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Sinais

Quando recebi a autorização para deixar o barco a primeira coisa que fui fazer foi tentar comprar o bilhete para Lisboa para o dia seguinte. Tive problemas com o cartão , não consegui , tinha que esperar até segunda feira para resolver a questão. Nessa mesma tarde fui a um  churrasco a casa do director da base de charter , havia 2 espanhóis , 4 franceses e 3 seychelenses , todos casados uns com  os outros em várias combinações  , e uma meia dúzia de miúdos  . O número ímpar era devido a um espanhol solteiro e toda a gente era ligada ao mar. Ás tantas uma das francesas , que trabalha muito com a náutica de recreio e os charters , disse-me para a ir ver ao escritório dela na segunda feira porque tinha ouvido um colega falar de um Lagoon 56 que estava no Dubai ,  era para vir para as Seychelles e precisava de um capitão.

Passei o Domingo todo entusiasmado com  a possibilidade , ia poder salvar esta viagem e ainda por cima com um barco novo, de bom tamanho  e a navegar na direcção certa. Depois de tanta coisa sempre ia ver o golfo Pérsico, Ormuz , Omã e navegar a monção no bom sentido. Comecei a pensar que o Universo ia-me recompensar e tinha-me mandado esse sinal claro que foi o cartão ter encravado , tudo acontece por uma razão , encravou para eu poder ter a oportunidade de ir fazer aquele trabalho.

Tudo tretas , como está bom de ver , não há sinais nenhuns nem planos do Universo nem respostas às preces de ninguém.  Há acontecimentos e  coincidências ,  acções e reacções , factos aleatórios ou sequências naturais mas certamente que não há nenhum plano  nem nenhuns sinais a não ser os planos que temos na nossa cabeça e os sinais que mandamos uns aos outros e que imaginamos , com o potencial ilimitado que tem a imaginação humana.  A quem pretende que sim , que há um plano e há sinais do universo ou de outra entidade eu pergunto então qual é o plano e quais são os sinais e qual é o seu “mecanismo de transmissão” , porque se não pudermos responder a isto claramente podemos interpretar TUDO e QUALQUER COISA como um sinal ou parte do plano.  Assim é fácil , tudo o que acontece está de acordo com o tal plano , existente mas desconhecido e impossível de conhecer ,  e tudo o que indica a realidade que observamos é um sinal de que as coisas são assim.Tudo pode ser conforme um plano e um destino.

Na Segunda  lá fui ao tal escritório de manhãzinha e fiquei a saber  que o barco ainda está em França, vai de cargueiro para o Dubai e o dono só está à procura de dois marinheiros.

Se tivesse sido  diferente e eu tivesse ido ao Dubai buscar o barco a esta altura estava talvez a dar crédito à teoria , ou observação , de que tudo acontece por uma razão : não tinha conseguido comprar o bilhete porque estava guardado para uma coisa melhor e tinha que ficar lá mais um dia. Não , a única consequência de me ter encravado o cartão foi ficar mais três dias à seca , sozinho , sem dinheiro disponível e sem nada para fazer num sítio que já me saturava.

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Estou a escrever estas coisas no avião  , foram quatro horas e meia de Mahe para o Dubai e de lá são oito e pouco para Lisboa. O voo vai meio vazio o que é  óptimo . As criancinhas  finalmente lá fecharam o berreiro , já que infelizmente não se pode proibí-las de voar nem obrigar os pais a sedá-las antes dos voos podiam , nestes voos de longo curso , reservar um compartimento , insonorizado , só para famílias. Juntavam-se aí as quatro ou cinco famílias com crianças que há sempre nestes voos e assim enfernizavam-se e moíam a paciência uns aos outros , para terem também uma ideia do que é sofrer com o cagaçal das crianças alheias.

