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Isto Muda Tudo

Acabei de ler  “This Changes Everything” , o livro de Naomi Klein sobre o aquecimento global , e como tinha dito volto a falar nele porque  a questão é crucial , o debate é intenso e quero dar a minha contribuição. Aviso já que isto é longo, um gajo no mar tem muito tempo para pensar detalhadamente sobre muitas coisas e tempo sem nada melhor ou mais útil para fazer do que escrever.

Primeira declaração prévia  , tenho pouca  consideração por comunistas nas suas passadas e presentes encarnações , variantes e disfarces e pelo  maniqueísmo herdado do Marx que ensinou ao mundo que os pobres são intrinsecamente bons e os ricos são intrinsecamente maus.

Segunda , não foi por acaso que escolhi viver numa ilha pequena e remota que é Reserva da Biosfera. Foi muito por ter consciência clara da insensibilidade humana , de cima a baixo , e das suas consequências para o ambiente , por querer salvar-me e  esforçar-me por não  fazer parte do problema . Isto tem  custos , para viver lá há que prescindir de muitas coisas , eu  vou continuar nesse caminho de simplificação ,  consumo mínimo e conservação máxima  mas durante as 466 páginas deste  livro que pretende mudar tudo não li um único apelo sentido à rejeição do consumismo ,  seus confortos e hábitos, há no máximo um apelo ao “refrear do superconsumismo”. A acreditar nos dados e projecções apresentados isso não chega para nos impedir de cozer em lume brando nas próximas décadas , e  acho  muitíssimo difícil traçar a linha que separa consumismo de superconsumismo ( overconsumption , no original).

Para a autora  o problema é sempre quem faz e vende a gasolina e nunca quem a compra e queima . Li a cada passo a exigência  que se  mude de energia , que se confronte a indústria e que os governos nos proporcionem uma vida mais limpa, saudável e próspera.  Esta análise, o modo como foi feita e publicada (viajando constantemente de avião por todo o mundo e usando a fundo todas as ferramentas e conveniências criadas pelo Capitalismo)  ofende-me o sentido lógico de tal maneira que tive que anotar o livro e  comentá-lo aqui. Tal como muitas vezes se aceitam sem discutir as patranhas e mistificações do lado capitalista da questão também de vez em quando chegam estes Apóstolos da Verdade como a sra Klein e são levados em ombros como profetas.

A primeira questão séria é que na opinião da NK a culpada da crise climática é simples de encontrar : é a indústria multinacional capitalista , e a solução está numa acção mais intensa  de  governos mais poderosos e interventivos e em  restringir (quando não eliminar) o capitalismo. Gostava de lhe perguntar , a ela e aos Varoufakis Mortáguas  Varelas de Sousa Santos deste mundo , que benefícios do capitalismo propõem  eliminar para que se possam eliminar também certos custos , ou se no universo onde vivem há  benefícios sem custos.

Ignora-se que tudo o que a indústria fez e faz tem a aprovação, regulação e apoio dos governos, as industrias não operam num vácuo institucional nem há uma só indústria poluente que não esteja sujeita à supervisão e jurisdição de algum governo. São os estados e governos que autorizam, licenciam, adjudicam, regulam, taxam e subsidiam as indústrias. Por vezes dá-se a ideia de que por exemplo a Shell desembarca numa costa, descarrega equipamento e começa a perfurar sem dar cavaco a ninguém.

 Para a autora o problema  de os governos pelo mundo todo terem falhado  miseravelmente na tarefa de defender os cidadãos dos excessos da indústria resolve-se com mais governo , mais economias planificadas , decisões centralizadas , nacionalizações e mais impostos . Levamos  mais  de um século  de governos que permitiram chegar onde estamos mas o problema resolve-se com mais poder para os governos , que presumivelmente desta vez ,liderados por revolucionários esclarecidos , seriam impermeáveis à incompetência , ganância e corrupção. Talvez como o PT, o partido socialista do Brasil que tão bem soube fazer a ponte entre a indústria da energia  e o interesse do povo. Não sei o que a leva a ignorar que a parte de leão do problema está precisamente na acção (e inacção) dos governos pelo que dar-lhes mais poder não resolve nada, a menos que nos queira convencer de que subitamente, perante a ameaça de mais 4 graus de temperatura média , podemos aspirar a  ter pelo mundo governos limpos e competentes , saídos talvez de manifestações de rua  e assembleias populares. Que há uma nova geração capacitada e pronta a formar governos impolutos e que os defeitos dos governos não são congénitos .

