de vigia , cozinho de três em três dias, ajudo a limpar o barco e o resto é contigo”.

Nem sequer é por causa da famosa falácia dos custos afundados, que explica a relutância que temos muitas vezes em desistir de uma coisa por causa do tempo, energia e recursos já investidos nessa coisa, desde uma relação pessoal a uma acção de bolsa, enganamo-nos a nós próprios pensando que “já fizemos tanto que desistir agora não pode ser”. Muitas vezes não só pode como deve ser,  porque persistir no erro ou numa causa perdida é muito pior do que abandoná-la e começar de novo. O que está perdido raramente ou nunca se recupera, é a mesma ilusão dos jogadores viciados que esperam sempre que a próxima mão vá compensar as 6 que acabaram de perder, ilusão que torna os casinos uma indústria de biliões.

Se estivesse num porto podia, caso o fusível me queimasse mesmo,  fazer o saco , dizer “desemerdem-se como acharem melhor , adeus e não mandem notícias” ,  ir até ao aeroporto mais próximo e voltar a casa. Já aconteceu e a primeira vez que naveguei num catamaran foi precisamente a substituir um skipper que tinha finalmente desistido. Mas não posso, ainda não estou completamente queimado, tenho aqui dois gajos que esperam que eu leve isto a bom porto e não só não têm culpa nenhuma como têm aguentado os contratempos e frustrações como uns valentes e de bom ânimo. Além disso voltar a casa nem que seja com pouco lucro ao fim de dois meses  de trabalho é melhor do que voltar com dívidas, pelo que tenho que manter a  dedicação e o esforço até ao fim. Esforço, dedicação e devoção, sem  glória.

Estamos a motor num mar que parece um lago, sem ponta de vento, a 740 milhas do destino e com gasóleo suficiente para cobrir 450. Tinha provisões para chegar a Fort Lauderdale, agora tenho para chegar a Tortola pelo que vou ter que reaprovisionar , mais uma despesa pela qual ninguém me vai compensar.

As calmarias, tal como as tempestades, são “actos de Deus” , como dizem as seguradoras : acontecimentos dos quais ninguém tem culpa. Actos de Deus.

Tenho pensado bastante  sobre  Deus e os seus Actos, na esperança de que Ele me fulmine com um raio acabando com os meus problemas e dúvidas ,  revelando de uma vez por todas a Sua existência e o seu desagrado  para comigo por estar sempre a negá-lo nos termos mais claros de que sou capaz.Já houve milhares de pessoas supostamente castigadas por Deus por O negarem,  outros berram contra Ele a vida inteira e não lhes acontece nada, o critério é  obscuro. Tem dias, e como seria de esperar de uma entidade que criou o Universo  e depois esperou 13 biliões de anos até se decidir a inventar a espécie humana ,paciência não Lhe falta. Gostava de saber quando é que ganhou esta paciência para com as fraquezas humanas, porque ainda há coisa de 3 mil anos arrasava cidades inteiras por serem muito dadas ao pecado (dizem-nos as Sagradas Escrituras) , mas nestes últimos séculos relaxou um bocado, se mantivesse o critério que o levou a destruir Gomorra , Nova Iorque já tinha ido há muito tempo.

Explicam-nos os católicos modernos (desculpem o oxímoro) que esse Deus castigador do Velho Testamento não é o Deus em que eles acreditam. É curioso, porque era esse mesmo em que acreditavam até há bem pouco tempo, e queimaram muita gente por contestar essa estupidez . Fico sem saber o que é que os fez mudar a ideia de Deus, do mauzão colérico do Velho Testamento  para o mais flexível de hoje em dia. Talvez tenha sido  a mesma coisa que os fez deixar de postular o Inferno das fornalhas  eternas com que condicionaram , aterrorizaram e extorquiram as pessoas durante séculos. Ao fim de dois mil anos de intrujice, de uma década para a outra , chega um papa e diz : sabem aquela coisa da inferno , danação eterna e tal? Aquilo a que até podiam escapar se nos pagassem, por mais vis que fossem, lembram-se? Era tudo figurado, não é bem assim, concluímos  agora .  Ah! , dizem as ovelhas acéfalas , ainda bem, graças a Deus! Em que é que devemos acreditar agora, até à próxima revisão? Os gays ainda são para condenar ou já são pessoas com direito à felicidade?