No aeroporto vi pela primeira vez  afegãos Pashtuns ao vivo, pareciam-me Pashtuns do Afeganistão por causa dos trajes , que são muito característicos. Ou se calhar eram Baluchis do Paquistão , não sei nada , mas era um grupo de cinco moços novos daquelas partes do mundo  que devia ter saído das montanhas pela primeira vez e ainda andava visivelmente atrapalhado e fascinado com coisas como escadas rolantes  e écrans gigantes .Os trajes eram novos mas apesar disso iguais aos que os avós usavam  e não pude deixar de pensar sobre onde é que iriam aqueles tipos. O que é certo é que o Dubai hoje  é  uma verdadeira placa giratória e , não gostando assim muito dos Emirados , dos Emiratis e dos emires , reconheço de bom grado que realmente o mundo cruza-se ali. Não deve faltar muito para ser o aeroporto mais movimentado do mundo.

Vem neste avião um tipo que eu tenho uma vaga ideia de conhecer de alguma revista  ou da televisão, acho  que é famoso nalguma coisa ligada à moda. Vem  acompanhado por  uma senhora vestida do que me parece alta costura. Grandes toilletes ,  Louis Vuitton Dior Gabanna Channel, muita joalharia ,acessórios , Iphone 9 ,  muita produção.

Ó senhores , quando toca a luxo ou bem que sim ou bem que não. Andar armado em jet setter Armani que vai ao Dubai como quem não liga e depois ir na classe económica é que fica um bocadinho mal . Ou somos ricos , vestimos como tal  e fazemos vida de ricos , que nos nossos tempos  implica fins de semana no Dubai , ou somos pessoal que tem que viajar de classe económica , ergo , não somos ricos , ergo , é ridículo andarmos a exibir farpelas e acessórios de luxo, especialmente em sítios onde se vê logo que estão fora do lugar . Como a classe económica.

O avião tem um sistema de entretenimento excelente e informações de voo de toda a espécie , desde câmaras no nariz do avião até à indicação regular da direcção de Meca , como são 8 horas e meia  e um muçulmano devoto tem que rezar 5 vezes por dia,  , a hora da oração tem que chegar e se não soubessem a direcção de Meca como é que seria? Iam desagradar a Deus por rezar virados para outro lado  e sabe-se lá o quais seriam as consequências.

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Comecei a ver o último James Bond mas não acabei , perco num instante a paciência para o impossível. Quando o enredo é absurdo mas plausível , ainda vá , mas quando entramos no absurdo implausível não sou capaz , assim que dou por mim a pensar “isto nunca podia ter acontecido” , está o filme estragado.

Acabei por ver três  filmes , um deles em que o Joaquim de Almeida faz de candidato a presidente da Bolívia e ganha as eleições com a ajuda da Sandra Bullock , nada mal , e   uns episódios do Office , que nunca desilude  e estou a acabar de re ler um livro que vou re ler ainda mais vezes e que recomendo vivamente , The Art of Thinking Clearly .  Não descobre pólvora nenhuma mas explica em 100 capítulos muito curtos e concisos os modos  como a nossa mente , nos falha e nos perverte o raciocínio e capacidade de análise e decisão. No outro dia vi que foi feita uma tradução do livro Colossus , do Niall Ferguson , um livro interessantíssimo sobre o papel e o estado da força Americana no Mundo . A chatice é que o livro foi publicado em 2005 , pelo que os leitores portugueses estão a ler agora um análise geopolítica com dez anos de idade. Ao menos este “the Art of Thinking clearly” vai ter sempre actualidade e vai ser bom à mesma se o traduzirem e publicarem daqui a 10 anos. Uma das recomendações do autor é que se gaste menos tempo e energia com as notícias , consumir menos “comunicação social” , porque ao fim ao cabo  a informação que colhemos aí acaba por ser irrelevante para as decisões que temos que tomar no nosso dia a dia . Além disso são  principalmente temas sobre os quais nem estamos equipados o suficiente para julgar adequadamente a situação como não temos nem podemos ter influência nenhuma. IMG_20160209_161032

Isto é na Arábia Saudita e ainda não descobri o que é , mas é sinal de alguma coisa.

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