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Outro regresso inglório

Estou na ilha de Praslin , a 20 milhas do ponto de partida . No dia em que escrevi esse último post entregaram-nos os últimos equipamentos , fui atestar os tanques e disseram-me para estar a bordo às 3 da tarde , vinha a Imigração com os nossos passaportes e restante papelada e podíamos zarpar.

Vieram e foram as 3 , as 4 e as 5 e ninguém apareceu. Por mais anos que tenha de trópicos e dos modos de funcionar deste pessoal  nunca me vou conseguir habituar a isto. Não restou mais que esperar até à manhã seguinte , tinham pedido desculpa por se terem esquecido e vinham às 9 e meia. Chegaram às 10 e meia , a caminhar muito tranquilamente pelo pontão abaixo  a admirar os barcos todos. Recebi-os de motores a trabalhar , esferográfica na mão para lhes assinar as ridicularias todas e cara de mau e zangado. Zarpámos com pouco vento e lá seguimos no rumo quase ideal, entre as ilhotas daqui. Mais uma vez , este arquipélago é lindíssimo e tenho sorte de poder navegar por aqui.

Por causa dos ventos da monção de NE não se pode fazer rumo directo ao golfo pérsico porque inevitavelmente acabava-se a ir directamente contra o vento , não se avança. Sendo assim há que ir quase até à Índia , pelo menos até às Maldivas e depois virar de bordo e aproar a Noroeste , ainda contra o vento de NE mas não directamente, a um ângulo de bolina que permite avançar.

Ao fim da tarde refrescou a brisa , reduzimos a vela e seguimos à bolina cerrada , a mareação “de escolha” para a viagem , e  desfaleci um bocadinho , o barco via-se negro para fazer 4,5 nós e com um balanço sério. Pensei que ia ser ainda pior e mais lento do que antecipava mas não havia remédio , o barco não dá para mais.

Na segunda noite um dos motores começou a falhar , problemas de alimentação. Mudei os filtros , sangrei-o e ferrei-o outra vez , continuou a falhar, deixei-o “descansar” e passei ao outro motor. Nesta altura íamos à vela pelo que os motores eram precisos só para carregar as baterias e não para propulsão. O segundo motor foi pelo mesmo caminho , passei horas nos compartimentos , cheio de gasóleo a tentar tudo o que sabia para tentar resolver o problema , ficou claro que o sistema estava entupido com toda a porcaria que literalmente cresce nos tanques de gasóleo quando estão muito tempo parados , como era o caso deste barco. Bastou que começasse a chocalhar a sério para os lodos e sujidades seguirem pelos tubos e eventualmente emperrarem e entupirem tudo até à bomba injectora , o limite da minha capacidade de reparar um sistema de gasóleo. Entre o tanque e a bomba injectora posso resolver quase tudo , daí para a frente não.

Tornou-se claro que tinha que voltar para trás porque mesmo que houvesse vento até às Maldivas, o que não era nada garantido , o barco precisa de electricidade. São as  luzes , é o frigorífico , o sistema de água doce , os instrumentos e luzes de navegação , as comunicações .

Avisei o patrão que estava a voltar para trás e começaram aí seis dias bastante difíceis porque ou não tínhamos vento ou tínhamos vento fraquíssimo e por duas vezes tivemos borrascas longas de mais de 30 nós que os mandavam para trás fazendo perder a distância que tínhamos penosamente ganho nos dias anteriores. Tive que desligar a maior parte das coisas e deixámos de usar luzes , ventiladores e mesmo instrumentos de navegação . A velocidade era na casa dos dois nós ( aprox 4km/h)  e o piloto automático não consegue bem manter um rumo nessas condições , já para não falar dos constantes ajustes das velas para conseguir retirar o máximo dos máximos. Passei os quartos de vigia para duas horas on quatro off porque três horas seguidas ao leme à torreira do sol é demasiado, e assim nos fomos arrastando , sempre a esperar pela brisa , muito tempo à deriva , sempre consciente de que podíamos estar ali semanas. Os mantimentos e a água não eram problema , estávamos aviados para um mês, o problema era mais o que é que se iria passar quando eventualmente conseguíssemos chegar a terra , porque a viagem estava comprometida , não só reparar tudo ia demorar tempo como a minha motivação e confiança para fazer isto neste barco nesta altura do ano caiu a pique.

A tripulação foi soberba , do Patrick não esperava outra coisa mas ao Pepo não conhecia , e nunca lhe ouvi um resmungo ou mesmo uma expressão mais tensa e agastada  como já vi tantas vezes na cara de tripulantes em situações difíceis. Sempre com um sorriso , sempre de boa vontade para tudo , a moral manteve-se sempre alta mesmo tendo desligado o frigorífico e perdendo bastante comida e a possibilidade de ter uma bebida fresca , agradável quando se passam 8 horas por dia ao leme no calor dos trópicos.

No sexto dia , finalmente a umas 35 milhas das ilhas levantou-se a brisa mas já não veio a tempo de nos permitir entrar de dia , teve mesmo que ser de noite , felizmente tinha as cartas náuticas do arquipélago e pude encontrar uma ancoragem segura sem bater em nenhum calhau pelo caminho . Eram umas dez da noite quando ancorámos à vela , manobra que dá sempre certa satisfação . Estávamos a menos de duas milhas da base de charter que vendeu este barco e que nos aguardava, onde escrevo isto agora depois de um dia inteiro em que já começaram recriminações e a busca de culpados pelo problema a rapaziada dos escritórios e os desgraçados brokers , é um fandango que me é muito familiar mas estou defendido. Sei que tão cedo não saio daqui nem de barco nem de avião , vamos ver o que acontece.

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