Entre as propostas  mais estúpidas   está a criação de um rendimento básico anual , um salário dado a toda a gente independentemente do rendimento (!) , como reconhecimento de que o sistema não pode proporcionar emprego a toda a gente e que é contraprodutivo forçar pessoas a trabalhar em empregos que simplesmente alimentam o consumo . No dia em que esse rendimento básico geral fosse instituído eu estaria na primeira fila para o receber, na segurança de que nunca mais teria que trabalhar na vida porque  alguém trabalharia por mim e podia dedicar-me a coisas de que gosto mas que não rendem nada, tipo ficar deitado a ler enquanto um gajo qualquer numa mina partia as costas ou uma professora ensinava matemática  para depois dividirem  comigo o fruto do seu trabalho.  Uma espécie de ideal para muita gente, deve ser isso a justiça económica de que falam. Ou talvez  só os ricos seriam obrigados a sustentar madraços como eu , porque é sabido que os ricos não trabalham nem o merecem ser e que espoliar os ricos sempre resultou em maior bem estar e prosperidade  geral , é ver Cuba , etc  . O comentário da NK a esta ideia :

Um rendimento básico que desencoraja trabalhos merdosos (sic) e consumo que desperdiça também teria o benefício de providenciar segurança económica às comunidades (….) .Chamo a vossa atenção para a dicotomia trabalhos merdosos /outros trabalhos, tornando bem claro que há trabalhos que nem merecem ser feitos. Quem se ocuparia dos trabalhos ditos merdosos e onde é que  isso  deixa a dignidade dos que os fazem hoje será talvez abordado num próximo livro porque não merece  consideração neste.

Propõem-se “mecanismos de re distribuição climática”, que  consistem em taxar ao máximo  possível os ricos e as empresas que poluem e distribuir esse dinheiro pelos países pobres. Depois de elaborar sobre umas quantas medidas a autora diz : “para afirmar o óbvio: seria incrivelmente difícil persuadir governos em quase todos os países do mundo a implementar os mecanismos que enunciei”. Pois, de facto é obviamente impossível  mas apesar disso propõe-se . Admitir que é virtualmente impossível já não é mau, mesmo que se  ignore que no trimestre seguinte a aumentar em 100% os impostos a uma empresa ela fechava ou migrava e que no mês seguinte a aumentar os impostos dos milionários em 100% eles mudavam de país . A menos que acredite que com a força da justiça do seu lado vai conseguir fazer 200 países concordar num regime fiscal comum mais valia nem sequer falar nisso, mas não pode ser porque ideias que apelam  às massas devem ser divulgadas mesmo sendo  à partida irrealizáveis. É assim que se conquista público, há quem lhe chame enganar deliberadamente as pessoas, fenómeno também conhecido por “demagogia”.

Debruça-se sobre a questão do “localismo” , como boa activista anti globalização e anti comércio livre , defende que os governos devem contratar bens e serviços locais . A razão pela qual os governos se estão a virar para políticas de aquisição e contratação local é porque fazem sentido politicamente. É, fazem todo o sentido politicamente mas não fazem nenhum sentido economicamente, se o objectivo é a utilização mas eficiente possível dos recursos. É verdade que esse raramente é o caso dos governos, porque o dinheiro que gastam não é  deles. Um pouco mais adiante admite que qualquer resposta à crise climatérica com alguma hipótese de sucesso vai criar não só vencedores mas também perdedores – indústrias que já não conseguem existir na forma actual e um número significativo  de trabalhadores que vão ficar sem  emprego. Alto, que um dos maiores dramas da globalização é, segundo o seu outro livro “No Logo” , precisamente esse : o número significativo de perdedores com a globalização das actividades  económicas. Afinal a relação entre perdedores e vencedores tem que ser lida à luz dos fins em vista: se concordamos com eles podemos tolerar uns milhões de perdedores , é para o bem comum. Se discordamos dos fins, o facto de os meios causarem igualmente perdedores já é dramático . Gostava de saber se é a minha interpretação que é errada ou se é mesmo simples  desonestidade intelectual .

