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O suicídio

Quando andei pela universidade a fingir que estudava sociologia apresentaram-nos logo nos primeiros tempos um da meia dúzia de livros “fundadores” da disciplina. Um deles era “O Suicídio” , de Emile Durkheim , como o próprio nome indica , sobre o suicídio. O que o tornou original e fundador foi ser a primeira vez que se isolava e estudava um “facto social”, no caso o suicídio , como objecto independente de estudo cujo conhecimento nos permite compreender melhor todas as estruturas em seu redor.

Coisas que nós hoje damos por estabelecidas , como o facto de as taxas de suicídio serem maiores entre solteiros e viúvos do que entre os  casados , eram apenas conhecidas por intuição. Durkheim , com este e outros seus estudos , sistematizou o método e o conhecimento sociológico e abriu o caminho para a melhor compreensão da realidade.

Avança o filme 120 anos  e um escritor português decide publicar uma obra sobre , ou que aborda , o suicídio, concretamente no Alentejo. Chama-se Henrique Raposo ,  cronista do Expresso e não sei o que é mais , além de ser cronista e alentejano , para se abalançar numa obra assim mas quando jornalistas não têm pejo nenhum em apresentar livros de história , por exemplo, nada obsta a que o homem publique as suas teses sobre o suicídio entre os alentejanos , tema que sem dúvida deve ser interessante para muita gente.

Se o Henrique Raposo fosse um desconhecido sociólogo e publicasse um calhamaço soporífero sobre o tema passava despercebido excepto entre as pessoas que estudam o suicídio e o Alentejo , mas houve aqui um problema sério que já levou a ameaças de violência , petições para banir o livro, cancelamento do lançamento e a já clássica onda de asco inane nas redes sociais  . O problema é que o Raposo , além da visibilidade que lhe dá a coluna do Expresso , é assumidamente de direita , católico , conservador , enfim , o gajo enquadra-se perfeitamente no cromo que a Esquerda adora odiar , aguardando  como ave de rapina no seu galho a oportunidade para atacar qualquer presa que mexa. Um tipo destes , originalmente alentejano , que se faz à vida urbana e abraça tudo o que o Alentejo tradicional não é, e que tem a presunção de escrever incomodamente sobre um tema difícil , não podia esperar mais nada. Não tem o valor académico ( ou a estatura , que como no caso do Sousa Santos pode substituir o valor) para dizer “esperneiem à vontade, isto é ciência” e tem a carruagem de inimigos que coleccionou ao longo dos anos , inimigos com pouco ou nenhum discernimento e reacções viscerais, como se tem provado.

Não simpatizo nem leio o gajo , umas vezes que li achei que ele exagerava no ponto que queria marcar , ainda por cima é um lampião feroz , e não quero saber do Alentejo nem dos dramas sociais dos seus habitantes , tanto se me dá se o suicídio lá é mais comum do que por exemplo nos Açores e não me interessam análises nem teorias sobre o tema, e muito menos especulações . Sei que ele não tem o lastro suficiente para apresentar um  verdadeiro estudo sociológico e que nem era esse o objectivo.

O que também sei , e é por isso que escrevo sobre o tema , é que é uma prova enorme de imaturidade a todos os níveis esta histeria que se gerou à volta de um livro. Um livro, senhores. Os inimigos do Raposo até acham normal que se faça uma petição para impedir a divulgação de um livro  e isto é triste e atrasado. E também não me esqueço de que lado da barricada estão os aspirantes a censores , são os mesmos que rasgaram as vestes e clamaram horror quando um secretário de estado vetou a participação de determinado livro num concurso internacional. Há livros de que todos devemos gostar porque são intrinsecamente bons , há outros que até deviam ser proibidos de ser editados , vindos de onde vêm. Há que ir prestando atenção a estas coisas.

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