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Eutanásia

Parece que se está a debater uma alteração à lei da eutanásia , que tanto quanto sei ainda é ilegal em Portugal.

eu·ta·ná·si·a
(grego euthanasía, -as, morte fácil, morte feliz)

substantivo feminino

1. Morte sem dor nem sofrimento.CACOTANÁSIA

2. Teoria que defende o direito a uma morte sem dor nem sofrimento a doentes incuráveis.

3. Acção que põe em prática essa teoria.

Não percebo bem como é que alguém pode ser contra isto , não  estou preparado para aceitar um argumento em defesa do prolongamento doloroso de uma morte inevitável mas se ouvir algum coerente talvez mude de ideias. Como sempre nestas questões , tem que se ouvir a Igreja , que se arroga sempre a palavra final em questões de vida e de morte ,. e se por alguma motivo ( tipo ciência) lhes provam que estão errados podem sempre encolher os ombros ,  ignorar , adaptar-se e seguir como se não fosse nada , resulta bem há mais de dois mil anos.
Neste caso a Igreja acha que com a  “legalização da eutanásia, está-se a abrir uma porta muito difícil de fechar”. Pois , foi como com a legalização do casamento dos homossexuais , basta olhar em volta para ver a desgraça social que isso causou e o preço enorme que estamos a pagar por termos deixado os gays casarem-se.Tem sido horrível.
Quando confrontada com a questão do sofrimento incurável a Igreja defende que “é preciso gerar e intensificar presenças fraternas e solidárias junto do doente e promover mais e melhores cuidados paliativos para o sofrimento”. Calculo que por gerar presenças fraternas entendam ter pessoas de volta dos moribundos , preferencialmente religiosos , que vão explicando aos mesmos moribundos que o seu sofrimento faz parte de um desígnio divino e por isso ( mais explicações são desnecessárias) é positivo e deve ser aguentado. Esta fixação com a bondade do sofrimento , com o suposto valor dado por  Deus ao  sofrimento humano é das coisas mais perversas e  intelectualmente repugnantes na religião. Em garoto por esta altura da quaresma diziam-nos na catequese : tens que fazer sacrifícios e oferecê-los a Deus. Então escolhia-se uma causa , tipo os meninos esfomeados de Africa , e fazíamos “sacrifícios” por eles, como se o facto de uma pessoa sofrer tivesse alguma repercussão na vida de uma  pessoa ao lado ou do outro lado do mundo. Um Deus que num minuto  era só  Amor e Misericórdia no minuto seguinte já apreciava  e valorizava  o nosso sofrimento , por mais estúpido e inconsequente que fosse. Ensinam isto  ainda hoje às criancinhas na catequese ,  esperando  sempre que a percentagem de miúdos que se começa a interrogar e não aceita “porque sim” como resposta seja baixa.
A lógica do sofrimento e do martírio foi-me apresentada recentemente por um padre católico  como  pretensa prova da existência do Superior : o facto de os discípulos de Jesus Cristo se terem todos disponibilizado a morrer , e de morte cruel , por acreditarem nele quando pouco tempo antes o negavam  prova que testemunharam algo de Verdadeiro e Irrefutável . Se isso é argumento , a aceitação do martírio , bom , teremos que olhar melhor para o islamismo porque não há por essas bandas  falta de candidatos a morrerem pela sua interpretação da fé , para esse padre católico que falou comigo isto é prova de que aquilo em que eles acreditam é verdadeiro.
Mas voltando à exaltação do sofrimento feita pelas católicos para fazer as recompensas post mortem parecerem mais atractivas e  satisfazer a necessidade doentia de expiação :  é  essa lógica que os leva a aceitar como normal que se sujeite uma pessoa com uma doença terminal e incurável a meses de sofrimento escusado  e , deixem-me aqui chocar alguns , caro. O sofrimento leva à redenção, ainda estou para perceber como.
Se um católico  está ligado ao ventilador e a ser mantido  vivo por litros de drogas por dia nunca seria eu a dizer  “desliguem o gajo porque daqui é para a cova e só está a ocupar espaço e gastar recursos” . Agora se uma  pessoa de uma religião ou persuasão que não encara a vida da mesma forma está na mesma circunstância e diz , consciente , “meus amigos , daqui já não vou a lado  nenhum , gostei muito deste bocadinho agora dêem-me a tal injecção porque o meu trabalho aqui está feito e não quero sofrer mais” deixa-me furioso que  algum padre ou bispo ou o que for tenha a lata incomensurável de  dizer “Não , esse quer morrer mas não pode , porque nós é que sabemos sobre a Vida dele”.
Eu acredito na Liberdade individual , para mim é um princípio orientador  e é  por  isso que não gosto de comunistas nem de fascistas nem de religiões organizadas. Se respeitamos a liberdade do indivíduo devemos respeitar as suas decisões em relação à sua vida e ao modo como ela termina. Que a igreja proscreva e excomungue o suicídio e a eutanásia , que no fundo é uma forma de suicídio , está no seu direito e talvez até dever. Que a Igreja presuma  impor as suas visões na Lei  e sujeitar todos à sua doutrina já me irrita.
Defendo que qualquer pessoa consciente e em pleno uso das suas faculdades mentais deve poder ter a possibilidade de encerrar a questão da Vida sem ter aguentar meses de sofrimento que conduzem a um fim inevitável. Isto é muito diferente de defender que devemos ter a possibilidade de desligar a máquina ou parar a medicação da avozinha quando ela chega aos 90, ou de desligar uma pessoa que está em coma . Mais uma vez , nunca é demais dizê-lo , é uma questão de liberdade individual pelo que a decisão só pode ser tomada pelo indivíduo.Uma vez tomada deve ser respeitada.
Legalizar a eutanásia não é abrir a porta a suicídios em massa ou mortes indiscriminadas dos que podem ser julgados “irrecuperáveis” ou “acabados” . É permitir a um indivíduo poupar-se a sofrimentos desnecessários e terminar os seus dias com dignidade. Espero que o debate continue e que se legalize a eutanásia em Portugal e lamento que tenhamos que continuar a ouvir e reconhecer como fundamental nisto a opinião de uma instituição que vem de declarar um “jubileu extraordinário”. O que é isto ? É um período declarado arbitrariamente pelo líder da comunidade durante o qual os fiéis podem procurar Portas Santas ( não estou a inventar , está tudo aqui de fonte oficial) que devem ser transpostas .
A passagem pela porta santa assinala o final da peregrinação dos fiéis e concede-lhes, caso estejam em estado de graça, comunguem e rezem pelas intenções do Papa, uma indulgência plenária.  2016 , estas pessoas  concedem indulgências plenárias envolvendo a passagem por portas e a repetição de fórmulas mágicas e depois querem ser levados a sério em debates de vida ou morte. Não , desculpem mas não.
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