Perdoem-me , se quiserem , os religiosos , não quero ofender ninguém mas como às vezes a religião me ofende , como não consigo deixar de pensar nestas coisas  e tenho muito tempo, de vez em quando tem que ser.

Estou a pensar parar em St.Martin , colónia francesa na metade de uma ilha cuja outra metade é colónia holandesa. Chamar-lhes “colónias” é ser um bocado mau, chamemos-lhes “regiões autónomas”. É um assunto sobre o qual tenho que estudar mais porque o mundo está cheio de ex-colónias que passaram a regiões autónomas (ou departamentos ultramarinos e outras designações) enquanto outras passaram a países independentes, e está à vista que  resultou muito melhor para os primeiros do que para os segundos. No caso das independências só correu bem para os que passaram a governadores e ministros, quer-me parecer que  no fundo foram os únicos que alguma vez tiveram real  e concreto interesse na independência. Isto , naturalmente , é controverso e é provável que eu esteja enganado mas ainda assim intriga-me . Por exemplo, faz algum sentido haver um partido como o PAIGC , que se propunha ao mesmo tempo governar dois países que  em comum só tinham serem em  África e serem governados por portugueses? Como isto pareceu possível , legítimo e boa ideia ao ponto de lhe entregarem esse mesmo governo é um dos mistérios da História, tal como é misteriosa a exaltação de um imbecil como o Kwame Nkrumah que em menos de uma década conseguiu levar  o Gana da prosperidade e progresso à estagnação indigente . É certo que para as novas elites africanas a miséria independente sempre foi preferível à prosperidade dependente, especialmente porque a parte da miséria não lhes tocava a eles. É uma questão complexa que me interessa muito, mas falava era de St.Martin.

 

As razões para parar em St.Martin  em vez de carregar só mais 60 milhas para Tortola são 4:

1 , as peças para a vela só chegam a Tortola dia 3 e antes delas chegarem não tenho vantagem nenhuma em estar lá , até porque não gosto de Tortola.

2, em St. Martin a moeda é o euro, pelo que podia comprar as provisões e levantar o dinheiro  que me resta na conta sem ter que pagar aos chulos infernais do banco pela conversão da moeda para dólares, a brincar a brincar são sempre umas dezenas .

3, tudo é mais barato em St.Martin do que em Tortola e do porto onde penso arribar lá pode ir-se a pé  ao supermercado ( e aos  bares)  ao passo que em Tortola vou ficar  num ermo vazio de onde sair me custa sempre 20 ou 30 dólares em táxis.

4 , posso ir à internet e adiantar muita coisa para a tempestade de papel que se aproxima , já tenho um relatório técnico de 3 páginas que espero não vá  aumentar. E por fim, não é uma razão por si nem são as 60 milhas que fazem a diferença mas esta coisa de mais de 20 dias com água restringida está-me a mexer com os nervos, passa-nos para um nível de dificuldade superior  e antecipar o fim disto por 12 horas vale a pena.

Por isto tudo a menos que se levante e mantenha uma brisa decente nestes próximos dias , é para arribar a St.Martin e que seja o que eu conseguir fazer.

