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O Mal das Maldivas*

Depois de dizer ao meu patrão que a situação era não só estranha como  também  uma falta de consideração recebi uma mensagem do agente local a dizer para ir no dia seguinte para “perto de Male” porque tinham marcada a desalfandegação dos dois barcos para “essa manhã” .  Eu sou um rapaz ocidental, anglófilo e que viveu e trabalhou uns tempos na América , razões pelas quais acho coisas como “amanhã de manhã” não  muito aceitáveis em trabalho. Não há “de manhã” , há uma manhã que começa às 0600 e acaba às 1200 , dessas seis horas escolhemos uma  e é para essa hora que se marcam as coisas e a essa hora que se comparece. Já no  nosso Portugal há infelizmente muita gente que funciona assim ,  por aproximações , enerva-me muito e desta vez ainda me enervou mais , apesar de já conhecer bem o ritmo dos trópicos.

Não só ninguém me tinha dito que antes de ir para o destino final  tinha que ir a Male  mas também  dizer-me   para ir para “perto” de uma ilha “de manhã” é um tudo nada vago . Ainda por cima  faziam-me  depender da chegada do outro barco , que tanto quanto eu sabia podia ser daí a duas horas ou dois  dias. De notar que nesta altura eu só tenho  uma data na cabeça , 4 de Dezembro , em que se não estiver no aeroporto de Lisboa às oito da manhã  perco o meu voo de regresso a casa.

Depois de uma noite desgraçada devido ao calor , aos balanços e porradas contra o cais  causadas pelas esteiras das lanchas que entram e saem do porto a fundo e atormentados pelos mosquitos ,  saímos desse porto e fomos então para perto de Male , são menos de duas milhas e às oito e meia da manhã lá estava a pairar frente à mesquita principal e ao que parecia o  palácio do governo. A pairar ficámos , a derivar ou  andar acima e abaixo a meio nó , durante 3 horas e meia à torreira do sol . Ás tantas a guarda costeira veio ter connosco numa lancha mas foi só para nos dizer para irmos pairar para outro lado , não se interessaram por saber quem somos nem o que estávamos ali a fazer . Por essa altura recebi uma chamada de um Ahmed que mal falava inglês, era o agente do dono do barco , não me saltou a tampa porque tinha passado a manhã toda a mentalizar-me para ter calma , inspirar e expirar , e que se fosse ventilar a fúria que tinha e dizer ao Ahmed o que achava dos procedimentos dele e da sua companhia só ia prejudicar a minha situação. Não percebia  metade do que ele me dizia, desliguei-lhe o telefone e finalmente recebi uma mensagem escrita a dizer que o outro barco estava a chegar , para  nos juntarmos e irmos para a costa Oeste da ilha esperar pelas autoridades e para ter cuidado com os ferrys  , que é o mesmo que dizer a um taxista “vamos para a avenida  assim assim  e atenção aos outros automóveis”. Tornou –se aí claro que a companhia que comprou estes barcos não tem ideia do que anda a fazer.

Chegou  o Martyn com o seu barco coxo , amarrámos um ao outro e ficámos mais três horas a derivar  de braço dado pelo que pelo  menos tínhamos companhia nova e pudemos trocar impressões sobre a viagem ,  lamentar a desorganização e amaldiçoar em conjunto os modos deste pessoal . Finalmente vimos aproximar-se um barco com a oficialidade , um deles era o tal Ahmed , uma figurinha que me dava pelos ombros , magro como um caniço , vestido com aquelas túnicas até aos joelhos ,  a barba dos devotos e um sorriso na cara , olhei para ele e vi logo que era impossível zangar-me com alguém assim , então depois do seu  “ ai ai ai ai….”  ao tentar  passar da lancha  para o nosso barco e ao ver a imbecilidade da burocracia que ele teve que nos  trazer  , ganhou a nossa simpatia . O Ahmedezinho, tadinho.

