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Vida de Marina

Já passou uma semana desde que aqui cheguei , mantenho uma esperança ténue de ainda poder zarpar hoje , porque ainda há uma possibilidade real, basta que me instalem um plotter novo , coisa que não deve demorar mais do que duas horas  , e depois era ir num instante ao mercado a Victoria atestar de frutas e legumes , comprar mais umas provisões para completar o que temos estado a gastar  , carregar os jerrycans para totalizar 600 litros de gasóleo ( preferia ter mil, a única altura em que temos demasiado gasóleo é se estamos a arder) , recolher os passaportes e a papelada e abalar. Teoricamente isto é possível, na prática é diferente e digo estas coisas para manter a moral, especialmente a da tripulação . O Patrick sabe tudo o que há para saber sobre esperar , o Pepo está a aprender depressa. Como de costume o atraso incomoda-me sobretudo por causa do meu cão lá o dia todo sozinho à minha espera. Espero que o gato se lembre de mim , só passámos coisa de um mês juntos e eu não sei bem como é que os gatos funcionam , o cão sei que podia ficar ali cinco anos que nunca se esquecia de mim , o gato não estou bem certo.

Reencontrei o sul africano que tinha conhecido em Novembro quando cá estive da última vez , já sem a assistente russa , substituída com grande vantagem por duas assistentes sul africanas. Chamo-lhes assistentes  para não utilizar termos impróprios e especulativos  ,  se calhar  estão mesmo apaixonadas por ele , um tipo com perto do triplo da idade delas mas com um grande sentido de humor e inteligente e todos sabemos que essas são as qualidades que as mulheres prezam acima de todas as outras .

Fiquei com uma camada de nervos considerável porque  se me perguntarem quais são para mim as mulheres mais bonitas de todo o mundo eu respondo as afrikaans sem ter que pensar nada . Se for a escolher da Europa escolho as holandesas , e as afrikaans não são mais que holandesas  temperadas por séculos de África , tiram-me do sério. Foi preciso um esforço valente para fixar a atenção noutra coisa , conduzir a conversa para os barcos e agir como se elas não estivessem ali. Fomos convidados para ir hoje à vivenda dele na ilha aqui à frente mas declinei , com boa razão porque mesmo que seja a esperar tenho que estar a bordo ou perto no caso de tudo acontecer de repente . Por um lado tive pena , porque o sítio é lindo , a cozinheira dele é incrível e ele e os amigos são grande companhia , por outro não tive pena porque as moças só por existirem são provocadoras ,  eu não tenho  prática nenhuma de lidar com essas situações e não estou para passar uma tarde em esforço a fingir que não as vejo e que não me fazem subir  o sangue à cabeça.

A marina está movimentadíssima , cheia de turistas principalmente russos e franceses . Há três mega iates amarrados , todos propriedade de árabes , todos tripulados por jovens que se pensam marinheiros e com os quais eu tenho uma relação bastante complicada  nas raríssimas  vezes que  chegamos à conversa. Tenho vários problemas com esta gente , o primeiro é que trabalham numa parte da indústria que eu desprezo profundamente , a do luxo , ostentação e desperdício até à náusea. Isso só por si não é razão para tratar mal  quem anda a fazer pela vida, mas estes gajos acreditam-se o supra-sumo do mundo náutico  , eu chamo-lhes  técnicos da camurça porque 90% das suas funções são limpar e polir e os barcos em que trabalham raramente navegam . Para as coisas sérias há um engenheiro e para a manutenção séria de todos os equipamentos o capitão chama técnicos de terra. Estes meninos, por mais qualificações e cursos que tenham  , limpam , ponto final. Depois dos técnicos da camurça há as criadas , que nesta indústria se chamam stewardesses e cuja função é limpar o barco por dentro e servir. Ainda não me estreei  a ver uma feia , parte enorme do critério de selecção é serem novas e giras ( a esmagadora maioria sul africanas , lá está) e também elas acham que o que fazem  se relaciona com marinharia  além do facto óbvio de estarem num barco. Toda esta gente é paga quantias absurdas , o técnico de camurça mais baixo ganha muito mais do que eu , coisa que também me incomoda um bocadinho considerando a minha responsabilidade e o que eu tenho que saber e ser capaz de fazer em comparação com estes moços , mas também é verdade que eu não distingo entre seis produtos diferentes para polir um casco   nem conheço o método correcto de envernizar um corrimão. Um proprietário de um mega iate informado e consciente dos custos contratava por uma fracção do preço o mesmo número de marinheiros filipinos que faziam tudo melhor  mas como a maior parte do apelo de ter esses barcos é ostentar , fica sempre melhor uma tripulação de jovens brancos atléticos e bonitos que de castanhos e enfezados , mesmo que os últimos trabalhem melhor e com menos alarido. É assim, o aspecto da tripulação é uma espécie de convenção e ninguém foge disso. Por isso meninos e meninas que aspiram a uma carreira nos super iates , se o vosso físico não corresponde ao padrão  , desistam já para se pouparem a desilusões . DSCF0867

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One thought on “Vida de Marina

  1. Mais um excelente capitulo, de acordo contigo em quase tudo excepto ; ” Fomos convidados para ir hoje à vivenda dele na ilha aqui à frente mas declinei , ”
    Tinha ido.
    Bons ventos abraço

    Gostar

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