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Galiza

Nem sei porque é que ainda me dou ao trabalho de fazer planos e itinerários com certo detalhe , acho que não me lembro de alguma vez alguma viagem ter corrido como a projectei à partida .  Isto pode parecer apelativo para quem costuma viajar com  reservas de hotéis e bilhetes de ida e volta e gostava de ter um bocadinho de imprevisto e espontaneidade nas suas viagens mas às vezes dou por mim a pensar que gostava  de um dia fazer uma viagem assim simples , de acordo com um plano , especialmente porque para mim imprevistos ,  atrasos e desvios acabam sempre por se traduzir em despesas e preocupações acrescidas , já para não falar  naquela ansieadadezinha que aparece sempre em maior ou menor grau de cada vez que tenho que entrar num porto de recurso , pela simples razão de que a maior parte dos estragos acontece é nos portos e este , para dar o exemplo corrente , é um barco com valor facturado de 905 mil euros , novo a brilhar e esperam que eu o entregue nas mesmas condições noutro continente . O peso que isto me põe nos ombros é considerável , de cada vez que tenho que fazer uma escala  aumentam os meus riscos de se estragar alguma coisa , por pequena que seja. Por exemplo se engato  a manobra de acostagem e faço um risco no tal “autocolante”  azul que envolve este  casco já tenho um problema que não se resolve com um paninho e detergente e sim com um autocolante novo …   O facto de estar determinado a fazer desta a última viagem ainda me põe mais pressão para não falhar nada mas alguma coisinha falha sempre , nem que seja uma previsão meteorológica.

Os atrasos burocráticos só me permitiram zarpar de Bordéus na terça ao raiar do dia , podia ter esperado umas horas mas também quis sair antes de chegar o pessoal do estaleiro.Isto porque se a manobra corresse  bem ( estávamos encostados a outros barcos na doca e o rio corre a mais de 5 nós) ninguém dava por ela mas se me falha alguma coisa a vergonha seria pior do que qualquer estrago.

Lembrava-me bem de quando  estive em Bordéus pela primeira vez em 2003 e o meu imediato , enquanto eu estava nos escritórios a tratar de papéis , lembrou-se de adiantar serviço para a manobra de largada mas as coisas escaparam-lhe da mão e quando cheguei à doca tinha o barco atravessado na corrente , quase a bater no da frente e já com estragos feitos. Levei quase uma hora para retomar o controlo da coisa , zarpei , subi o rio e quando quase dez horas depois cheguei à foz o patrão ligou-me a dizer que tinha que voltar para trás porque o barco tinha que ser reparado antes de sair do estaleiro. Subi as 50 milhas do rio e quando cheguei a Bordéus disseram-me que afinal estava tudo tratado , as reparações eram feitas no destino e podia ir-me embora , era estranho que não me tivessem avisado. Sim , também achei muito estranho , voltei a descer o rio e talvez tenha sido a primeira vez em que pensei que devia arranjar outro trabalho.

Estava a contar esta história ao moço que é hoje o director das entregas dos barcos e ele disse “ah , então foste tu , fazes parte da lenda!” . Não é exactamente a maneira mais agradável de se fazer parte da lenda , por isso queria assegurar-me de que a lenda não ia ser alimentada , fazendo a manobra com tempo suficiente ,  com muita calma , ponderação  e longe de  olhares curiosos.

A subida do Garonne e entrada no Golfo da Biscaia foi gelada e sem história. O barco é excelente ,  com bastantes pormenores de funcionalidade e equipamento e muitas coisas novas de que nunca tinha sequer ouvido falar , também nesta indústria há uma corrida permanente para inventar coisas mesmo que ninguém tenha dado por falta delas ou reclamado uma solução. Há inovações boas , como um sistema que permite recolher os lazy jacks para o mastro quando se iça a vela grande , para facilitar a manobra ; há inovações senão estúpidas pelo menos para mim inexplicáveis como o facto da escota da genoa ser passada por dentro do mastro antes de voltar a sair para o molinete. Há a eterna expansão da electrónica muito para lá das necessidades do navegador de recreio , com sistemas que a serem utilizados em pleno exigem que se passe mais tempo a olhar para um écran do que para o mar e agora tenho a possibilidade de ligar o sistema completo à internet , para quê ainda não me é bem aparente , longe vai o tempo em que as pessoas gostavam de ir para o mar para precisamente se afastarem da terra , hoje em dia o melhor que podem oferecer a um navegador de recreio é a possibilidade de dizer a toda a gente que está no mar , em tempo real.

Tinha enviado  como data provisória estimada de chegada à Florida o dia 4 de Maio , prevendo parar em  Cascais , Las Palmas , Tortola e Bahamas , passados quatro  dias estou num portinho de pesca chamado Camariñas , um pouquinho abaixo da Corunha ,  porque vem aí  vento contrário e forte  que não nos deixa descer a costa portuguesa. Isto rebenta já com o dia 4 como dia de chegada e está já a fazer-me pensar em não fazer escala nas Caraíbas e ir directo de Las Palmas para as Bahamas, retirando 700 milhas ao percurso mas obrigando a uma tirada de 25 dias em vez de uma de 17 e outra de 8 . Decisões que posso , e vou , adiar até chegar a Las Palmas.

Pensei em parar na Corunha , a minha cidade preferida de Espanha , mas o que via à minha volta não batia certo com a previsão meteorológica que já tinha 4 dias , mandei uma mensagem a um amigo a pedir uma actualização e contas feitas não precisava de me abrigar na Corunha , podia entrar em Camariñas. Vantagens desse porto em vez da Corunha , mais de vinte milhas mais à frente no caminho ; não implicava desviar do rumo e tecnicamente voltar para trás como quando se entra na ria da Corunha ; maior facilidade para abastecer de gasóleo e , por último mas não menos importante , a Corunha conheço de trás para a frente ao passo que aqui nunca tinha entrado e a oportunidade de conhecer um porto novo é sempre de aproveitar.

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Desde que aqui andei pela primeira vez que tenho ideia de que um mês ou mesmo quinze dias de navegação por esta costa e estas rias , no pino do Verão , devem ser das melhores férias que se podem ter na vida. A paisagem é magnífica , os portos são bons e às dezenas , as pessoas são simpáticas e muito mais próximas de nós do que os castelhanos , os preços não são maus, enfim , a Galiza vale a pena e recomenda-se.

Está tudo fechado ( menos o bar , felizmente) , eu lembrava-me  lá que amanhã é sexta feira santa, pela olhadela mais atenta que dei agora à meteorologia vejo que vou estar  aqui até segunda feira, nem mais nem menos. Antes aqui que a levar porrada no mar alto , vamos lá ver que encantos tem Camariñas.

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