29/04

Ia dizer que faltam só três dias para Tortola mas digo antes que faltam só  500 milhas , para não tentar a sorte. Vamos a 7 nós na direcção certa com o pano todo num mar de senhoras debaixo de um sol lindo, a vida como ela devia ser. Tenho esperanças de ter finalmente chegado à faixa dos ventos alíseos, que já não falham. E se falharem ainda me resta gasóleo para mais de 350 milhas. Já não vou parar em St.Martin, especialmente porque os ânimos já andam  exaltados  pela Florida , recebi uma mensagem a dizer que o dono do barco está no pontão à espera em Fort Lauderdale,  sempre a pedir actualizações. Dizer “no pontão” é a maneira de mostrar  impaciência. Limitado pelos 160 caracteres que posso mandar em cada email sugeri que ligassem o homem ao meu sistema de rastreio, assim ele podia acompanhar o progresso do barco em tempo real e se não fosse estúpido (por outras palavras) podia fazer ele as contas e ver quando é que eu chegava. Também os referenciei às minhas datas originais estimadas de chegada, que antes dos problemas e desvio me punham nas Bahamas dia 4 , e sendo assim não faço ideia do que é ele está a espera no dia 28 , a menos que imagine que os danos e desvios nos fizeram andar mais depressa. Também me mandaram apagar o nome que tenho no barco e livrar-me dos papéis actuais, é para dar entrada como barco novo indocumentado  em vez do registo temporário inglês. Respondi que sendo assim o único documento  que tenho a bordo é uma fotocópia de uma guia de exportação passada a um modelo diferente e sem sequer um número de casco, pelo que  não deve haver problema nenhum com a alfândega. Tenho que moderar o sarcasmo, às vezes é mal recebido mas outras  vezes resulta , disseram-me pouco depois  que quando chegasse tinha no meu email documentos a sério. Isto vai obrigar-me a encontrar internet e uma impressora antes de poder ir à alfândega, coisa que não é assim muito simples numa ilhota ridícula como aquela onde espero aportar , Virgin Gorda , mesmo ao lado de Tortola e onde costuma ser mais simples tratar das formalidades . Que só se tenham lembrado de me mandar os papéis agora criando-me assim um problema novo não me espanta nada.

E pronto , passaram oito horas e  faltam outra vez quatro dias  e meio , a nossa bela brisa foi-se com o dia , baixámos as velas e cá vamos a motor , a baixa rotação e velocidade poupando escrupulosamente o gasóleo que resta. Amanhã, quem sabe ainda esta noite ,o vento voltará. Estive mesmo para abrir uma garrafa de vinho ao jantar, para celebrar aquele ponto em que está resolvida a  equação tempo/distância/vento/gasóleo mas ainda bem que não o fiz , a variável vento está variável demais….

01/05 Domingo

Pelo quarto dia consecutivo dá-se uma coisa muito interessante que nunca tinha visto: a brisa está estável, bonançosa  durante a manhã toda. Pelas quatro da tarde começa a cair, pelas seis ligamos o motor, pelas 8 desaparece completamente e arriamos as velas. Por volta da meia noite refresca outra vez , içamos as velas e seguimos assim até às quatro da tarde , altura em que começa a cair outra vez. 4 dias seguidos nesta regularidade, é interessante.

Parece que vamos ter que abrandar para não entrar a meio da noite, não é que me meta medo ou que não conheça o porto, é que nestas circunstâncias não me serve de nada chegar  antes de começar o dia. E desse modo também posso oferecer-nos uma recompensa estética, a aproximação às ilhas e entrada no Canal  pela alvorada,  se a manhã estiver limpa é muito bonito, especialmente à vela. Ainda não sei se vamos entrar pelo Norte ou pelo Sul , vai depender do vento em coisa de poucos graus.

Se for pelo Norte o nosso ponto de aproximação  é Necker Island , a ilha do Richard Branson que tem um resort onde o 1% chega a pagar 50mil dólares por uma noite, ouvi dizer. Rio-me dessa gente, que nunca tem dinheiro que chegue , nem paz , passa a vida atrás  de mais dinheiro e angustiada pela possibilidade de perder o que tem e consumida pela comparação com os que têm mais do que eles.

Se for pelo Sul chegamos a  um canal entre um recife chamado The Blinders e uma ilhota chamada Fallen Jerusalem , uma passagem que gosto de fazer não só porque é um atalho mas também porque é proibida aos navegadores de charter , que são 90% dos que andam pelas ilhas.

Sendo assim vão ser 25 dias sem ver terra ,acho que  igualo mas não bato o meu record de permanência no mar ,  tenho algumas dúvidas porque em 2009 fiz Las Palmas – Fort Lauderdale directo e já não sei se foram mais de 25 dias , tenho que ir procurar aos registos. Nesse ano estava com muita pressa, pensava que me ia casar e ficar a viver nos Estados Unidos. Lições muito duras, sobre navegação e sobre pessoas.

