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Mahé a Malé

Antes de zarpar sentei-me um bocado com o outro skipper a fazer um plano de passagem , ou uma espécie . Vimos as previsões  de longo alcance e consoante o que parecia que ia acontecer marcámos três pontos de rota intermédios, acordámos em manter as 2400 rpms quando fossemos a motor , mantendo um consumo modesto de 2 litros por hora que nos dava autonomia para a viagem quase toda , tentar manter-nos à vista o mais possível e todos os dias ao meio dia local falar pelo VHF para fazer o ponto da situação.

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O plano não aguentou 24 horas , na primeira borrasca que passámos ele rizou primeiro que eu e seguiu mais para Norte , eu arribei mais para Leste com o pano todo , quando amanheceu já não nos víamos e no dia seguinte já não houve contacto rádio.

A primeira lição que retirei desta viagem foi que em tendo que se navegar de conserva ou em comboio é preciso escolher um barco para líder . Deve-se combinar um plano conjunto mas tem que haver um que vai à frente e outro que o segue , porque deixando cada um aos seus dispositivos e decisões separamo-nos num instante , Q.E.D . Mais uma lição náutica com aplicação noutros campos.

Tivemos sempre ventos e correntes favoráveis , muito calor , algumas borrascas ,não vimos um só navio nem apanhámos um só peixe em 9 dias. A tripulação esteve como eu esperava e mostrou porque é que fui buscar estes outra vez : sabem o que estão a fazer , nas poucas  vezes em que  não sabem bem não se acanham para perguntar, não questionam o que eu digo , são capazes de dizer meia dúzia de palavras por dia e nem por isso o ambiente é mau, são de gostos simples na comida e nunca se queixam . É verdade que também não há muito do que queixar, mas há pessoas que podem estar em qualquer lado e qualquer circunstância e encontrar motivos para protestar e encontrar defeitos na situação.

Outra coisa eu fiquei a saber nesta viagem é que no Índico a cobertura satélite é muitíssimo mais fraca do que  no Atlântico e a comunicação por esse meio foi muito  difícil. Já a mais de meio caminho recebi uma mensagem do outro barco a dizer que estava a cerca de 200 milhas atrás de nós com uma infiltração num motor . Começámos logo a especular à doida sobre o que seria e eu fiquei logo com aquela satisfação sacana a pensar que os barcos são idênticos e a distribuição foi aleatória pelo que tive sorte em ficar com aquele com menos cancros. Isso e porque tinha agora todas as hipóteses de chegar primeiro , nunca é uma corrida e é sempre uma corrida.

Recebi uma mensagem do patrão a dizer que não podíamos chegar a Male entre a meia noite e as seis , pareceu logo hora de recolher obrigatório. Como uma semana antes tinha visto notícias sobre agitação política e estado de emergência declarado nas Maldivas comecei logo a imaginar que era desta que ia finalmente cumprir uma das minhas fantasias que é chegar a um país no meio de um golpe de estado . Afinal não , era só uma restrição administrativa às chegadas nocturnas . As Maldivas agora estão tranquilas , têm um ex vice presidente na prisão (como fica bem a qualquer país) , políticos corruptos e incompetentes ( a acreditar no único Maldivo que ouvimos até agora sobre o assunto) e povo a querer mudança mas incapaz de a produzir , o que os torna iguais a para aí 90% do Mundo.

Os atóis e recifes das Maldivas são o seu ganha pão , há muitas dezenas de resorts e várias ilhas particulares , boa  parte dessas são pertença da aristocracia do Golfo. Têm os seus hidroaviões , lanchas de luxo e as famosas casinhas nas estacas sobre a água turquesa e quente , os fundos de areia branca e coral, um coqueiro aqui e ali, luxos indiscriminados e aquele ar do que no Ocidente se convencionou chamar Paraíso por razões que não percebo muito bem.  É sem dúvida um sítio para onde só se deve vir aos pares dado que não há grande coisa para  fazer e depois de meia hora um atol está visto é igual aos outros todos. Para mim chamar Paraíso a um sítio que não tem água, não tem uma floresta , não tem uma colina , não tem um ribeiro , está a meio metro ou menos do nível do mar , tem um calor abrasador e mosquitos o ano todo e ainda por cima é muçulmano , com a alegria e liberdade de viver que isso implica ,  é um bocado esquisito mas a cada um o seu paraíso.

Entrei na lagoa  onde me tinham dito para ir antes de zarpar das Seychelles , no atol ao lado da ilha onde está a capital Malé e onde fica o aeroporto . Estava  à espera de encontrar os donos do barco ou seus representantes , encontrei um porto apertado , raso e caótico e nenhuma indicação ,  comunicação ou instrução. As pessoas  saem do avião e em vez de haver uma fila de taxis e autocarros há uma doca e tráfego constante de ferrys e lanchas de hotéis que levam os turistas aos seus paraísos. Fiquei com a ideia , que ainda tenho ao terceiro dia aqui , que os marinheiros maldivos só têm duas posições na caixa de velocidades ,  ralenti e a fundo . Um pouco abaixo do cais dos ferrys havia um molhe com um espaço onde cabíamos e lá amarrámos , entre barcos comerciais que vão carregar ao aeroporto e depois distribuem a mercadoria pelas ilhas.

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Tudo , desde caixas de cerveja  (eles são muçulmanos mas não são parvos  e não falta pinguinha nesses hotéis todos) a botijas de gaz das grandes , é descarregado e carregado a braço e às costas como há mil anos. Como desde que se estivam cargas em barcos. Recebemos  olhares curiosos  , ali não é sítio onde amarrem iates e  eu esperava  a qualquer momento ser enxotado dali para fora mas não . Passaram horas e ninguém me dava instruções nenhumas , arrisquei sair do barco e fui ao aeroporto ver se carregava o telemóvel , passei a barreira militar usando a velha técnica do “sorri e faz-te de parvo” ,  fiquei reconhecido à Meo por só cobrar 5 , 43€ por minuto para chamadas em roaming , gostava que o Ricardo Araújo Pereira usasse esse facto num dos seus  nauseantes  spots publicitários , isso e que escrevesse uns artigos sobre o fim da austeridade em Portugal ( tardou mas foi)  e sobretudo acerca das três sodomizações sucessivas , sem lubrificação , que o seu clube de futebol sofreu do clube que ele gosta tanto de ridicularizar. Eu consigo imaginar um monte de piadas hilariantes  sobre a situação , não sei se ele agora acha tanta graça .

Voltei a bordo e continuou a subir  a frustração por ninguém me dar instruções nem sequer comunicar , beberam-se discretamente as seis cervejinhas que tinham vindo das Seychelles para a ocasião e ali ficámos à espera.

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