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Pensamento Contrário e Aquecimento Global

Bertrand Russel é um dos meus pensadores favoritos e é considerado por muitos como a maior inteligência do século passado. Aqui há uns tempos estava a  lê-lo  numa colectânea que é uma espécie de breviário para ateus   e encontrei isto:

Se , como a maior parte da humanidade , tens convicções apaixonadas em certas matérias , há maneiras pelas quais podes tornar-te consciente do teu preconceito.Se uma opinião contrária à tua te irrita é um sinal de que no  subconsciente estás ciente de que não tens razão válida para pensar assim. Se alguém mantém que dois mais dois são cinco ou que a Islândia fica no equador , sentes pena em vez de irritação , a menos que saibas tão pouco de aritmética ou geografia que essa opinião abala a tua convicção contrária. As controvérsias mais selvagens são as relativas a assuntos para os quais não há provas definitivas para um lado ou outro.  A perseguição é usada em Teologia e não em aritmética porque na aritmética há conhecimento ao passo que na Teologia há opinião. Por isso quando te começares a zangar por causa de uma diferença de opinião , põe-te em guarda; vais  provavelmente descobrir , ao examinar a questão , que a tua crença vai para além do que as provas garantem.”

Passei que tempos de volta disto e fiquei mais consciente ainda da necessidade imperiosa de nos expormos a opiniões diferentes, quando não mesmo contrárias à nossa. Infelizmente não tenho muita ocasião de discutir  com quem tem convicções opostas às minhas , não só vivo bastante isolado e levo uma existência muito pouco social como , perdoem-me se puderem a arrogância , não discuto com qualquer pessoa , independentemente do que a pessoa acredita. Mas há jornais , livros , blogs e grupos na internet onde correm  debates e que são essencialmente abertos. A maior parte das pessoas , por conforto e facilidade , procura fontes de informação e discussão que confirmem e reforcem as suas crenças e isso é mau , precisamente porque se fecham nessas crenças e eliminam possibilidades de melhorar e evoluir.

Neste espírito comecei há uns tempos a esforçar-me por ler opiniões que não coincidem  com as minhas , por exemplo seguindo no Twitter pessoas como o Sérgio Lavos , lendo  colunas do Daniel Oliveira e passando por blogs como o Jugular . Ora isto são coisas sem custos para além do tempo, e quando por exemplo o Lavos se mostrou  intragável desapareceu da minha vista com um clique , mas falando de livros é diferente , não só  custam dinheiro como exigem uma certa dedicação para ler, e muito por isso a minha biblioteca é uma sequência  de autores e temas conhecidos e relacionados e nunca comprava  nada que para mim fosse  duvidoso , o raciocínio era “com milhares de livros publicados por autores que conheço , admiro e me dão prazer por que raio é que vou gastar tempo e dinheiro para me irritar com gente que à partida me desagrada?”

Bom , como defendia  o Russell , para me melhorar , conhecer os meus preconceitos e, se for caso disso , mudar de ideias. Foi nesse espírito , e por ter recentemente algum orçamento disponível para livros que comprei o último de uma autora  chamada Naomi Klein intitulado “This Changes Everything” , isto muda tudo . Na mesma ocasião também comprei o Mein Kampf , não porque espero ficar sensibilizado para os méritos do nacional socialismo alemão dos anos 30 mas por ser um documento histórico , se tenho  o Corão e O Capital e  abomino o Islão e o Marxismo , também tenho espaço na estante e tempo para ler  o Hitler.

A Naomi Klein é uma jornalista canadiana que fez ondas  aqui há uns anos com um livro chamado “No Logo” em que descrevia os problemas e iniquidades da globalização.Ela  detesta a globalização muito por causa dos  perdedores , na opinião dela o facto de milhões de pessoas serem prejudicadas invalida o valor de milhões de pessoas  serem beneficiadas. Recusa cálculos utilitaristas e nem os conseguiria fazer , é impossível demonstrar que nos últimos vinte anos houve  mais pessoas cuja situação piorou do que melhorou devido à globalização. É daquelas pessoas que tem dificuldades em levar um raciocínio até à sua consequência final , neste caso admitir que se somos contra a globalização e o comércio livre somos a favor de que cada país viva com o que se tem e se produz nesse país e que o comércio externo deve ser limitado.  A saída para este beco de raciocínio é dizer que somos contra esta  globalização , que devia ser diferente , mais justa , e parece que dizer isto nos dispensa de elaborar sobre o modo de o fazer, pelo menos a ela dispensa. Basta reclamar que outra política é possível até ser a nossa vez de a fazer , e nesse caso em geral descobre-se que afinal não é bem assim , temos um caso real bem recente e próximo no nosso actual governo e seus suportes. Ter razão ao apontar iniquidades não equivale a ter solução para elas.

Este novo livro , de 2014 , é sobre o aquecimento global e as alterações climáticas. Na visão e análise da N.Klein o culpado do aquecimento global e das desgraças que vão sucedendo e continuar a suceder é simples de encontrar: é o Capitalismo. Ela é das  que pensa que o capitalismo não é um  sistema , é uma ideologia , e que é nesses termos que deve ser combatido.

Para a autora não basta reconhecer que o aquecimento global é causado pelas actividades humanas , há que qualificar e enquadrar as actividades , são as actividades capitalistas que poluem e estragam. As actividades da economia  socialista  eram muito mais benéficas ao ambiente , como todos sabemos , e as actividades das pessoas de esquerda estragam menos que as das pessoas de direita, que são por definição mais brutas , insensíveis , incultas e egoístas .