Era a Imigração , a Alfândega e a Marinha , traziam resmas de impressos  que se dedicaram a preencher meticulosamente e eu fui fazendo a minha parte, preenchendo e assinando tudo o que me punham à frente. As Maldivas são daqueles raros países que aplicam a um iate  que chega a mesma papelada que a um petroleiro que chega, pelo que entre outras coisas tive que preencher a declaração de eventuais  mortos e clandestinos  a bordo , infestações de ratos , assinei pelo oficial médico , fiz uma lista de mantimentos a bordo ( ainda nos rimos com a ideia de levar aquilo mesmo a sério e escrever 460 g de arroz , 18 bolachas de água e sal ,  3,6cl de azeite …)  , declarámos todos os aparelhos electrónicos pessoais que trazíamos e , essa sim  para mim uma primeira , apliquei a impressão digital em meia dúzia de impressos. Assegurei-os de que não tinha produtos nem itens proibidos (não me fiz de engraçadinho  dizendo tirando aí esse resto de fiambre ) e convidei-os a revistar tudo , declinaram. Todos muito corteses, o que ajuda sempre. Quando já tinham reunido a quantidade prescrita de impressos , assinaturas e carimbos foram-se embora , levaram os nossos passaportes e disseram-nos para continuar ali a pairar até vir a autorização final para seguir para o destino. Subiu a bordo o representante da empresa  dona dos barcos e ali ficámos, preparados para mais umas horas de  espera até vir o telefonema. Por sorte a corrente ia-nos levando na direcção que queríamos pelo que quando chegou a autorização de seguir para a amarração já estávamos a menos de uma milha .

Quando finalmente entrámos na lagoa de Hullumale já o sol se tinha posto . Era suposto amarrarmos numa poita mas descobrimos que estava ocupada por outro barco, tivemos que ancorar. O guincho não trabalhava,ou melhor , tinha uma falha eléctrica que o fazia trabalhar só por iniciativa própria ,  há sempre algo de novo nas alturas mais inconvenientes , houve uma manobra de recurso com o ferro de recurso e pouco depois o Martyn amarrou ao nosso lado, a coxear por causa do seu motor fora de combate.

Esperámos mais uma hora por um bote que nos levasse a terra, estamos na lagoa atrás do aeroporto no meio da frota de pesca e numa terra que vos asseguro não corresponde nada ao que as pessoas imaginam quando pensam “Maldivas”.

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Baixámos a terra , o representante da companhia levou-nos numa caixa aberta a um restaurante popular  local e eu , para encurtar e simplificar o processo como gosto de fazer , cheguei-me à frente e pedi para nos trazerem seis vezes um bocado de tudo. Quem liga à comida já sabe que não é neste blog que vai encontrar matérias interessantes, só tenho a dizer que comemos muito bem , até ninguém ter fome nenhuma , coisas que nunca tínhamos comido , e por um preço muito amigo. Reparei que os locais enrolavam umas especiarias numas folhas verdes , polvilhavam-nas com açúcar  e mastigavam , pedi logo daquilo para  ver se era alguma coisa de intoxicante  , o Homem encontra sempre substâncias para lhe alterar o estado , diga o que disser o Profeta , o governo ou seja quem for, se não for uma encontra-se outra mas além de uma dormência na boca aquilo não me fez nada .

Daí de volta ao barco, até porque por mais vontade que houvesse de ir beber uns copos e procurar algum entretenimento nocturno ( as moças , quando são bonitas , ficam lindas com os lenços típicos daqui)  estamos na parte errada do mundo para isso e há que bater a bolinha muito baixa porque  o guarda redes não só é anão como tem mau feitio.

Passava das dez mas havia bastantes operários a trabalhar nas obras , pensei olha estes não tem sindicatos e podem trabalhar a qualquer hora  mas é claro que a razão para isso é o calor opressivo que faz durante o dia e torna sensato fazer o trabalhos pesados à noite.

O gajo do bote que nos levou a bordo disse  que estávamos ancorados mesmo na linha de aterragem e descolagem  dos  hidroaviões  e que certamente nos iam fazer mudar de sítio  , eu disse que se estivesse a estorvar  os próprios serviços do aeroporto me avisariam  e nesse caso eu mudava o barco de sítio  , e fui-me deitar bastante mais bem disposto do que na noite anterior.