Hoje tiro mais uma hora ao relógio, estamos no meridiano 60W e  no fuso das Caraíbas. Já tenho a cabeça cheia  de planos e listas para lidar com os problemas todos ao chegar a terra, mesmo sabendo que muitos  são absolutamente imprevisíveis.

3/05

São 3 da manhã , tenho a ilha de Anegada a ficar para trás a estibordo  e à proa as luzes de Tortola de um lado, Virgin Gorda do outro,  levo rumo à segunda e vela reduzida para estar à entrada do porto  quando nascer o dia , a noite da chegada costuma ser noite em claro.

25 dias de navegação , e se já houve várias viagens em que chegava a esta altura , à aproximação da chegada , e só me apetecia não parar e continuar , esta não é uma delas.Esta escala é como uma avaliação intermédia , não é o destino do  barco mas vou parar para reparações na base da empresa que o vende e na Florida está toda a gente à espera do relatório do técnico chefe , e do meu , para perceberem o que se passa e fazerem contas às reparações e atrasos.

Não tenho ilusões absolutamente nenhumas , ninguém vai ter um pingo de simpatia pelo facto de termos concluído uma transatlântica em 25 dias com água racionada e reparações de fortuna nas velas , e sinceramente simpatia não me interessa , interessa-me sim colaboração e compreensão , mais uma certa medida do que isto envolve , mas também não espero isso. Já sou velho demais nisto para ter essas ilusões, espero só que ninguém me faça zangar , nunca me ajudou nem está para começar agora.

Não faço ideia de quem é o dono deste barco mas sei que quem lho vendeu e fez promessas para eu cumprir dificilmente alguma vez passou uma noite a navegar ; que o director da empresa contesta contas de cem dólares , para ele os trocos do almoço, pelo simples prazer de discutir e contestar ( disse-mo uma vez pessoalmente) e menos ainda espero do meu patrão, que lida com estas coisas numa base semanal e que uma vez , recebendo uma gorjeta de um cliente agradecido à tripulação passou à mesma tripulação metade da mesma, para que se veja o calibre da peça. O pessoal da base não é particularmente simpático, não fosse isto as Ilhas Virgens, e a verdade simples é que de nós esperam-se barcos impecáveis e a horas. Falhando uma ou ambas estas coisas temos que passar logo a jogar à  defesa .  Verificando-se ambas as coisas também não é muito melhor, não fizemos mais do que a nossa obrigação. “Querias que te déssemos uma festa?” , perguntou-me um dia o Scott depois de uma chegada. Não, queria apenas ver o meu trabalho valorizado e reconhecido, às vezes uma palavra basta mas poucas pessoas percebem isso. Eu percebo, e também é por isso que me dou tão bem com as tripulações e os convenço a virem comigo para toda a parte e a passar o que for preciso: porque sei reconhecer-lhes o valor e dizer-lhes o que toda a gente gosta de ouvir para se sentir apreciado e parte de algo importante: uma palavra de atenção , encorajamento , agradecimento e simpatia pode fazer a diferença. Do outro lado não  percebem isso , nem precisam  , se não fosse eu a trazer este barco era o seguinte de uma lista interminável de candidatos que não são à partida melhores nem piores do que eu.

Não estou descontente comigo, é sempre possível fazer melhor e anotei alguns erros ao longo do caminho mas sei que me safei bem. É difícil quando nos medimos contra a perfeição. A aposta na rota directa pelo Norte foi claramente um falhanço mas podia facilmente ter sido um triunfo. Na minha mente, claro está . Tenho agora uns dias de trabalho sério  , a começar já daqui por quatro horas ,  como de costume não sei onde vou estar amanhã à noite mas pelo menos já não vai ser em alto mar.

A vida

É sempre uma curiosidade

Que me desperta com a idade, interessa-me o que está para vir.

Quero é viver

 

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One thought on “Arribado

  1. Quem disse que ninguém vai dizer “bom trabalho , rapazes , Eu digo
    e estimo muito que os que não dizem que se fodam.
    Esforço, dedicação, devoção,e glória, claro como bom Sportinguista.
    Grande aventura, mais uma , bons ventos grande abraço. Força.

    Gostar

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