Eu não nego a realidade do aquecimento global e das alterações climáticas , até porque só há dois tipos de pessoas que fazem isso hoje em dia : os idiotas e os que lucram com a poluição. Certamente  não vou  tentar contradizer a opinião e estudos de 97% dos cientistas climáticos do Mundo ou de instituições como o Banco Mundial. Outra observação engraçada sobre o modo de pensar da N.Klein : nas suas intervenções sobre a globalização o Banco Mundial é um dos instrumentos de opressão ocidental e está ao serviço dos poderosos. Quando toca ao aquecimento global já é uma instituição que devemos ouvir. Adoro estas contradições, especialmente quando os autores nem se apercebem delas.

Pessoalmente estou-me um bocado nas tintas para o aquecimento global . Não tenho herdeiros e a situação do mundo em 2070 não me interessa grande coisa , pode ir  tudo numa bola de fogo que para mim tanto se me dá, como é normal uma vez que estarei morto. Os meus queridos sobrinhos vão ter que se desenrascar como puderem e se não se desenrascarem também não vou ter pena , porque , lá está, os mortos não lamentam.

Apesar disso muito  antes de nos apercebermos ,  como sociedade , do problema das alterações climáticas eu já tinha para mim que a única maneira de morrer em paz era saber que fiz tudo o possível por deixar o mundo melhor do que o encontrei , não prejudicar ninguém e estragar o menos possível. Há muitos anos que me apercebi de que a maneira de levar uma existência pacífica e harmoniosa é reduzir as nossas necessidades ao máximo e consumir o mínimo , não tiveram que ser os esquerdistas nem os  órfãos  do comunismo  a esclarecer-me sobre os perigos , individuais e colectivos , do consumismo.

Acontece que eu defendo e defenderei sempre a liberdade individual e se alguém é feliz quando compra sapatos de 100 euros apesar de já ter uma  dúzia de pares  ou precisa de mudar de carro de dois em dois anos não sou eu que vou dizer “não faças isso, lembra-te dos que andam a pé , e descalços , e que a gasolina que queimas vai afogar  as Maldivas “. Esta vontade de pessoas como a Klein de querer orientar os comportamentos individuais e esclarecer-nos sobre como devemos viver a nossa vida é das coisas que mais me irrita no mundo. Gostava de saber como é o seu dia a dia , além de escrever livros a escoriar quem não pensa como ela , de que modo é que limita as suas emissões de CO2 e quais é que são os seus hábitos de consumo , o que é que lhe dá a pretensa autoridade moral que este livro transpira . É que a senhora descobriu que isto vai ser horrível daqui a 50 anos  quando teve um filho e começou a consumir-se com o futuro dele, como acontece a todos os pais. Eu podia dizer-lhe  que ter filhos é logo carregar o planeta com mais um consumidor e se o futuro da terra a angustia assim tanto a primeira coisa a fazer seria não se reproduzir , mas lá está , claro que ela deve ter a liberdade de ter 10 filhos , se quiser e os puder sustentar . E transportá-los todos num SUV gigante , se lhe apetecer.

Outro ângulo que achei interessante foi o traçar a origem desta nossa espiral de destruição colectiva à nossa moral judaico-cristã e à crença de que o Homem foi cá posto para dominar a Terra. Isto é outra característica de pessoas da categoria dela : não gostam da própria sociedade e cultura e passa-lhe por cima da cabeça o facto de que a China polui e destrói como se não houvesse amanhã ( se bem que tem melhorado) e a própria Índia está no caminho de níveis de poluição e destruição ambiental ocidentais , e parece-me que a sra Klein teria umas certas dificuldades em explicar a origem e carácter judaico-cristão dessas atitudes chinesas e indianas.

Perturba-me que a solução que ela julga possível passe sempre pelo  reforço do controlo estatal , aumento exponencial da despesa pública e   nacionalizações . Como isso tem ao longo da história resultado bem , é o caminho que ela defende. Estas pessoas são impenetráveis ao argumento que diz que o que o que é público é , regra geral , pior gerido do que o que é privado e parece nunca ter ouvido  falar da  tragédia dos comuns , que observa que se a propriedade é de todos vai ser explorada sem limite e o mais rápido possível , simplesmente porque é esse o interesse e incentivo individual dos envolvidos. Isto pode ver-se bem hoje em dia nos oceanos , a nossa propriedade comum , que é violada e depredada horrivelmente precisamente porque não é de ninguém  . Pode ver-se nas reservas cinegéticas , onde apenas as privadas conseguem manter as espécies e há muitos mais exemplos , mas não devem valer porque o que é colectivo é que é bom , o lucro é imoral e os indivíduos , sem a mão vigilante e interventiva do Estado , são perigosos e irresponsáveis.  Não a ofenderia por exemplo lançar proibições sobre o uso de automóveis e mandar fechar indústrias inteiras ou outras actividades que se julguem danosas , o critério será naturalmente definido por quem pensa como ela , pelos iluminados que leram os seus livros e “finalmente perceberam”. Nesse mundo que se salvaria do aquecimento global o indivíduo teria que se submeter ao interesse colectivo , a uma economia planificada e dirigida pelo Estado e ficar contente por isso.

Isto tudo e ainda nem vou a meio do livro, pelo que me comprometo a voltar a falar dele  quando o acabar, porque ainda espero encontrar mérito nas observações e propostas dela e porque é um assunto de suma importância para todos, quer acreditemos ou não , quer nos importemos quer não.

 

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One thought on “Pensamento Contrário e Aquecimento Global

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