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Tripulação

O que me chateia mais no meu trabalho são as pessoas.  A cada dois ou três meses tenho que ir à procura de tripulação e é um processo que  já me satura , frustra e enerva.

Primeiro , este meio está cheio de gente que acha que porque navegou meia de dúzia milhares de millhas e tirou um curseto merece ser paga  para ser tripulante. Um gajo oferece uma viagem à vela a atravessar o Atlântico , ou , no caso em mãos , o Índico , com viagens e despesas pagas e depois tem que ouvir indivíduos a dizer que “não trabalham à borla”. Realmente a oferta é fraca , devem ser às dezenas as oportunidades de ir à vela até às Maldivas.

Quando comecei a carreira , já com o certificado na mão e com mais de 10 mil milhas navegadas , ofereceram-me uma posição como marinheiro numa viagem de França para as Caraíbas , mas não só não ganhava nada como  tinha que pagar a viagem para  França e o regresso a casa.  Aceitei , todo contente , porque sabia que o caminho para o cimo do mundo profissional é esse , entrar por baixo , responder bem e aproveitar todas as hipóteses de ganhar experiência e aprender .  Nem toda a gente pensa assim e perco a conta aos que desdenham ofertas porque acham que merecem ser pagos mesmo quando têm qualificações largamente teóricas e uma experiência  insignificante. Fico doente.

“Ah , mas tu quando tiraste o curso tinhas condições de gastar dinheiro para fazer essas primeiras viagens à borla” . É verdade , e se não se tem essas condições o melhor é esperar até ter ,   porque se acham vão chegar ofertas de  comando ou posições bem pagas porque um papel diz que o podem  fazer e já o fizeram  duas ou três vezes antes , vai haver desilusão . Paga-se para aprender , outra verdade velha de séculos mas que muita gente não só ignora com chega a exigir ser paga para aprender , acho ridículo.

Segundo , muita gente se oferece e candidata mas pouca sabe a que é que se está mesmo a candidatar. Ora a pessoa que eu procuro é alguém que  já tem uma noção boa do que se passa , porque se acham que vou pagar bilhetes de avião , levar uma pessoa a navegar  , alimentá-la e dar-lhe um curso de introdução à vela ( e talvez pagar-lhes por cima) porque são boas pessoas , gostam do mar e estão entusiasmados , enganam-se. Há muita gente que acha isso normal , é inacreditável.

Terceiro , os prazos . Raramente tenho mais de 15 dias de antecedência e poucas pessoas estão prontas para largar tudo e embarcar. Esses são os que interessam , e custam a encontrar.

Quarto , quando os prazos começam a apertar sobem os nervos e um tipo arrisca-se a ter que dizer “que se lixe , vai mesmo este” , o que é sempre mau . Qualquer gestor de recursos humanos sabe que contratações à pressa e em desespero de causa costumam dar mau resultado .

Quinto , a quantidade de cowboys que aí anda , que me manda emails a tratar-me como se tivéssemos andado juntos na escola , que se acha o máximo e que até faria o favor de embarcar comigo , se as condições lhes agradassem.Dica para quem quer embarcar como tripulante : se não conhecem o capitão de lado nenhum tratem-no com respeito e formalidade , nunca faz mal nenhum e as coisas sendo normais dentro de pouco trata-se tudo por tu e à vontade , mas não se apresentem cheios de familiaridade. Cai mal.

Sexto , ter que conhecer pessoas novas a cada três meses ou quê , eu sou daqueles que acha que já conheceu gente  suficiente ao longo da vida , não navego sozinho porque não me deixam e olho sempre com desânimo para a perspectiva de ter que conhecer , aturar , ensinar , viver com , cuidar e comandar mais duas pessoas. Já não há paciência , conheci muita gente boa , fiz alguns amigos para a vida mas houve dezenas que entraram e saíram  sem fazer diferença nenhuma. Antes isso que fazer diferença para pior , mas ainda assim é gente a mais.

Sétimo , os orçamentos são fracos e não  há possibilidade de fazer boas ofertas àqueles que interessam mesmo : profissionais que sabem andar nisto. A maior parte desses profissionais ou semi profissionais está mais ou menos habituada a um mundo em que os números são grandes e acham que isso passa aqui para o nosso ramo da indústria , não passa. Aqui é controlo absoluto de custos e desperdício zero , não trabalhamos para  árabes ou russos e como há dezenas e dezenas de propostos tripulantes voluntários , a empresa prefere usar esses em vez de pagar mais. Eu percebo  , mas depois sou eu que tenho que lidar com o amadorismo em todas as frentes ou , como já fiz tantas vezes , retirar dinheiro da minha margem de lucro para pagar a alguém que me garanta confiança e não me chateie.

Por estas razões e mais algumas que não me ocorrem agora , o dia em que puder dizer “acabou , não tenho que continuar a lidar com esta gente toda, paz!” vai ser muito feliz. Os únicos skippers que não têm queixas idênticas a estas são de dois géneros : ou têm uma mulher que navega com eles e assume as funções de imediato , tornando o terceiro elemento quase irrelevante , só tendo que escolher um tripulante de cada vez e sem ter que exigir muito , ou são os queimados que , mais ou menos como eu brincava aí no outro post , acham que desde que tenham dois bracinhos e duas perninhas e vejam alguma coisa, servem.

A preparação desta  viagem para as Maldivas começou bem , davam-me 3 semanas para encontrar tripulação e orçamento para pagar um salário a um imediato competente. Tive sorte e recrutei  logo o imediato que queria , daí  fui à procura de um terceiro , na esperança de que uma proposta destas ia ter escolha larga de  candidaturas interessantes . Depois de ter vários exemplos dessas  razões todas que já me fazem detestar o processo , recebo uma mensagem de uma moça canadiana . De um lado ergueu-se logo uma fila de bandeiras vermelhas , do outro o coro que dizia “é o teu dia de sorte !  Além de ser muito agradável à vista e perto da minha idade a moça já tinha navegado bastante , incluindo com um grande amigo meu que lhe mandava uma recomendação  brilhante, até estava disposta a pagar a viagem do Canadá para a Europa ( tenho quem me reclame  até 10€ de táxis….)  , tinha um sentido de humor excelente e queria fazer o possível para vir nesta viagem.  Havia um senão , só podia largar o trabalho dia 13 e a minha data para estar nas Seychelles era dia 10. Perguntei ao patrão se havia margem. Não havia , lá tive que dizer à moça que não , e como as autoridades das Seychelles exigem a informação das tripulações que lá chegam e que de lá saem com 2 semanas de antecedência (quanto mais terceiro mundo mais burocracia e regras imbecis) vi-me com  24 horas para arranjar alguém. Recorri ao imediato francês da última viagem , que me tinha dito que era só telefonar quando precisasse dele.

Lá fiquei a pensar que foi melhor assim , a velha história das mulheres a bordo e tal , comprei um bilhete para Lisboa para a semana enquanto esperava pela confirmação do dia 10 e eis que hoje recebo um email a dizer que há atrasos de vária ordem , e agora é para estar lá dia 20. A pata que os pôs , é sempre assim , nós estamos sempre às ordens e dificilmente se adia ou antecipa alguma coisa por  24 horas  que seja para nos fazer um jeito , mas comunicam-nos sempre mudanças da parte deles , como esta  , dez dias de atraso , como se não fosse nada de especial e sem sequer um pedido de desculpas . Custa bastante.

Devia ligar  já ao francês a dizer que a viagem foi cancelada e embarcar a canadiana , mas  não funciono assim . Se calhar é pena.

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