Acordei às quatro da manhã , ainda ando com os sonos ao ritmo da navegação. Até ao nascer do sol fiquei a escrever este género de coisas e a rever o que faltava para poder concluir esta operação, ou seja , relatório entregue e conferido , papéis assinados a transferir a responsabilidade do barco de mim para os novos donos e regresso a casa assegurado e marcado para mim e para a tripulação. Falta bastante.

Quando nasceu o sol e houve actividade no barco ao lado fui lá beber um café, no nosso barco já acabou mas eles ainda têm, e depois chamei o gajo do bote para me descer a terra. Um dos escritórios da companhia que comprou o barco é numa zona industrial mesmo aqui ao lado, lá estive a ver os emails e a comunicar o que havia a comunicar. Perguntei onde é que podia trocar dinheiro , disseram-me para o dar “a este bangladeshi” que ele tratava disso. Regressou passados 15 minutos , quando conferi o total era mais que a taxa de referência do site que eu uso  . Acontece que os bangladeshis juntam todas as divisas que podem para mandar para casa cultivando um mercado negro muito dinâmico que eu aprecio bastante.

Tornou-se claro que já não tenho hipótese nenhuma de estar em Lisboa dia 4 às 8 da manhã , a prioridade passou a ser assegurar-me de que me compensam pelos atrasos , porque cada dia aqui para mim é uma despesa boa , e numa viagem em que o lucro vai ser principalmente a experiência de ter atravessado o Índico e chegado a 300 milhas da Índia isto não augura nada de bom para a minha conta bancária e o meu desejo de me poder encerrar nas Flores até Junho .

Na altura em que escrevo isto estou á espera que venha um capitão local para fazer a revisão técnica do barco e  para discutirmos o relatório , não tenho dúvidas da competência deste pessoal no que toca a barcos em geral mas sobre vela sabem cerca de zero , vai ser interessante. Vem “de manhã” , mas já começo a perceber que aqui as manhãs têm mais um par de horas de tolerância. Depois de me assinarem os papéis espero então que já nos tenham marcado os voos , esperançadamente para amanhã e esperançadamente que não sejam viagens de 36 horas que me fazem passar por 4 aeroportos , são aquelas sessões que me fazem ter o gosto que tenho por aeroportos e aviões e entrar lá como um condenado. Uma vez para me levarem das Seychelles a casa fiz Seychelles- Joanesburgo- Londres-Zurique-Lisboa ( por sorte ainda não vivia nos Açores senão tinha sido mais) , quando uma pessoa faz coisas dessas compreende-se que o entusiasmo pelas viagens aéreas seja pouco.

Ontem o representante da companhia informou-nos que nos  iam mandar dois bengalis, um para cada barco. Não disse “dois marinheiros” , nem “dois empregados” , disse dois bengalis a vincar que são uma categoria independente . Isto está cheio de imigrantes  bangladeshis que são o pau para toda a obra ,  eu gostava imenso de sentar um deles frente a um dos nossos jovens indignados de esquerda militante ao qual diria : olha , agora explica aqui a este bengali como a tua vida é uma escravatura , o teu governo te oprime e a tua vida não tem perspectivas porque o capitalismo te está a desgraçar.

Estes dois  vêm para aqui limpar , cozinhar e tomar conta dos barcos , são dois bengalis com sorte porque os outros têm uma vida da qual eu só desconfio, e mesmo essa é melhor do que a que deixaram no seu país.

Já tive que lavar roupa porque chegou ao limite da que tinha calculada para estas semanas , não ligo assim muito à aparência mas ainda assim não é aceitável ir voar para casa amarrotado e pouco limpo . Só há mais uma coisa que quero fazer aqui , em Malé há uma praia artificial onde eu quero ir dar um mergulho , porque  acho muita graça à ideia de estar quase uma semana nas Maldivas e a única praia onde estive ser  a praia artificial.

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*Este post só tem este título porque estou nas Maldivas e soa bem , não  tenho visto nem me tem acontecido nenhum Mal . Mal com Maiúsculas nas Malditas Maldivas .

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