Uma secção debruça-se sobre a alegada catástrofe que foi a privatização dos caminhos de ferro Britânicos e sobre os problemas que trouxe, problemas que nunca vamos poder comparar com os que haveria com a manutenção das linhas pelo  Estado porque , lá está, isso não sucedeu. É outra mania, comparar o que é com o que podia ter sido quando sabemos bem o que é mas não temos maneira  de saber como teria sido se.  Aqui ela diz (…) se fosse esse o caso, o povo Britânico – com a crise climática em mente – poderia ter decidido há muito tempo re-investir os lucros das ferrovias  no sistema de transportes públicos (…)  Além do “poderia” e dos recorrentes exercícios em contra factualidade há aqui um vício de raciocínio muito pior : é que o povo Britânico , ou Ganês ou Argentino , não decide NADA enquanto povo , quando muito faz uma escolha periódica entre meia dúzia de figuras que se propõem representá-lo e  decidir em seu nome. Isto não é de somenos, esta ilusão antiga de que há uma vontade popular, que existe uma determinada vontade colectiva de um povo para além da escolha limitada dos seus governantes.Há opiniões maioritárias ou minoritárias, ideias aceites ou rejeitadas por determinado número de pessoas mas a ideia de que o povo é quem mais ordena  não resiste nem nunca resistiu ao teste da realidade. O povo é uma entidade abstracta sem existência real, há  cidadãos que se agrupam e desagrupam conforme os seus interesses e tendências individuais, nada mais do que isso. A quem concorda com ela sobre estas possíveis e desejáveis decisões do povo sobre as empresas públicas pergunto quando foi a última vez que vos chamaram a decidir sobre a política de  investimentos da  CGD , por exemplo. A ideia de que o povo decidiu ou podia decidir isto ou aquilo só cabe na cabeça dos que pretendem falar pelo povo e, claro, dirigi-lo.

A seguir consideram-se  possíveis soluções tecnológicas para o aquecimento global, nomeadamente a chamada geoengenharia,  e aqui concordo com a autora, parecem-me todas arriscadas demais e tendem a ser apresentadas como a proverbial bala de prata que vai resolver a questão e permitir-nos continuar a queimar combustíveis fósseis à doida. Desconfio dos salvadores tecnológicos como desconfio dos salvadores ideológicos, enfim, desconfio de  salvadores em geral. Apesar disso tenho um grau elevado de confiança na Ciência pelo que me espantou que o capítulo seja  apresentado   com a seguinte citação : “A nossa ciência é uma gota , a nossa ignorância um mar” , frase dita por um William James em… 1895. É preciso ser ou muito ignorante ou muito tendencioso para sequer pensar em comparar o estado da ciência  em 1895 e em 2015. A ciência  contemporânea permite conhecer o perigo climático  em que estamos metidos , para não falar dos incontáveis progressos e triunfos que vimos neste último século e que seria fastidioso enumerar , mas para a NK , os níveis relativos  de ignorância científica são parecidos com os de 1885 , para fins de desencorajamento de  soluções tecnológicas para o aquecimento global. Esta atitude perante a Ciência é típica :  é forte e credível se confirma as nossas opiniões , caso contrário é uma gota no Oceano da nossa ignorância. Não tenho dúvidas sobre as  lacunas no nosso conhecimento científico mas uma opinião sobre a extensão dessas lacunas  em 1895 não ilustra nada .

Somos apresentados à triste realidade da minúscula  ilha de  Nauru, no Pacífico Sul  onde hoje em dia a maior parte da população tem graves problemas de saúde e a economia é anémica e distorcida . Nos anos 70 e 80 Nauru era apresentada como história de riquezas obscenas, um pouco como o Dubai hoje em dia. Em 1985 o PIB per capita de Nauru era o maior do mundo. Toda a gente tinha educação , saúde e habitação gratuitas , toda a gente tinha motos e carros , o chefe da polícia ficou célebre por andar por uma ilha 20kms2 num Lamborghini. Havia festas opulentas por qualquer pretexto , ofereciam-se às crianças nos seus aniversários almofadas forradas de notas de cem dólares , enfim , montes de dinheiro por todo o lado. De onde vinha este dinheiro? Dos fosfatos. A ilha acumulou naturalmente ao longo dos milénios uma capa de fosfatos quase puros com imenso valor de mercado como fertilizantes. Hoje Nauru é uma casca de ilha cujos habitantes rebentam de diabetes , não produzem nada e andam pelas ONGs  a mendigar atenção e ajuda. Nos anos 60 as empresas extractoras tinham já consciência dos limites da exploração e a Australia ofereceu aos nauruenses habitação permanente lá quando os recursos acabassem.

A lição que a NK retira daqui? “Nauru foi desenvolvida para desaparecer, considerada pela indústria e pelo governo Australiano como descartável. Quando o país ganhou  a independência em 1968 fez planos para investir os rendimentos das minas(…) mas o plano falhou e a riqueza da mineração foi desperdiçada.”

