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Turista

Como era de esperar depois de quatro ou cinco dias de céu limpo e brisa suave em que tivemos que trabalhar ou esperar, assim que tivemos o dia todo livre amanheceu encoberto, chuvoso e ventoso.Ás 7 já estava pronto para baixar a terra , como estes barcos não traziam bote o transporte tinha que ser por chamada, também se passou bastante tempo à espera disso. Descíamos a terra aqui :

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 O Departamento de Turismo das Maldivas não publicita muitas fotografias deste género mas é uma tristeza ver que os Maldivos ( continuo a dizer “maldivos” sem saber se é a designação  correcta , se não for , paciência) não são muito asseados , o Corão explica-lhes tudo o que devem fazer para se lavarem a si próprios mas não especifica que também se deve ter algum cuidado com o lixo, por exemplo não o largar e deixar amontoar em qualquer lado como pude ver nas três ilhas onde estive . Um livro que especifica que os cães são impuros e sujos  não põe objecções a que se viva no meio do lixo nem exorta os crentes a limparem um bocadinho à sua volta. Certamente os resorts são imaculados , o resto mete nojo , desde as ruas da capital às praias que não são topo de gama. Isto não é só culpa das pessoas , o governo devia  fazer alguma coisa , alguma coisa simples como instalar caixotes de lixo porque convenhamos , se não há onde pôr o lixo…

Da praia para o porto para apanhar o ferry para Malé , regular e baratinho , sempre cheio. A primeira “escala” na capital foi num café para turistas onde o Miguel ia encontrar uma amiga espanhola  que trabalha como instrutora de mergulho num dos resorts . Para muitos ocidentais profissionais de turismo como ela vale a pena virem para  aqui durante um ano aturar isto para poupar uns milhares valentes. Aqui e noutros sítios semelhantes , conheço gente assim em sítios desde o Dubai até à Indonésia , é tudo muito bonito mas todos me dizem que só lá estão pelo papel e mais nada. Eu próprio já pensei várias vezes em procurar um trabalho assim, sei bem da falta que há de gente qualificada para andar nos veleiros de charter mas depois lembro-me das razões pelas quais não trabalho no “sector da hospitalidade”  e quero é que os turistas sejam felizes e tenham “experiências”  longe de mim , não sei se aguentava um mês, mesmo que fosse um mês a 3 ou 4 mil euros.

 Pedi um “pequeno almoço Maldivo” que era um caril ardente com uma omelete , se comem aquilo por norma ao pequeno almoço é mesmo combustível para o resto do dia. O Martyn dizia que era o pequeno almoço Maldivo porque era o resto do jantar do dia anterior. Daí fomos passear pela cidade , nunca estive mais a Oriente que isto e  nunca na minha vida tinha visto  tanta lambreta  junta , há milhares , por todos os lados a encher todos os estacionamentos ,  a entupir as estradas e a rolar com uma interpretação muito flexível daquilo que nós entendemos como regras de trânsito . É  mais do género “se passa está bom”.  Malé vista do ar é assim:

male

Ou seja , todos os espacinhos estão ocupados , os habitantes não têma  noção do que é um campo aberto ou um parque e a cidade tem um ar geral de aperto e congestionamento, imagino que Bombaim ou Colombo sejam aquilo elevado à décima potência. Andámos a ver  montras , a principal oferta das lojas de souvenirs é coral , o que mostra bem que também aí este pessoal tem uma consciência ambiental pouco evoluída , o que é de estranhar num país cujo ponto mais alto seja talvez a um metro do nível do mar e que por este andar daqui a cem anos está submerso , a parte dele que não protegerem com diques. Deviam pedir umas lições e apoio técnico aos Holandeses mas mesmo assim acho que não há dinheiro que chegue , a menos que convençam o Ocidente de que tem que pagar para manter as Maldivas secas , não estranhava muito  . Nunca compro souvenirs para ninguém , ainda pensei em levar um lenço para uma menina que me é muito próxima mas a mãe dela  ia ter uma síncope ,  se fosse muçulmana era daquelas que se vestia toda de preto só com uma nesga para os olhos,  tipo ninja.  Não vejo inconveniente nos lenços , só vejo na obrigatoriedade de os usar que há em certos países , quando não é mesmo o fatinho completo , luvas e tudo . Acho  horrível , não me ocorre nenhum sinal maior de obscurantismo e submissão  do que as burqas  mas gosto muito dos lenços típicos daqui , que são estes:

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Claro que não fui eu que tirei esta foto , não tinha lata para me chegar tão perto de uma moça e fotografá-la assim mas soube-me muito bem ver que todas as vezes que sorria para uma rapariga na rua ela sorria de volta , isto muito raramente   me acontece.

Entrámos no hospital a pensar que era um centro comercial de tão moderno que é ,  em Malé o novo mistura-se muito bem com o velho . Atravessámos a cidade toda até ao porto do lado Oeste onde se apanha o ferry para Villigilli , rota onde tínhamos passado horas e horas a pairar  à espera das autoridades uns dias atrás. Villigilli é suposto não ter automóveis e é uma ilha onde não se passa nada nem se ouve uma mosca.

