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Partidas

Recebi uma mensagem de um amigo escocês a perguntar se tinha algumas dicas a oferecer sobre catamarans . Estava a caminho das Canárias para ajudar um proprietário que tinha tentado a travessia do Atlântico mas , resumindo a história  , teve medo e voltou  para trás. Medo e felizmente bom senso , voltou para trás em segurança e não desistiu , fez a coisa certa : contratou um profissional para o ajudar e ensinar, permitindo-lhe ganhar experiência e confiança.

Pensei bastante e a única coisa que me ocorreu foi dizer-lhe para reduzir pano cedo porque , ao contrário dos monocascos , não temos um limite visual claro de quando o barco está com vela a mais . Se temos água a cobrir o convés de sotavento é mais do que altura de rizar, num catamaran se temos água a cobrir o convés de sotavento já é bem capaz de ser tarde demais. Isto do ponto de vista de quem tem que fazer milhares de milhas , regatas é outra história. Os catamarans de cruzeiro não inclinam pelo que não há esse aviso claro. Esse meu amigo não só passou o exame prático de Yachtmaster comigo há 16 anos em  Southampton como chumbou o mesmo exame comigo numa primeira tentativa , coisa que nos destroçou aos dois ao mesmo tempo e assim criámos um laço forte, miséria partilhada , adversidade vencida e tal .  Enquanto nestes anos eu acumulava umas centenas de milhar de milhas ele acumulou três filhas mas ainda assim navegou muito como profissional ,  tem uma larguíssima experiência de instrutor e já fez várias travessias , por isso não tinha outras dicas a oferecer além de não carregar no velame  e outra específica dos catamarans , um “dispositivo” que eu uso para abrir o ângulo da genoa e que permite fazer o que eles não fazem de origem , que é navegar com as velas em tesoura , ou asa de ganso , nunca me lembro do nome em português mas demonstro  aqui , numa  foto  tirada há uns 8 anos em Tortola.

14 Apr 08_538

O meu amigo escocês está nesta altura a zarpar da ilha de Hierro para atravessar o Atlântico e do outro lado do mediterrâneo está outro amigo , a preparar a partida de Atenas noutro catamaran com destino às Caraíbas . Já lá passou o mês de Janeiro embrulhado na atroz burocracia grega , fizeram um pausa em Fevereiro e agora voltou , parece que desta é que é. Também vai parar em Las Palmas , para ele são mais umas oitocentas  milhas do que para mim partindo de Bordéus mas eu não parto antes de dia 20 e ainda vou ter que fazer escala em Cascais pelo que é um avanço decente e há hipóteses de nos encontrarmos em Las Palmas.

Por estar a “falar” com estes dois e a preparar a minha viagem comecei a pensar como é que vai ser quando tiver saudades das viagens oceânicas e das coisas boas à volta delas , se me vai custar. Acho que não , e mesmo que custe é um custo suportável. De qualquer maneira a minha licença de skipper é vitalícia , a minha experiência não diminui e não queimo pontes nenhumas.

O ano passado é que tinha sido excelente para terminar , não só a travessia foi impecável como foi a 25a e eu gosto de números redondos , mas acabo de consultar os meus registos e vejo que este vai ser o centésimo barco em que navego , e esse parece-me um número bem redondo  . O centésimo , 5200 milhas , 3 escalas , 45 dias ,  que não haja novidade.

 

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