Como sempre, o problema  foram as empresas extractivas, não foi a incompetência e corrupção do governo cujo “plano”   falhou, nem a apatia e ganância da população. Quem ler a história como a NK a conta poderia pensar que as empresas desembarcaram , chegaram os indígenas para um canto e começaram a levar os recursos . Quer fazer-nos crer que a culpa da desgraça de Nauru é de quem lá descobriu , explorou e pagou  pelo que tirou , não é dos donos dos recursos que os venderam e  em vez de pensar no futuro pensaram em Lamborghinis. Da próxima vez que virem um embaixador de Nauru a exigir que o Ocidente tenha pena deles e lhes dê dinheiro, perguntem-lhe sobre o tamanho dos sacos de notas de cem que recebeu no seu primeiro aniversário.

A responsabilidade  é sempre dos outros, mesmo que o governo tenha sido, como de costume , corrupto e incompetente e que a população só se começasse a preocupar  com a situação quando acabou  o dinheiro , como na Grécia. Não aceito isto, este é o pior exemplo possível para ilustrar as tribulações dos povos indígenas no nosso século.

Uma das contribuições mais importantes apresentada para a resolução do problema do aquecimento global  é o desinvestimento/reinvestimento: o movimento já é bem notório e leva investidores privados e públicos a desfazerem-se das suas acções nas empresas extractoras  , aos biliões.  Diz esta lógica que quanto mais investidores se afastarem das indústrias poluentes menos capital, político e financeiro , estas terão e , consequentemente , menos poder e liberdade de estragar. Os investidores, alertados para os malefícios dessas  indústrias, retiram delas o seu capital, investem-no em indústrias mais focadas em energias limpas, que pensam e pesquisam um futuro sustentável.Ora isto é um mecanismo puramente capitalista : uma empresa apresenta um produto e processo que é crescentemente mal visto e comprovadamente nocivo a vários níveis; os consumidores reagem;  essa informação chega aos investidores; os investidores retiram-se para indústrias com produtos que serão mais lucrativos e viáveis no futuro; as indústrias sujas definham e as limpas florescem. Tudo no mais estrito capitalismo,  que 200 páginas antes NK nos assegura que é a causa de todo o mal e por conseguinte nunca poderá ser parte da solução. É obra.

Tinha mais quatro ou cinco marcas em  parágrafos para mim muito contenciosos mas isto já vai longo e acho que já me expliquei .  No último capítulo a NK fala-nos (com demasiado pormenor) sobre as suas angústias decorrentes de ter ovários defeituosos e ter tido  dificuldades em reproduzir-se, tristeza que se tivesse pesquisado bem poderia certamente   atribuir  às acções de  alguma multinacional . Felizmente sendo Canadiana tem um sistema de saúde gratuito e de topo,  pago pelo governo  com dinheiro que cai do céu , porque as companhias canadianas e que operam no Canadá não contribuem  para o orçamento de Estado nem o tornam rico. O  traço comum a pessoas como ela : apreciar  os benefícios da modernidade rejeitando os custos .

O livro termina (2014) pondo a esperança  nos movimentos sociais , desde a Primavera Árabe até ao Movimento das Praças na Europa (?) e  numa noção lãzuda inventada por um jornalista , a “efervescência revolucionária” , que postula que havendo estes movimentos de massas eles se tornam contagiosos, ganham vida própria e podem mudar o sistema. Tem corrido bem, a efervescência. Esteve na Grécia ( esteve em todo o lado , não sei se alguma vez limpou lixo ou começou uma horta na sua cidade nem  que percentagem dos seus rendimentos  manda aos índios da Amazónia mas corre o mundo para relatar o mal que pode fazer correr o mundo) e preparava-se para entrevistar  o Tsipras , “uma das poucas esperanças de uma Europa devastada pela austeridade”. Quando se usa com ligeireza palavras como “devastação” , seja sobre política seja sobre ambiente, correm-se riscos  sérios ,se calhar no Canadá a história do Pedro e o Lobo não é contada às criancinhas. Gostava de saber que termos usaria alguém que descreve a Europa de 2014 como “devastada” para descrever a Síria de 2015, mas é certo  que os jornalistas não são obrigados a dominar a linguagem , excepto para fins de manipulação de opiniões e distorção de factos.

Não sei o que vai ser de nós mas aposto à vontade que o que a Naomi Klen defende que se faça não vai acontecer , porque os métodos que ela propõe são impraticáveis . De qualquer maneira , é preciso é que as pessoas tenham consciência do que se passa , o que fazem com essa informação , já depende de cada um.

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2 thoughts on “Isto Muda Tudo

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