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Infelizmente o problema do lixo mantém-se em Villigilli. Demos a volta a essa ilha toda , calhou bem ser ao meio dia quando o único som que se ouviu foi o dos muezzins a chamar à oração  , não resisti a espreitar para dentro de uma mesquita , pode ser que haja terras cheias de devotos que vão a todas as orações , Villigilli não é uma dessas terras. Fui ver a praia , onde tirei aquela  que é  talvez a minha fotografia preferida de sempre. A minha máquina é a mais barata do mercado e não tenho interesse especial pela fotografia mas adoro esta porque vi esta moça a caminhar pela praia e  fiz logo uma história linda na minha cabeça .

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Acabámos a volta à  ilha , sentámo-nos à espera do ferry noutro café para turistas que como de costume investe tudo no visual , no menu e no nome em inglês e zero em ensinar aos empregados como se serve e voltámos para Malé. Separámo-nos , o Martyn já estava saturado de andar , eu queria voltar para bordo o mais tarde possível e continuei a andar sem nenhum objectivo, só a ver a vida e as pessoas de Malé.Fui à procura da famosa praia artificial , que ficava no extremo Leste da ilha , acabei por não dar um mergulho por causa disto :

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Já tinha visto na praia de Hullumale as raparigas e senhoras a tomar banho assim , mas aí também havia turistas a tomar banho em fato de banho. Ali não , é de regra e é cómico vê-las a chapinhar vestidas dos pés à cabeça , se bem que dá uma certa pena a quem conhece a doçura de sentir a água fresca a correr pela pele num dia de calor. Passámos por uma enseada  onde havia ondas de talvez metro e meio e meia dúzia de Maldivos a mostrar que sabem surfar como os outros e voltámos ao terminal de ferrys , onde não me importei de passar quase uma hora a ver as pessoas , a pensar que realmente lá na essência  somos mesmo todos  iguais , quando rimos com os amigos , quando estamos preocupados , quando embalamos , afagamos ou ralhamos com as  crianças , quando falamos apaixonadamente ao telefone , quando discutimos com vontade , quando lemos apontamentos , tiramos notas ou simplesmente olhamos para o vazio e pensamos na vida enquanto esperamos pelo raio do ferry. Triste de quem nunca pode viajar.

Voltámos a bordo onde nos esperava um caril cozinhado pelos nossos bengalis e onde o capitão estava a tratar do seu stock de produto , as tais folhas e especiarias de que falei , é isto:

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Um dos bengalis disse-me a mim e à Jess ( tripulante do outro barco) , todo emocionado , que estava muito feliz por nos ter a bordo . Aqui e na terra dele as pessoas tinham  o coração negro ( ênfase gestual a bater com  as mãos no peito) ,  nunca olhavam para os outros como Homens , só respeitavam  posição  ,  dinheiro e poder e nós, nunca se iam esquecer de nós , que os tratámos como homens. A Jess ficou cheia de pele de galinha e eu fiquei com um nó na garganta.  Nenhum de nós  fez algum esforço para os tratar de modo especial e não conheço ninguém , ninguém dos meus amigos e conhecidos europeus ou  americanos , que fizesse diferente no nosso lugar . Que o facto de  termos sido simplesmente  decentes para eles os tivesse tocado tanto foi mais uma  lição sobre a Humanidade e estas partes do Mundo.

Escrevo isto no aeroporto de Male , o único aeroporto internacional em que estive na minha vida toda onde não há um jornal , uma revista ou um livro à venda mas não há falta de artigos de luxo com preços de 4 dígitos e enxames de chineses malcriados a comprar  como se as coisas fossem acabar amanhã e se toda a gente fosse surda. Vejo nas notícias que a Turquia e a Rússia estão muito agastadas uma com a outra e já se trocou fogo real , torna mais interessante esta viagem com a companhia aérea turca , já vi que há desvio da rota natural e vai-se mais por cima do Irão do que do Iraque e Síria , os passageiros agradecem. Há muita gente interessada em fazer escalar os conflitos e gente que tem acesso a mísseis terra-ar , isto anda , se possível, cada dia mais perigoso.

Um dia gostava de vir aqui de férias , ficar num resort  a ser apajado em luxo para lá do razoável mas é muito mais provável que se tivesse esse género de dinheiro fosse  antes ao Bangladesh ou ao Sri Lanka , países mais interessantes que este arremedo de nação . Posso nunca mais voltar às Maldivas que não há problema nenhum.

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2 thoughts on “Turista

  1. Gosto disto;
    “nunca se iam esquecer de nós , que os tratámos como homens. A Jess ficou cheia de pele de galinha e eu fiquei com um nó na garganta. Nenhum de nós fez algum esforço para os tratar de modo especial e não conheço ninguém , ninguém dos meus amigos e conhecidos europeus ou americanos , que fizesse diferente no nosso lugar . Que o facto de termos sido simplesmente decentes para eles os tivesse tocado tanto foi mais uma lição sobre a Humanidade e estas partes do Mundo.”
    Abraço, keytas

    Gostar

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